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Omã: pelotização da Vale Oman Pelletizing Company LLC teve suas atividades suspensas por causa das 'dificuldades da região' (Agência Vale)
Repórter de Mercados
Publicado em 29 de abril de 2026 às 14h00.
Última atualização em 29 de abril de 2026 às 14h13.
As tensões geopolíticas no Oriente Médio já afetam a operação da Vale. A mineradora suspendeu as atividades da planta de pelotização em Omã, em meio a gargalos logísticos no Estreito de Ormuz, e pretende usar capacidade ociosa em unidades no Brasil, como Tubarão, no Espírito Santo, para compensar parte da produção originalmente prevista para a região. A expectativa é que a unidade de Omã não retome as atividades antes do terceiro trimestre de 2026.
“Antecipamos uma parada de manutenção na planta de Omã, além das obras de construção dos chamados tie-ins, que são as conexões dessa planta com a unidade de concentração que está sendo construída ali ao lado", explica Marcelo Bacci, vice-presidente de finanças e relações com investidores da Vale.
“Quando olhamos para a produção do ano, essa parada, até este momento, não afeta o volume previsto. Ela apenas mudou um pouco o cronograma entre os trimestres", complementa.
A interrupção ocorre em um momento em que a companhia também lida com pressão de custos provocada pela alta do petróleo e do diesel, dois fatores que ganharam peso no balanço do primeiro trimestre de 2026. A combinação de incerteza geopolítica, custos mais elevados e dúvidas sobre os impactos operacionais ajudou a pressionar as ações da Vale (VALE3), que registravam queda de mais de 4% por volta de 13h30 desta quarta-feira, 29, figurando entre as maiores baixas do Ibovespa.
A reação negativa veio após a mineradora divulgar um balanço considerado “menos empolgante” pelo BTG Pactual, com números levemente inferiores às projeções. O desempenho foi afetado principalmente pela divisão de metais básicos, impactada por ajustes contábeis de preços, mas também refletiu a percepção de que os custos vieram mais pressionados do que o mercado esperava.
No minério de ferro, o custo caixa C1 — indicador que mede o custo de produção por tonelada — sofreu impacto de itens como combustíveis, que aparecem dentro da linha de “Outros” e adicionaram cerca de US$ 0,2 por tonelada na comparação entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026.
Além disso, a própria Vale indicou que, considerando uma premissa de petróleo Brent a US$ 90 por barril e câmbio médio de R$ 5,25, seus custos caixa C1 e all-in caminham para a parte superior das faixas de guidance divulgadas para 2026. O custo all-in representa a soma dos gastos operacionais desde a extração na mina até a entrega no porto, incluindo custos de manutenção.
Essa sinalização reforçou a leitura de que a estrutura de custos da companhia pode estar mais pressionada do que o mercado antecipava. O petróleo pesa principalmente no frete marítimo internacional, componente relevante do custo all-in. Pelas estimativas da companhia, cada variação de US$ 10 por barril no Brent gera impacto de aproximadamente US$ 1 por tonelada nos custos de frete.
Já o diesel afeta o custo caixa C1, por ser utilizado no transporte interno nas minas e nas ferrovias. Uma oscilação de 10% no preço do diesel doméstico no Brasil pode impactar o custo caixa C1 em cerca de US$ 0,15 por tonelada. A Vale, no entanto, observa que a correlação entre petróleo e diesel no Brasil não é direta, já que a Petrobras leva em conta outros fatores além da cotação internacional da commodity na definição dos preços domésticos.
Segundo o vice-presidente, a planta de pelotização da Vale Oman Pelletizing Company LLC teve suas atividades suspensas por causa das “dificuldades da região”, especialmente os gargalos logísticos no Estreito de Ormuz, que impediram o cumprimento de rotas para determinados clientes.
Diante desse cenário, a companhia decidiu antecipar paradas de manutenção e obras de interligação, conhecidas como tie-ins, relacionadas a uma nova planta de concentração em construção por um parceiro vizinho.
A paralisação levantou questionamentos sobre o impacto na produção de pelotas e sobre a capacidade das unidades brasileiras de compensar a produção originalmente prevista para Omã. Segundo a companhia, porém, a meta anual de produção de pelotas, entre 30 milhões e 34 milhões de toneladas, não deve ser afetada. A Vale pretende utilizar capacidade ociosa em suas plantas no Brasil para atender à demanda do mercado.
Apesar da interrupção, Omã e o Oriente Médio continuam estratégicos para a Vale no longo prazo. “Obviamente, vamos ter que aguardar o desenrolar desse conflito, porque a situação pode mudar em termos de precificação de mercado e de disponibilidade de gás, que é um tema importante na região. Mas tudo leva a crer que, voltando a uma situação normal, será interessante implantar o projeto lá", diz Bacci.
Dessa forma, a região permanece no radar da companhia para o desenvolvimento dos chamados mega hubs, complexos industriais voltados à concentração e aglomeração de minério de ferro para a produção de metálicos de redução direta. Esses projetos ainda estão em fase de pré-viabilidade e envolvem negociações com parceiros globais. Uma decisão final de investimento, no entanto, dependerá da estabilização do cenário geopolítico e da disponibilidade de gás natural na região.
Mesmo com a pressão provocada pela guerra e pela alta do petróleo, a Vale afirma ter mecanismos importantes de proteção contra a volatilidade. A mineradora conta com exposição de frete totalmente contratada, contratos de longo prazo e instrumentos de hedge para aproximadamente 70% do consumo projetado de óleo bunker em 2026, com proteção para preços do Brent acima de US$ 80 por barril.
No primeiro trimestre, o custo de frete da empresa ficou US$ 6,7 por tonelada abaixo da rota de mercado Brasil–China, mostrando que esses instrumentos ajudam a suavizar parte da pressão.
Segundo Bacci, isso faz da Vale uma das empresas mais protegidas contra a inflação atual do petróleo. “Enquanto produtores de custo mais elevado podem ter sofrido aumentos próximos de US$ 10 por tonelada em razão da alta do petróleo, o impacto no custo all-in da Vale teria sido menor, entre US$ 4 e US$ 5 por tonelada no trimestre. Isso faz com que exista uma vantagem, e é por isso que o preço [do minério] subiu”, explica.
Ainda assim, a existência desses redutores de risco não eliminou a preocupação dos investidores. A leitura predominante é que, mesmo protegida contra parte da alta do petróleo e do frete, a Vale passou a operar com uma base de custos mais próxima do teto de suas próprias projeções. Isso reduz o espaço para surpresas positivas no curto prazo e ajuda a explicar a reação negativa das ações após o balanço.
Na visão da companhia, porém, a pressão de custos foi compensada pela reação dos preços dos produtos vendidos. Para Bacci, o trimestre mostrou a resiliência do negócio em um cenário de incertezas, marcado por guerra, volatilidade no petróleo e aumento de custos.
“Os preços dos nossos produtos mais do que reagiram a esses aumentos de custos, compensaram esses aumentos de custos de forma que a nossa margem ficou intacta ou até aumentou um pouquinho”, afirmou.
Outro ponto de atenção foi o fluxo de caixa livre. Embora tenha permanecido positivo, o indicador foi pressionado por uma saída relevante de capital de giro, o que diminuiu a geração de caixa disponível após investimentos e contribuiu para uma percepção mais cautelosa sobre o trimestre.
Apesar disso, a administração da Vale defende que os resultados demonstram três pontos centrais: desempenho operacional robusto, resiliência do negócio e evolução dos metais de transição. Segundo Bacci, a companhia vem mantendo uma operação “muito robusta”, com volumes de vendas, geração de caixa e previsibilidade operacional consistentes com o que tem sido entregue nos últimos trimestres.
O executivo também chamou atenção para a Vale Base Metals, divisão de metais de transição, cujo Ebitda mais que dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior.
Para os analistas do BTG Pactual, a situação em Omã adiciona um componente de risco ao trimestre, já considerado mais fraco. Ainda assim, a avaliação é que os fundamentos da companhia seguem sólidos. O banco destaca que a Vale continua protegida contra parte dos efeitos da alta do petróleo decorrente da crise geopolítica, graças à exposição de frete totalmente contratada e aos hedges de combustível.
Na visão do BTG, a execução operacional da Vale em outros ativos ajuda a compensar os impactos sazonais e geopolíticos ligados à paralisação em Omã. Além disso, os preços do minério de ferro acima de US$ 100 por tonelada seguem oferecendo suporte aos resultados, mitigando parte das incertezas operacionais momentâneas.
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