Queda da bolsa é momento certo para separar "joio do trigo", diz gestor da Absolute

Em entrevista à EXAME, Christian Faricelli avaliou a queda generalizada da bolsa como boa oportunidade para encontrar preços atrativos, mas risco à frente segue elevado
 (Divulgação/Divulgação)
(Divulgação/Divulgação)
Bianca Alvarenga
Bianca AlvarengaPublicado em 28/06/2022 às 06:04.

No mercado, existe uma regra que quase nunca falha, e que diz: a bolsa de valores desce de elevador e sobe de escada. O paralelo serve para explicar a rapidez com que os ativos perdem valor, e, por outro lado, a morosidade com que se recuperam. Mas também poderia ser uma boa explicação para o movimento de manada da crise: a descida das ações pelo elevador acontece em grupo.

E é nesse momento de debandada geral que as oportunidades surgem. A gestora Absolute, famosa por adotar o método de análise fundamentalista para a escolha de ativos, tem garimpado ações que desceram de elevador, e que podem pegar um atalho na recuperação, ao invés de subirem os degraus da escada.

"Em um momento de crise, como agora, o mercado fica irracional, e a maioria das ações despenca. Só que na hora de subir, o que vale são os fundamentos. É aí que entra a lógica de separar o jogo do trigo. Há ações que caíram muito, e não deveriam ter caído tanto assim, e outras que despencaram e devem continuar perdendo valor", explicou Christian Faricelli, sócio da Absolute.

Ele diz que os próximos três anos serão completamente diferentes dos últimos dez nos mercados, agora que a torneira de liquidez global secou. Com os bancos centrais diminuindo seus balanços de compras e, principalmente, aumentando os juros, o fluxo não está mais direcionado às bolsas.

Em 2022, o fundo de ações da casa, o Absolute Pace, acumula uma rentabilidade de 7,8%, frente a uma perda de 3% do Ibovespa. No ano passado, a fotografia foi melhor ainda: rendimento de 8,3% do fundo, comparado a uma desvalorização de 12% do principal índice da bolsa. Não por acaso, o Absolute Pace aparece entre os poucos fundos de ações que seguem captando recursos no ano.

Veja abaixo a entrevista completa com o gestor da Absolute:

Qual foi a estratégia do fundo para obter um desempenho acima do Ibovespa?

Nosso carro chefe é o que eu chamo de análise microfundamentalista. Estamos o tempo todo olhando empresas e fazendo contas, mas sempre usamos cenário macro para validar cenário o micro. O que quero dizer com isso? Por exemplo, se o câmbio, um fator do macro, está mais alto, isso muda a nossa tese e valuation para diversos ativos.

Somos muito agnósticos. Se o ativo tem uma assimetria, não vamos nos apegar a uma crença do mercado. É comum, por exemplo, que gestores não comprem estatais em ano de eleição. Nós temos uma posição montada em Petrobras e Banco do Brasil em 2022, porque, mesmo no pior dos cenários, o valuation dessas empresas está atrativo. As empresas públicas estão baratas, por causa do risco eleitoral.

Outra tese que temos é a de commodities. Muitos gestores não gostam de commodities, porque há muitas variáveis difíceis de prever, especialmente considerando a guerra na Ucrânia. Mas olhando para os preços, nos pareceu ser interessante ter essas empresas. A Vale estava com um valuation muito assimétrico um ano atrás, e aproveitamos a alta.

O que esperar para o setor de commodities, agora que as cotações estão mais voláteis?

Já tivemos uma posição maior no segmento, agora estamos diminuindo. Mas eu diria que o setor de petróleo, em especial as junior oil companies [pequenas petroleiras da bolsa], como PetroRio, 3R e PetroRecôncavo, pode ser uma boa aposta. O setor de celulose também parece ainda estar bastante atrativo.

Por fim, as empresas de energia também estão na nossa carteira. É um setor que, por contrato, consegue repassar a inflação, então é um dos segmentos que menos sofrem na bolsa.

Uma das vantagens do fundo é poder trabalhar com posições compradas e vendidas. Alguma estratégia em short se destacou?

Ganhamos bastante dinheiro fazendo short de empresas com preços assimétricos e com linhas de negócios que precificavam um futuro muito mais favorável do que o que teremos. Algumas empresas de tecnologia tinham preços que só fariam sentido se o cenário fosse de céu de brigadeiro, e sabemos que não será assim.

O que esperar desse futuro, então?

No médio prazo, teremos um cenário global muito mais complicado do que o que tivemos nos últimos 10 anos. Até aqui, vivemos uma década de juros baixos, bancos centrais ajudando e liquidez abundante, o que é um cenário muito bom para os ativos da bolsa. Os próximos três anos serão completamente diferentes: PIB em baixa, juros altos e inflação alta. Será um cenário mais desafiador, e isso já está claro pra nós e para o mercado.

Um outro ponto: nos últimos anos tivemos, exceto em alguns períodos, o Brasil fez muita besteira. Os governos não tomaram decisões políticas corretas enquanto o mundo muito favorável. Daqui pra frente, com um contexto mais desafiador, atrair capital estrangeiro vai ficar bem mais difícil.

E o que isso significa, para a bolsa?

No passado, quando o Brasil ficava muito barato, o gringo entrava comprando, porque o cenário global era favorável. Agora o gringo vai comprar? Bom, eu acredito que os estrangeiros estão preocupados com outras coisas, com o cenário lá de fora, que já está bem desafiador.

Quanto dessa piora já foi precificada pelo mercado?

Bem, uma vez que mundo se preparou para cenário pior, isso deveria estar no preço. Acredito que agora a pergunta é: o futuro será pior ou melhor do que esperamos? Se for "menos pior", os ativos de risco vão se recuperar mais rápido. Agora, se for pior, as bolsas vão para o fundo do poço.

Como se posicionar, diante de tanta incerteza?

No curto prazo, o que mexe com o mercado é fluxo, ou seja, quem vende e quem compra. É muito difícil acertar para onde vai o fluxo. Por isso, tentamos focar mais no médio prazo, de 9 a 18 meses. Estamos entrando em mundo mais complicado, e já há muita coisa ruim precificada.

Em um momento de crise, como agora, o mercado fica irracional, e aí a maioria das ações despenca. Só que na hora de subir, o que vale são os fundamentos. É aí que entra a lógica de separar o jogo do trigo. Há ações que caíram muito, e não deveriam ter caído tanto assim, e outras que despencaram e devem continuar perdendo valor.

E como colocar as eleições nesse cálculo?

Os próximos meses serão de guerra e tiroteio. Não começamos ainda o debate eleitoral mais sério. Quando as campanhas começarem, veremos o que importa: o nível de rejeição. Vai ser um pleito muito brigado, mas não vamos debater o futuro do Brasil, infelizmente. Os próximos meses serão de briga entre os candidatos, e o interesse maior será o de apontar o erro do outro.