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Quem foi Arthur Burns, o chefe do Fed que baixou juros por pressão do governo

O clima em Wall Street é de "dejá-vu", com especialistas alertando que a história pode estar prestas a entrar em um remake

Arthur Burns: o ex-presidente do Fed que cedeu à pressão de Nixon (Reprodução da internet) (Bettmann Collection/Getty Images)

Arthur Burns: o ex-presidente do Fed que cedeu à pressão de Nixon (Reprodução da internet) (Bettmann Collection/Getty Images)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 06h00.

Nos últimos meses, um nome do qual pouco se falava no mercado financeiro se tornou frequente no discurso de analistas e operadores: Arthur Burns. O motivo pelo qual os agentes lembram do economista, que presidiu o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) na gestão do presidente Richard Nixon, não é dos melhores.

Isso porque Burns sofria pressões do governo americano para reduzir a taxa de juros, situação semelhante a vivida hoje pelo atual chairman do Fed Jerome Powell. O BC americano, à época, acabou cedendo aos apelos de Nixon e os resultados foram desastrosos. O temor, agora, é que a história se repita com a insistência de Donald Trump.

O clima em Wall Street é de "dejá-vu". Cada vez mais, o republicano tem subido o tom contra Powell, chamando-o de "pessoa ruim" e relatando que não vê problemas em interferir nas decisões da entidade. Especialistas e fontes do mercado já alertam que a história pode estar prestas a entrar em um remake preocupante.

O movimento evoca as memórias de 1970. Arthur Burns (1904-1987) não era iniciante, pelo contrário, era um economista austríaco com um currículo impecável na Universidade Columbia e anos de experiência aconselhando presidentes antes de assumir o Fed. Após o doutorado, deu aulas na Universidade Rutgers por mais de dez anos.

Ele foi, ainda, presidente e diretor do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica, presidiu o Conselho de Assessores Econômicos do Presidente e foi membro do Comitê Consultivo Presidencial sobre Política Trabalhista e de Gestão. O grande problema foi sua relação de extrema proximidade com o ex-presidente Nixon.

O mandatário americano, na época, estava obcecado com sua reeleição em 1972. Ele temia que as taxas de desemprego atrapalhassem os seus planos. No Salão Oval, registros de gravações revelam que o presidente exigia uma política monetária expansionista sem pudores, chegando a dizer que Burns precisava de um "chute no traseiro".

O intuito era agir com mais agressividade para a redução dos juros. Ceder a essas pressões foi o erro histórico de Burns.

Grande Inflação

Ele permitiu que o fornecimento de dinheiro crescesse rapidamente para garantir que a economia estivesse quente para a vitória de Nixon. O resultado disso é o período conhecido por economistas como Grande Inflação. O Fed reagiu de forma lenta quando os preços começaram a disparar, mantendo dinheiro fácil por tempo demais.

Em 1974, a inflação já estava na casa dos dois dígitos e a economia americana mergulhou em uma recessão profunda. Burns, que deveria ser o guardião da moeda, acabou entrando para a história como o homem que deixou o monstro da inflação sair da jaula. Algo que só veio a melhorar com a gestão de Paul Volcke e juros altos.

Alguns fatores econômicos estavam relacionados à inflação, como o programa de controle de preços e salários do governo; choques nos preços do petróleo e dos alimentos; e políticas fiscais governamentais. Burns chegou a refletir que "em um mundo em rápida transformação, as oportunidades para cometer erros são inúmeras", segundo arquivos do Fed.

Independência é essencial para estabilidade

Desde então, a independência do órgão é considerada a "pedra angular" da estabilidade de preços; e figuras como Jamie Dimon, CEO do JP Morgan, advertem que manipular os juros por motivos políticos é uma receita para o desastre global. Na sua visão, a confiança na economia pode desmoronar se o mercado acreditar que as decisões não são técnicas.

Enquanto isso Trump reage às críticas, afirmando que está tudo bem em fazer o que vem fazendo e dizendo que Dimon está errado. Chefes de bancos centrais do Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul e Brasil se manifestaram em favor do Fed. A expectativa é que outros bancos, além do JP Morgan, façam o mesmo.

Burns permanece como um lembrete de que, quando a política atropela a independência econômica, o futuro costuma cobrar uma fatura muito cara. Agora, após a escalada da tensão envolvendo o Fed, com a confirmação de Powell sofrer uma investigação judicial sobre reformas na sede e pressões para a diretora Lisa Cook deixar o cargo, fica a dúvida do que virá a seguir.

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