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'Petróleo em guerra': quem realmente lucra com o barril acima de US$ 77

Venezuela permanece como um caso emblemático de “maldição dos recursos”

Arábia Saudita combina produção elevada, custos baixíssimos e estabilidade operacional (Anton Petrus/Getty Images)

Arábia Saudita combina produção elevada, custos baixíssimos e estabilidade operacional (Anton Petrus/Getty Images)

Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 3 de março de 2026 às 06h00.

Última atualização em 3 de março de 2026 às 06h31.

A dinâmica dos preços internacionais do petróleo neste início de ano aprofunda um cenário em que nem todos os grandes produtores conseguem transformar reservas abundantes em lucro efetivo.

O início de 2026 foi marcado pela operação militar dos EUA contra o então ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e agora o conflito aberto entre o governo de Donald Trump e Israel contra o Irã, com Teerã buscando um líder supremo após a confirmação da morte de Ali Khamenei. O principal fator que une esses dois países é o petróleo.

Com a instabilidade, um movimento esperado no mercado é o aumento do barril de petróleo. O tipo Brent, o mais comercializado, já tinha cotação superior a US$ 77 o barril na segunda-feira, 2.

Qual a produção de petróleo do Irã?

O Irã tem uma das maiores reservas de hidrocarbonetos do mundo, com cerca de 10% das reservas mundiais de petróleo e aproximadamente 15% das reservas de gás natural.

O setor é o principal pilar da economia, pois representa, direta ou indiretamente, até 30% do PIB, e uma proporção muito maior da receita por exportações e da renda estatal.

Em 2017, período em que se intensificaram sanções contra o país, Teerã produzia cerca de 4,1 milhões de barris de petróleo por dia. Em 2026, essa produção está na casa de 3,2 milhões de barris diários, ou seja, quase um milhão a menos.

Atores no xadrez econômico do petróleo

Países como Arábia Saudita e Rússia costumam responder de maneira direta à elevação do barril. Já a Venezuela permanece como um caso emblemático de “maldição dos recursos”, onde a alta do petróleo não se traduz automaticamente em benefícios econômicos proporcionais.

Venezuela: a gigante que não consegue lucrar

A Venezuela detém a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, cerca de 303 bilhões de barris, superando Arábia Saudita e Irã. No entanto, essa vantagem geológica contrasta com uma incapacidade estrutural de converter reservas em receita: sua produção, que já chegou a 3,7 milhões de barris/dia, caiu para algo próximo de 1 milhão.

Essa limitação significa que mesmo com preços altos, o país não colhe os dividendos esperados. Entre as razões estão:

  • Colapso da estatal PDVSA, marcado por deterioração de infraestrutura, fuga de especialistas e décadas de má gestão.
  • Sanções internacionais, que restringem compradores e obrigam o país a usar esquemas logísticos complexos — como troca de bandeiras de navios e venda indireta via intermediários asiáticos — reduzindo margens de lucro e criando custos adicionais.
  • Predominância do petróleo extrapesado do Orinoco, que exige refino caro e limita a competitividade mesmo em mercados favoráveis.

Mesmo em momentos de turbulência global — como a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 e a tentativa dos EUA de ampliar a produção local para influenciar o mercado — a Arábia Saudita declarou não esperar “impacto significativo” no preço internacional decorrente da situação venezuelana, justamente porque a Venezuela exporta pouco e não pesa mais como grande player.

O que significa para a Venezuela: o petróleo caro ajuda, mas muito menos do que poderia. O país está longe de aproveitar plenamente a alta de preços e depende quase totalmente da China para escoar o que consegue exportar (cerca de 80% das vendas).

Rússia: entre sanções e adaptação

A Rússia, segundo maior produtor do mundo, é historicamente uma das economias que mais se beneficia da alta do petróleo. Contudo, após as sanções dos EUA e da União Europeia contra Rosneft e Lukoil — responsáveis por mais de 55% da produção russa — o mercado passou a operar sob tensão após a guerra da Ucrânia, que completou quatro anos recentemente.

O que significaram as sanções aplicadas entre 2025 e 2026:

  • elevaram o preço do barril em cerca de 5% imediatamente após seu anúncio ao restringirem o fluxo de petróleo russo para China e Índia, seus principais compradores
  • pressionaram Moscou a redirecionar exportações e operar por meio da chamada “frota paralela”, além de descontos para manter clientes estratégicos, um mecanismo descrito por analistas como essencial para manter receitas em meio ao isolamento internacional.

Mesmo assim, a alta dos preços favorece a Rússia: quanto mais caro o barril, mais recursos entram para sustentar sua economia — que continua financiando tanto o esforço de guerra quanto o orçamento público. Segundo análises de 2025, os altos preços ajudaram a "mascarar" algumas fragilidades da economia russa, sustentando receitas mesmo diante juros elevados.

Ainda mais importante: ataques ucranianos a instalações russas elevaram o “prêmio de risco” do petróleo, puxando os preços para cima e, paradoxalmente, criando um ambiente onde a Rússia lucra com a instabilidade que ela própria alimenta — apesar das perdas operacionais locais.

O que significa para a Rússia: apesar das sanções, a Rússia continua lucrando com o petróleo caro, pois mesmo reduzindo volumes exportados, o aumento dos preços compensa parcialmente as restrições. Mas seus lucros são menores do que seriam em um cenário sem bloqueios.

Arábia Saudita: a grande vencedora do petróleo caro

Ao contrário da Venezuela e da Rússia, a Arábia Saudita combina produção elevada, custos baixíssimos e estabilidade operacional. Isso faz com que qualquer alta do preço do barril se converta diretamente em receita, com capacidade de ajuste fino por meio da Opep+.

A posição saudita é tão estratégica que, mesmo diante de choques políticos em outros grandes produtores — como Venezuela, Rússia e Irã —, o país costuma minimizar o impacto global, reafirmando seu papel de estabilizador do mercado. Foi exatamente o que fez o ministro das Finanças saudita ao afirmar em Davos que a crise venezuelana não teria impacto relevante no mercado global, reforçando a autoconfiança do país como “âncora” do setor.

Diferentemente da Rússia:

  • não enfrenta sanções,
  • não depende de mercados paralelos,
  • possui infraestrutura moderna,
  • e ajusta produção de forma coordenada com a Opep para manter o barril em patamares favoráveis.

O que significa para a Arábia Saudita: quando o barril sobe, ela é a grande ganhadora, com lucros diretos, margens amplas e influência estratégica em discussões geopolíticas.

Quem lucra mais com o petróleo caro?

  1. Arábia SauditaLucra de forma plena, converte cada dólar adicional do barril em receita fiscal imediata, sem entraves estruturais.
  2. RússiaLucra, mas menos do que poderia. Preços altos ajudam, mas sanções, descontos e mercados restritos limitam o ganho.
  3. VenezuelaÉ a que menos lucra, apesar de possuir a maior reserva do mundo. Problemas internos, sanções e baixa capacidade produtiva impedem o país de aproveitar a valorização do petróleo.
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