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'Venda a América'? Investidores globais reduzem exposição aos EUA em 2026

Movimento ganhou força em 2026 com preocupações sobre política econômica, Fed e dívida pública

Sell America: investidores globais revisam peso dos Estados Unidos nos portfólios diante de incertezas políticas e cambiais (EXAME)

Sell America: investidores globais revisam peso dos Estados Unidos nos portfólios diante de incertezas políticas e cambiais (EXAME)

Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 16h58.

O início de 2026 marcou a disseminação de uma nova tese de investimento nos mercados globais: reduzir a exposição aos Estados Unidos.

Estratégias que por mais de uma década priorizaram ativos americanos passaram a incorporar um movimento conhecido entre gestores como “sell America”, impulsionado por decisões políticas e pelo aumento da percepção de risco institucional no país, segundo o The New York Times.

A mudança ganhou força após o impacto de tarifas elevadas anunciadas em abril do ano passado, que derrubaram ações e títulos públicos. Mais recentemente, voltou ao centro do debate com iniciativas do governo Trump que levantaram preocupações entre investidores, como ataques à independência do Federal Reserve e ameaças de uma nova guerra comercial com a Europa.

Segundo Lauren Goodwin, economista da New York Life Investments, o tema dominou as discussões no encontro global da gestora neste início de ano. De acordo com ela, investidores europeus se surpreenderam com a disposição de americanos em diversificar seus portfólios para fora dos EUA.

Apesar do discurso mais forte, gestores afirmam que o movimento não representa uma saída completa do país, mas sim uma estratégia de proteção, redistribuição de riscos e alocação de novos recursos em outros mercados.

O impacto do 'sell America' nos mercados

Nas últimas semanas, a reavaliação do peso dos Estados Unidos nos portfólios globais pressionou o dólar, interrompeu a alta das bolsas americanas, elevou os custos de financiamento do governo e impulsionou ativos considerados 'porto seguro', como o ouro.

Mesmo com a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve e um acordo de última hora para evitar a paralisação do governo, o dólar encerrou janeiro com queda de 1,2% frente a uma cesta de moedas que inclui euro, libra esterlina e iene.

Em 12 meses, a desvalorização acumulada chega a 10%, um recuo expressivo para uma moeda historicamente forte.

Ouro e metais preciosos ganham espaço

Em meio à instabilidade, ouro e prata atingiram patamares inéditos. Mesmo após correções recentes, os metais acumulam altas de 24% e 19% apenas em janeiro. No acumulado de 12 meses, o preço do ouro avançou cerca de 75%.

Para Adam Turnquist, estrategista-chefe da LPL Financial, a mudança no comportamento do dólar representa uma quebra de paradigma. Segundo ele, a valorização simultânea do dólar e das ações americanas, que sustentou os fluxos internacionais por anos, deixou de existir.

A sinalização do presidente Donald Trump de que um dólar mais fraco tornaria os produtos americanos mais competitivos no exterior acendeu um alerta nos mercados. A fala contrariou a política tradicional dos EUA de defesa de uma moeda forte.

No dia seguinte, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, tentou conter o desgaste ao afirmar que o governo continua comprometido com a força do dólar e com o conceito de excepcionalismo americano nos mercados globais.

Segundo ele, políticas econômicas sólidas continuam sendo um fator de atração para o capital estrangeiro.

Dúvidas sobre instituições e política fiscal

Além da volatilidade política, investidores citam preocupações estruturais para justificar a diversificação: questionamentos sobre a segurança jurídica, pressões sobre o banco central, aumento da dívida pública e decisões econômicas consideradas erráticas.

O rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos subiu para 4,25%, ante níveis abaixo de 4% em outubro. O movimento equivale, na prática, a uma elevação de juros — cenário oposto ao desejado pela Casa Branca.

A forte valorização das ações americanas na última década ampliou o peso dos EUA nos índices globais. Hoje, empresas americanas representam cerca de 70% do MSCI All World, ante aproximadamente 50% há dez anos.

Esse desequilíbrio passou a incomodar gestores, sobretudo diante das avaliações elevadas das empresas ligadas à inteligência artificial e da desaceleração recente do mercado acionário quando medido em outras moedas.

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