Constantino Junior: fundador da Gol morreu neste sábado, 24 (Germano Lüders/EXAME)
Repórter
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 10h18.
Constantino Junior é o nome por trás de uma das maiores transformações da aviação comercial brasileira. Fundador da Gol Linhas Aéreas Inteligentes, ele foi o executivo que introduziu o modelo baixo custo, baixa tarifa no país e liderou, em 2007, a aquisição da Varig, até então a companhia aérea mais tradicional do Brasil.
Nascido em Patrocínio, Minas Gerais, em 12 de agosto de 1968, Constantino cresceu em um ambiente empresarial ligado ao transporte.
Filho de Nenê Constantino, fundador do Grupo Áurea, começou a trabalhar aos 14 anos como digitador em uma das empresas da família. Aos 15, aprendeu a pilotar aviões, unindo duas paixões que marcariam sua trajetória: aviação e velocidade.
Formou-se em Administração de Empresas e complementou a formação com programas executivos voltados à gestão corporativa. Ainda jovem, passou a atuar diretamente nos negócios do grupo familiar, onde adquiriu experiência operacional antes de assumir posições estratégicas.
Em janeiro de 2001, ao lado dos irmãos Joaquim, Ricardo e Henrique, fundou a Gol Linhas Aéreas Inteligentes.
A empresa nasceu com uma proposta inédita no Brasil: operar com frota padronizada de Boeing 737, reduzir custos operacionais, vender passagens pela internet e eliminar serviços considerados supérfluos.
O primeiro voo, entre Brasília e Congonhas, marcou o início de uma mudança estrutural no setor.
Sob a liderança de Constantino como presidente, a Gol forçou uma queda generalizada nos preços das passagens aéreas. Em pouco mais de uma década, cerca de 65 milhões de brasileiros viajaram de avião pela primeira vez, segundo a própria empresa.
Em 2004, apenas três anos após a fundação, a Gol realizou uma abertura de capital simultânea na Bovespa (nome da Ibovespa à época) e na Bolsa de Nova York, captando US$ 281 milhões. O movimento consolidou a empresa como um dos principais players do setor e transformou Constantino em uma das figuras mais influentes do empresariado brasileiro.
O passo mais controverso de sua carreira veio em 2007. Em meio à recuperação judicial da Varig, Constantino liderou a compra da VRG Linhas Aéreas, empresa criada para abrigar os ativos operacionais da antiga companhia, por US$ 320 milhões.
A operação foi possível graças à nova Lei de Falências, que permitia a venda de ativos sem sucessão de passivos.
A Gol incorporou a marca Varig, o programa de fidelidade Smiles, aeronaves e slots estratégicos em aeroportos como Congonhas e Guarulhos, sem assumir dívidas trabalhistas e previdenciárias acumuladas ao longo de décadas.
Do ponto de vista jurídico, a operação foi considerada inovadora e acabou confirmada posteriormente pelos tribunais. Do ponto de vista empresarial, porém, revelou-se um desafio maior do que o previsto.
A integração entre Gol e Varig expôs diferenças profundas de cultura, frota e sistemas operacionais. Em 2008, agravada pela crise financeira global, a companhia registrou um prejuízo recorde de R$ 1,38 bilhão.
Anos depois, Constantino reconheceria o erro estratégico da operação.
Mesmo assim, a Gol manteve posição de destaque no mercado doméstico e, em 2013, chegou a deter 37,3% de market share, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Em 2012, Constantino deixou a presidência executiva da companhia e passou a atuar como presidente do conselho de administração. A gestão operacional foi assumida por Paulo Kakinoff.
No ano seguinte, liderou a abertura de capital da Smiles, empresa responsável pelo programa de fidelidade da Gol.
A partir de 2022, Constantino assumiu papel central na criação do Grupo Abra, holding que reuniu Gol e Avianca, com participações em outras companhias da América do Sul.
Como CEO do grupo, passou a comandar uma operação regional com presença em cinco países, mirando escala e integração internacional.
Fora da aviação, Constantino manteve ligação constante com o automobilismo. Competiu como piloto na Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, onde foi vice-campeão em 2008 e campeão em 2011.
Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios empresariais nacionais e internacionais, incluindo reconhecimentos por inovação, liderança e empreendedorismo.
Constantino Junior morreu neste sábado, 24, aos 57 anos, em São Paulo, após enfrentar um câncer.
Deixou como legado a democratização do transporte aéreo no Brasil, duas aberturas de capital, uma das aquisições mais complexas da história do setor e um modelo de negócios que redefiniu a aviação comercial no país.