Balanço da Riachuelo: entre janeiro a março, a empresa registrou lucro líquido de R$ 5 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 26,7 milhões de um ano antes (Riachuelo/Divulgação)
Repórter
Publicado em 7 de maio de 2026 às 08h52.
A Riachuelo (RIAA3) abriu 2026 entregando um resultado que, à primeira vista, contrasta com o ambiente econômico do país. Em um cenário de juros elevados, com a taxa básica de juros, a Selic, ainda em patamar restritivo, e de famílias mais endividadas, a companhia conseguiu voltar ao lucro em um primeiro trimestre após seis anos e, mais do que isso, superar expectativas que já eram positivas.
Para o CEO André Farber, não há contradição, mas execução. "Quando você olha o macro, o brasileiro está mais endividado e a inadimplência subindo. Quando você olha o nosso número, menos. Temos conseguido operar muito bem nessas águas", afirmou em entrevista à EXAME.
Entre janeiro a março, a empresa registrou lucro líquido de R$ 5 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 26,7 milhões de um ano antes e quebrando uma sequência de seis anos de perdas no período. O número veio acima das projeções do mercado, que já esperava uma volta ao azul, mas em menor magnitude. O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), apontava, por exemplo, um lucro de R$ 3 milhões.
Segundo a varejista, o avanço não foi pontual. A Riachuelo combinou crescimento de receita com melhora de rentabilidade, um ponto central na leitura do resultado. A receita líquida somou R$ 2,3 bilhões, alta de 6,7% na comparação anual, enquanto o Ebitda consolidado cresceu 14,1%, para R$ 268 milhões. Já as vendas em mesmas lojas (SSS) avançaram 10,1%, no 11º trimestre consecutivo de alta.
Mais relevante, porém, foi o ganho de margem. A operação de vestuário, principal motor do negócio, atingiu margem bruta de 54,9%, com expansão de 1,2 ponto percentual no ano, acumulando dez trimestres seguidos de melhora. Isso significa, na prática, que a empresa está vendendo mais e com maior rentabilidade, uma combinação que começa a aparecer no lucro.
Farber atribui esse movimento a uma mudança estrutural na estratégia. Ao invés de competir apenas por preço, a Riachuelo tem apostado em moda proprietária, com maior controle sobre criação e desenvolvimento de produto. "Quando você faz uma moda com assinatura própria, com criatividade brasileira, você consegue ter margens mais saudáveis, independentemente da competição", disse.
Essa lógica ajuda a explicar por que a companhia tem conseguido crescer mesmo com o consumo pressionado. Segundo o executivo, há sinais consistentes de ganho de participação de mercado ao longo dos últimos trimestres. "Independentemente das condições do mercado, estamos sustentando bons crescimentos, ganhando share", afirmou.
Do lado financeiro, a resiliência passa por uma abordagem mais conservadora no crédito mesmo mirando o público que está com bolso mais apertado. A Midway, braço financeiro da varejista, segue crescendo, mas com controle de risco em um ambiente mais desafiador. Nos primeiros três meses do ano, o Ebitda foi de R$133 milhões, crescimento de 5,8% na comparação anual.
"A gente opera hoje num Brasil de juros altos e população endividada. Por isso, tem uma postura conservadora na oferta de crédito", disse o CEO.
Ainda assim, o próprio executivo reconhece que há um descompasso entre o tamanho da operação e o lucro líquido. Apesar da volta ao azul, os R$ 5 milhões são modestos diante do porte da companhia e do nível de geração operacional.
"Está dentro do planejado, mas ainda vemos bastante espaço para melhoria. Sair do prejuízo para o lucro no primeiro trimestre faz parte desse processo de evolução, e a ideia é não parar por aí", afirmou.
O resultado, contudo, veio acima das estimativas do mercado financeiro, reforçando a percepção de boa execução e abrindo espaço para revisões positivas de lucro, um dos principais gatilhos para o setor, segundo o Itaú BBA.
O otimismo com a empresa vem se refletindo nos papéis da Riachuelo, que acumulam alta próxima de 56% no ano, superando concorrentes como C&A (CEAB3), com ligeira alta de 3,61% no período, e Lojas Renner (LREN3), com valorização de 10%.
Mesmo assim, Farber avalia que a virada da companhia ainda não está totalmente refletida nos preços. "O mercado já reconheceu uma boa parte da nossa melhora, mas eu não vejo que tenha precificado tudo ainda", disse.