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Rali de fim de ano? Gestores ainda veem espaço para entrada de estrangeiros na bolsa

Mercado local vê maior preferência do investidor internacional por Lula; ingresso de capital externo na B3 foi de R$ 5,5 bilhões nos 5 primeiros pregões após 2º turno

 (Cris Faga/NurPhoto/Getty Images)

(Cris Faga/NurPhoto/Getty Images)

Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

9 de novembro de 2022, 10h08

Nunca na história a bolsa brasileira recebeu tanto capital estrangeiro neste ano. O volume, segundo os últimos dados da B3, está em R$ 105,3 bilhões, 150% superior à entrada do ano passado, quando o saldo foi de R$ 41,54 bilhões. A diferença, porém, deve ser ainda maior até o fim do ano. Essa, ao menos, é a expectativa de gestores locais, que veem na vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre o atual presidente Jair Bolsonaro um atrativo para investidores internacionais aumentarem suas apostas no Brasil.

"A expectativa já era de entrada de mais capital externo independentemente de quem ganhasse, mas há um viés ainda mais positivo porque o investidor estrangeiro gosta do Lula", disse George Wachsmann, CEO da Empiricus Gestão. "A manchete lá fora era de que o Brasil tinha um presidente fascista que queria destruir a Amazônia. Não estou dizendo que é a narrativa correta, mas é uma narrativa superficical que acabou pegando no exterior. Grosseiramente falando, é menos um obstáculo [a saída de Bolsanaro]."

Apesar da entrada massiva de capital externo, ainda há dúvidas sobre como o estrangeiro receberá a PEC da Transição, que no Brasil já está chamando atenção de gestores e despertou duras críticas do Verde e da Rio Bravo. No entanto, o investidor internacional já sabia das preocupações sociais de Lula e como isso poderia pressionar orçamento.

O conforto do estrangeiro por Lula se mostrou nos primeiros pregões após o resultado da eleição. Somente no dia seguinte ao pleito final, a entrada de capital externo na B3 foi de R$ 1,9 bilhão. Naquele dia, porém, o Ibovespa abriu em queda de mais de 2%, com investidores locais reagindo negativamente à vitória petista. O movimento de virada teve início só a partir das 10h30, mesmo horário em que abriu o pregão à vista nos Estados Unidos. No fim do dia, o Ibovespa encerrou com 1,31% de alta.

"Minha avaliação foi que a virada começou quando entraram os estrangeiros. O mercado local abriu com a pulga atrás da orelha. Mas tenho plena convicção que o investidor estrangeiro prefere o Lula ao Bolsonaro", afirmou Fábio Okumura, sócio-fundador e CIO da Gauss Capital. "O governo Bolsonaro não foi ruim, o problema é a forma que lidava com a comunicação", avaliou.

A entrada do estrangeiro na semana após a vitória de Lula ficou em R$ 4,8 bilhões, com o Ibovespa fechando em alta de 3,16%. A entrada massiva de estrangeiros também teve efeito no dólar, que desabou de R$ 5,30 para R$ 5,06 na última semana. Mas o movimento se estendeu, pelo menos, até segunda-feira, 7, quando o saldo de capital externo nos cinco pregões após o resultado das eleições chegou a R$ 5,5 bilhões, segundo dados mais recentes da B3.

Quem esteve na ponta vendedora foram os fundos locais, que retiraram da bolsa R$ 5,1 bilhões nos cinco primeiros pregões após a vitória de Lula.

"É inegável que grande parte do mercado financeiro brasileiro, gostando muito ou pouco estava torcendo por uma vitória do Bolsonaro. Durante um período, houve certa euforia com pesquisas indicando avanço do Bolsonaro, mas foi um claro sinal de viés de confirmação", disse Okumura. 

Foi justamente em meio a essa euforia, duas semanas antes do segundo turno, que o valor de mercado da Petrobras disparou, chegando a bater máxima histórica. Foi aí que Okumura viu uma oportunidade: a de apostar contra a estatal, na expectativa de que Lula confirmasse a vitória, o que poderia levantar questionamentos sobre sua lucratividade e derrubar o preço das ações. A teoria se comprovou, com a estatal encerrando última semana em queda de 11,38%, mesmo com a entrada de estrangeiros.

Thalles Franco, gestor da RPS Capital, tinha as ações da estatal antes do primeiro turno, mas vendeu para não ficar exposto ao risco eleitoral. "Agora, com Lula eleito, definitivamente, não vamos voltar a ter estatais na carteira por um tempo. Pelas próprias declarações do Lula, o governo poderá usar as estatais para políticas sociais, o que é muito ruim para o acionista minoritário", disse.

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Estrangeiros para além das eleições

Franco também vê maior preferência do investidor estrangeiro ao Lula, mas acredita que o entrada de capital externo possa aumentar ainda mais até o fim do ano por questões que vão além da política local.

"O estrangeiro tem um problema de alocação. Nos Estados Unidos, ainda há os desafios para controlar a inflação, com o Federal Reserve mais duro. A China está com problemas de Covid e a Europa, de energia, devido à guerra na Ucrânia. Várias regiões do mundo estão com muitos riscos e incertezas. Então, o Brasil se destaca", pontuou. "Há um potencial gigantesco para entrada de capital externo na bolsa. O que entrou até agora pode ser só um pedacinho do que pode vir, se o Brasil trilhar o caminho correto."

Esse "caminho correto", segundo gestores locais está totalmente associado às nomeações de Lula para tocar as pautas econômicas e sinalizações sobre como irá tocar as questões fiscais.

"Agora cabe ao novo governo não espantar o investidor estrangeiro. Se fizer o trabalho correto e mostrar que tem alguma âncora fiscal para substituir o teto de gastos [o movimento tende a continuar]. Mas se Lula indicar alguém do perfil do [Aloizio] Mercadante para a Fazenda, aí não vai entrar nada", disse George Wachsmann.

Um teste para os ânimos do mercado foi feito no início desta semana, com rumores de que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad poderia ser o novo ministro da Fazenda. A resposta foi clara, com o Ibovespa fechando em queda de mais de 2% na sgunda-feira, 7, e o dólar registrando sua maior alta em duas semanas.