Mercados: guerra no Irã freou rali global nos mercados (Boris Zhitkov/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 31 de março de 2026 às 06h00.
Última atualização em 31 de março de 2026 às 06h13.
Depois de um início de ano marcado por recordes, março interrompeu o rali e impôs cautela aos mercados globais. A combinação de tensão geopolítica e disparada do petróleo elevou a percepção de risco. E fez até o Ibovespa, que flertava com os 200 mil pontos, recuar.
O principal índice do mercado brasileiro fechou a segunda-feira, 30, em 182.514 pontos, com queda acumulada entre 3% e 4% em março. Ainda assim, sustenta alta de cerca de 12% a 15% no ano, após atingir máxima histórica próxima de 190.534 pontos em fevereiro.
Nos Estados Unidos, o S&P 500 fechou ao redor de 6.350 pontos na segunda, com recuo de aproximadamente 1% a 2% no mês, em desaceleração frente ao ritmo observado em 2025, embora permaneça positivo no acumulado do ano.
O Dow Jones, próximo de 45.300 pontos, ficou próximo da estabilidade. Já o Nasdaq, em torno de 22.900 pontos, recuou em magnitude moderada, pressionado pela combinação de juros elevados e aumento do risco geopolítico.
Na Europa, o movimento foi contrário.
O DAX, perto de 22.500 pontos, e o CAC 40, ao redor de 7.770 pontos, registraram leves ganhos em março, sustentados pela melhora nas expectativas de crescimento e pela recuperação de setores sensíveis ao ciclo global, como bancos e exportadoras.
Segundo a Bloomberg Intelligence, bancos europeus tendem a ser mais impactados pela situação, devido à maior exposição ao Oriente Médio e ao aumento dos custos energéticos, que afetam cadeias logísticas e margens.
Entre o rali e a Guerra: as 5 maiores altas do Ibovespa no 1º tri de 2026O Nikkei 225, no Japão, destoou. Mesmo operando próximo de 51.900 pontos, o índice recuou em patamar intermediário no mês, pressionado pela volatilidade do iene e pelo aumento da aversão global ao risco.
Após a valorização concentrada no início do ano, os mercados passaram a reagir de forma mais desigual entre regiões, com maior sensibilidade a juros, câmbio e choques externos. O banco suíço Julius Baer descreve o momento como um ajuste “longo e desorganizado”, com recomendação de cautela na tomada de risco.
As commodities se tornaram protagonistas em março.
O petróleo Brent foi negociado entre US$ 111 e US$ 112 por barril, com alta de cerca de até 45% em relação ao mesmo período do ano anterior.O movimento reflete a escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos, com impacto direto sobre o Estreito de Ormuz, além de decisões de oferta da Opep+.
O ouro permaneceu em patamar elevado, entre US$ 4.510 e US$ 4.520 por onça. Mesmo com recuo de cerca de 15% em relação ao pico de março, acumula valorização de aproximadamente 44% a 46% em base anual.
O Bank of America passou a recomendar aumento de exposição a ativos considerados defensivos, como energia, ouro e setores mais resilientes, e redução em posições mais sensíveis ao ciclo, como ações de crescimento e empresas de menor capitalização, diante do risco de estagflação global.
O banco também aponta para um cenário de aversão ao risco persistente, com possibilidade de deterioração adicional ao longo do segundo semestre de 2026 caso o conflito com o Irã se prolongue, mantendo o petróleo acima de US$ 100 por barril e pressionando inflação e atividade.
No mercado de câmbio, o dólar se valorizou frente ao real ao longo do mês. A cotação saiu de cerca de R$ 5,13 para R$ 5,24 no fechamento do dia 30.
O movimento acompanha o aumento do prêmio de risco global e a busca por ativos considerados mais seguros. Parte desse prêmio, segundo casas de análise, já reflete um novo patamar de risco associado à energia e à geopolítica, e não apenas fatores domésticos.
A valorização do dólar também está ligada à revisão das expectativas de juros nos Estados Unidos. Com o mercado passando a precificar taxas elevadas por mais tempo, a moeda americana ganha força relativa frente a divisas emergentes.
O câmbio também reflete saída de capital de mercados de maior risco, em um ambiente de risk-off, o que amplia a pressão sobre moedas como o real e reforça a volatilidade no curto prazo.
O ambiente de risk-off foi reforçado pela revisão das expectativas de política monetária. O mercado passou a precificar juros “mais altos por mais tempo”, diante da pressão inflacionária associada à alta da energia.
No Brasil, o impacto já aparece nas projeções. O Focus elevou a estimativa de inflação para 4,31% em 2026, ante 4,1% antes da escalada do conflito, e passou a projetar Selic em torno de 12,5% ao fim do período, acima dos 12% anteriores.
Economistas apontam uma mudança na natureza da inflação, que passa de demanda para custo, com impacto direto de combustíveis e derivados. O efeito prático é a redução do espaço para cortes rápidos de juros e maior pressão sobre ativos sensíveis ao custo de capital.
Isso reduziu o apetite por risco e limitou ganhos adicionais nas bolsas, especialmente em tecnologia e mercados emergentes.
O cenário reforça uma transição no comportamento dos mercados. Após um início de ano impulsionado por liquidez e expectativa de crescimento, o fim do primeiro trimestre indica maior seletividade dos investidores, com peso crescente de fatores como geopolítica, inflação e trajetória de juros. Definitivamente, são as águas de março fechando o verão dos mercados globais.