Recessão ou inflação: que os investidores temem mais?

A mudança de foco, da luta contra a inflação para a luta contra a recessão está empurrando os investidores de volta aos papéis de risco
 (Brendan McDermid/Reuters)
(Brendan McDermid/Reuters)
Carlo Cauti
Carlo CautiPublicado em 08/07/2022 às 06:30.

Nesta quinta-feira, 7, as Bolsas de Valores do mundo inteiro registraram altas expressivas, com uma aparente volta do apetite pelo risco por parte dos investidores.

Em Nova York, o Nasdaq subiu 2,28%, o Dow Jones 1,12% e o S&P 500 ganhou 1,50%. Na Europa, o Eurostoxx 50 se valorizou 2,01%.

No Brasil, o Ibovespa ganhou 2,04%, superando novamente o patamar de 100 mil pontos.

As Bolsas de Valores não estão se valorizando ao acaso. Essa recuperação mostra a mudança de foco dos investidores, que passaram do medo da inflação ao temor da recessão.

Investidores apostando que o pior da inflação já passou

Aguardando a divulgação dos dados sobre a inflação nos Estados Unidos, que serão divulgados no dia 13 de julho, os investidores começam a considerar com maior probabilidade a hipótese de que o pico da alta dos preços já foi atingido.

Como resultado, o pior cenário de inflação galopante foi momentaneamente arquivado, e o foco mudou para o próximo inimigo a ser domado, a recessão.

Uma recessão técnica poderia ser oficializada nos EUA antes do esperado.

Muitos analistas, gestores de fundos e grandes banqueiros americanos já falam abertamente de contração da atividade econômica nos EUA.

Os números do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre serão divulgados no dia 28 de julho, mas se as estimativas do Federal Reserve (Fed) de Atlanta atualizadas nesta quinta-feira se confirmarem, o PIB americano deverá registrar uma contração de 1,9%.

Isso significará que, do ponto de vista técnico, os Estados Unidos eles já estão em recessão, pois o primeiro trimestre do ano fechou no vermelho, com um PIB anualizado caindo 1,6%.

Na última semana, os pedidos de subsídio de desemprego nos EUA subiram 4 mil unidades, chegando em 235 mil, contra os 230 mil esperados.

Tudo parece caminhar para uma recessão, que no momento parece assustar um pouco menos os investidores do que o cenário de inflação descontrolada.

Mudança de estratégia para fazer frente a recessão

Em um contexto de recessão os bancos centrais têm uma menor propensão em aumentarem as taxas de juros, para poder cortá-las posteriormente.

Por isso, os investidores já estão trabalhando com a hipótese que o Fed começará a diminuir os juros já no final de 2023, depois de construir um "colchão" para operar com taxas mais altas até o final do ano.

Além disso, a ata da última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Fed mostrou claramente a intenção de continuar com o aperto monetário na taxa de 50-75 pontos base em cada reunião até pelo menos o final do segundo semestre.

Mesmo que a inflação dê um sinal de pico, o Fed continuará a política monetária restritiva.

Talvez para entregar para o presidente americano, Joe Biden, um resultado significativo para as eleições de meio de mandato, que ocorrerão em novembro.

Ações de tecnologia sofrerão mais?

Mas em época de recessão, que sofre mais são as ações de tecnologia, as mais penalizadas em um cenário de combate à inflação.

E é por isso também que o Nasdaq parece ter mais força do que outros índices nesta recuperação.

O que é interessante, é que mesmo em um cenário de inflação elevada e de recessão esperada, o dólar não para de subir. Com o Dollar Index que nesta quinta ultrapassou os 107 mil pontos, nível que não alcançava desde 2022.

Um sinal claro para os outros Bancos Centrais do mundo, que é hora de elevar também os juros para fazer frente a inflação. Mas com o risco de antecipar essa, já esperada, recessão.