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Raízen renegocia R$ 65 bilhões. O que muda para as ações da empresa?

Processo permite reestruturar passivos fora da recuperação judicial, mas costuma aumentar a volatilidade dos papéis

Raízen: maior recuperação extrajudicial na história do Brasil (Raízen/Divulgação)

Raízen: maior recuperação extrajudicial na história do Brasil (Raízen/Divulgação)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 14 de março de 2026 às 08h00.

A Raízen (RAIZ4), empresa de energia e bioenergia controlada por Cosan e Shell, protocolou nesta semana o maior pedido de recuperação extrajudicial do país, com o objetivo de renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. O endividamento total da companhia supera R$ 70 bilhões, resultado de um ciclo de investimentos bilionários e de uma deterioração do desempenho operacional nos últimos anos.

A recuperação extrajudicial tem sido utilizada por empresas que buscam reorganizar dívidas sem recorrer à recuperação judicial. Nesse modelo, a companhia negocia diretamente com parte dos credores e leva posteriormente o acordo à validação judicial. Diferentemente da recuperação judicial, o processo não envolve todos os compromissos financeiros da empresa. O objetivo é obter mais prazo ou melhores condições de pagamento para reorganizar as finanças e evitar problemas mais graves, como o risco de falência.

Entre as principais medidas previstas estão a suspensão temporária do pagamento de juros por 90 dias, período conhecido como standstill; a conversão de aproximadamente 40% da dívida em participação acionária, o alongamento de prazos e a possível renegociação de condições com credores. Para investidores, essas alternativas indicam potencial diluição, extensão de prazos e mudanças no perfil de risco dos papéis.

O impacto da recuperação extrajudicial apareceu rapidamente na ação da empresa. No acumulado desta semana, o papel recuou 18,8%.

Prevista na Lei de Recuperação Judicial e Falências do Brasil, a recuperação extrajudicial permite que empresas negociem a reestruturação de dívidas diretamente com credores e levem o acordo à homologação da Justiça apenas após obter apoio mínimo de parte deles. O mecanismo costuma ser mais rápido e menos complexo que a recuperação judicial tradicional, além de preservar, em tese, maior controle da companhia sobre sua operação durante o processo.

Para os acionistas, no entanto, o anúncio de uma renegociação de dívida costuma elevar a percepção de risco em relação à empresa. Isso ocorre porque o pedido sinaliza pressão sobre o caixa e dúvidas sobre a capacidade de cumprir obrigações financeiras. Como consequência, investidores tendem a reavaliar o valor da companhia, o que frequentemente resulta em maior volatilidade ou queda no preço das ações.

Outro fator que pesa sobre os papéis é a prioridade dos credores em processos de reestruturação. Em cenários de estresse financeiro, credores costumam ter preferência no recebimento de recursos ou em eventuais negociações de conversão de dívida. Dependendo do acordo firmado, a empresa pode até emitir novas ações para reduzir passivos, o que dilui a participação de acionistas existentes.

Revisões de risco feitas por agências de classificação de crédito, como a S&P Global Ratings, entram na avaliação de riscos. Rebaixamentos de rating ou classificações associadas a inadimplência parcial, como aconteceu com a Raízen, podem aumentar a cautela dos investidores institucionais e intensificar a pressão sobre os papéis no curto prazo.

Apesar disso, o movimento nem sempre é interpretado apenas de forma negativa. Em alguns casos, a recuperação extrajudicial é vista como uma tentativa de reorganizar a estrutura financeira antes que a situação da empresa se deteriore ainda mais. Ao evitar um processo de recuperação judicial, a companhia pode preservar suas operações, renegociar prazos e reduzir a pressão imediata sobre o caixa, além de aumentar a previsibilidade do cenário futuro.

Para investidores, a análise do caso exige atenção a alguns pontos-chave do plano de reestruturação. Entre eles estão o percentual de credores que aderiram ao acordo, o volume total da dívida renegociada, o impacto no fluxo de caixa da empresa e a possibilidade de emissão de novas ações ou conversão de dívida em participação societária.

No fim, embora a recuperação extrajudicial possa representar uma oportunidade de reorganização financeira para a empresa, ela costuma marcar um período de maior risco e volatilidade para quem investe nas ações da companhia. A evolução das negociações com credores e a capacidade de recuperação da saúde financeira da empresa tendem a ser determinantes para o desempenho dos papéis no médio e longo prazo.

Caso Raízen

Desde outubro de 2025, as ações da Raízen passaram a ser negociadas abaixo de R$ 1. Pelas regras da B3, nenhum papel pode permanecer mais de 30 pregões consecutivos abaixo desse patamar. Ações negociadas abaixo de R$ 1 são conhecidas no mercado como penny stocks.

Depois de meses cotada na casa dos centavos, a companhia foi formalmente notificada pela B3 em dezembro e precisa apresentar um plano para reenquadrar a cotação mínima. A regularização deverá ocorrer até 29 de maio de 2026. Caso contrário, os papéis poderão ser retirados dos índices da bolsa dos quais participam, incluindo o Ibovespa.

Desde o IPO, em 2021, a companhia já perdeu aproximadamente 90% do valor de mercado na bolsa, um contraste com as expectativas de estreia no mercado, que acreditavam no potencial da Raízen em disputar o protagonismo global no setor de etanol. Somente em 2025, as ações da empresa acumularam queda superior a 68%, refletindo a perda de confiança de investidores diante do aumento do endividamento da empresa.

Apesar da reestruturação financeira, a companhia afirma que a recuperação extrajudicial não inclui obrigações operacionais, o que significa que fornecedores, clientes e parceiros continuam sendo pagos normalmente.

Outros grandes acordos recentes

A renegociação da Raízen amplia o tamanho das recuperações extrajudiciais no país. O segundo maior caso recente envolve o Grupo Pão de Açúcar (GPA), que protocolou também na terça um acordo para reorganizar cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas não garantidas.

No setor de energia, o Grupo Rio Alto iniciou em julho de 2025 uma recuperação extrajudicial de aproximadamente R$ 2,95 bilhões.

No agronegócio, a Lavoro Agro protocolou em 2025 um acordo envolvendo entre R$ 2,2 bilhões e R$ 2,5 bilhões em dívidas da Lavoro Distribuição Brasil e da Perterra.

Já na mineração, a Araguaia Níquel Metais, ligada à Horizonte Minerals, iniciou em fevereiro de 2025 uma recuperação extrajudicial de cerca de R$ 2,45 bilhões relacionada ao projeto Araguaia, no Pará.

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