Tom severo: sob comando de Kevin Warsh, Fed manteve juros e sinalizou novos aumentos (Tierney L. Cross/Bloomberg)
Repórter freelancer
Publicado em 21 de junho de 2026 às 14h00.
O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) manteve nesta semana os juros norte-americanos na faixa entre 3,50% e 3,75% em uma decisão unânime, mas a comunicação da primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh mudou o tom esperado pelo mercado. Em vez de sinalizar estabilidade à frente, o novo presidente adotou uma postura mais dura e cautelosa, reforçando a possibilidade de manutenção de juros elevados por mais tempo e, até, de novos ajustes ao longo de 2026.
Fed mantém juros nos EUA pela quarta vez seguida
Para justificar a cautela, o banco central dos EUA mostrou que a situação no Oriente Médio ainda tem consequências incertas e que a economia norte-americana segue a todo vapor, com a criação de empregos acompanhando o crescimento da força de trabalho. A taxa de desemprego permanece em 4,3% e a inflação, que roda acima da meta de 2%, é outro ponto que centraliza as atenções.
Christopher Galvão, sócio e analista da Nord Investimentos, entende que comunicado reconheceu a atividade econômica resiliente.
"Ela vem sendo sustentada pelo segmento de inteligência artificial, enquanto o mercado de trabalho segue aquecido, inclusive com os últimos dados mostrando reaceleração. Além disso, a inflação cheia vem acelerando pela pressão de combustíveis, enquanto os núcleos seguem acima do nível compatível com a meta. O último CPI, por exemplo, mostrou o núcleo acelerando de +2,75% para +2,85% no acumulado em 12 meses", afirmou Galvão.
Carlos Lopes, economista do Banco BV, chama a atenção para o desejo de Warsh de mudar os comunicados futuros da instituição, que passariam a conter menos explicações e sinalizações, tornando-se mais curtos. "Para evitar o comprometimento com passos futuros, Warsh retirou o forward guidance (orientação futura) do comunicado", disse Lopes.
Segundo Galvão, o novo presidente destacou, inclusive, que o gráfico de pontos (dot plot) não deve ser interpretado necessariamente como uma projeção mecânica de como será a condução da política monetária.
O estilo de Warsh em sua primeira reunião à frente do Fed também foi digno de nota. Marcos, diretor de análise da Zero Markets Brasil, observa que o mandatário foi "significativamente mais duro" do que o mercado esperava. O discurso colocou a possibilidade de novas altas de juros no centro do debate, gerando forte volatilidade no final da sessão.
O impacto foi sentido nos ativos globais. A bolsa brasileira fechou em queda de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, na quarta, enquanto o dólar avançou 0,41%, cotado a R$ 5,1077. Os pregões seguintes, de quinta e sexta, também seguiam repercutindo as decisões de juros tanto nos EUA como no Brasil.
Nas principais bolsas americanas, o movimento de aversão ao risco não foi diferente. O S&P 500 recuou 1,21% (aos 7.420,13 pontos), o Dow Jones caiu 0,97% (aos 51.493,16 pontos) e o Nasdaq cedeu 1,35% (aos 26.021,66 pontos).
O Resumo das Projeções Econômicas (SEP) também trouxe revisões significativas que reforçam a percepção de um cenário mais desafiador pela frente.
No que diz respeito à trajetória dos juros, o Comitê elevou as estimativas para os próximos anos. A projeção para 2026 subiu de 3,4% para 3,8%, enquanto o patamar esperado para 2027 passou de 3,1% para 3,6%. Já para 2028, a estimativa foi ajustada de 3,1% para 3,4%.
Esse movimento acompanha de perto a deterioração nas projeções para a inflação. O núcleo do PCE (Índice de Preços de Gastos com Consumo) sofreu uma revisão altista relevante para 2026, saltando de 2,7% para 3,3%.
Para os anos seguintes, as pressões também se mostram mais persistentes, com o indicador subindo de 2,2% para 2,5% em 2027, e de 2,0% para 2,1% em 2028. Em contrapartida, o mercado de trabalho deve exibir estabilidade, com a taxa de desemprego projetada em 4,3% para 2026 e 2027, recuando marginalmente para 4,2% em 2028.
Bruno Komura, estrategista da S4 Consultoria, avalia que a perspectiva de uma postura mais restritiva nos EUA faz com que outros bancos centrais de economias desenvolvidas sigam uma cartilha semelhante.
Komura cita como exemplo o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BOJ), que subiram suas taxas recentemente, caminho que em breve deve ser adotado pelo Banco da Inglaterra (BOE).
Essa conjuntura global deve trazer reflexos severos para o cenário doméstico. Na visão do estrategista da S4, o próprio Banco Central do Brasil não deve realizar novos cortes na taxa Selic no segundo semestre, pressionado pelo ambiente externo mais adverso.