Petróleo: Em momentos de tensão geopolítica, empresas de exploração e produção tendem a ser as primeiras beneficiadas (makhnach/Freepik)
Repórter de Mercados
Publicado em 3 de março de 2026 às 09h34.
Os bombardeios que atingiram o Irã no fim de semana já produzem efeitos que vão além do campo de batalha. Enquanto explosões são registradas em Teerã e mísseis cruzam o céu de Tel Aviv, o preço do petróleo disparava no mercado internacional.
Para o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), a escalada no Oriente Médio tem um perfil mais sistêmico do que episódios anteriores, sobretudo pelo risco de disrupção prolongada no estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL).
Quando essa engrenagem é ameaçada, o impacto não fica restrito ao Oriente Médio. “A intensificação dos conflitos eleva a incerteza global, com prováveis mudanças nas taxas de câmbio e pressões sobre os mercados de commodities”, afirma Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.
Segundo economistas ouvidos pela EXAME, o risco de interrupção nas rotas estratégicas pode gerar um choque de oferta, com menos produto disponível e preços mais altos. O efeito imediato costuma aparecer nas ações ligadas à energia e petróleo. O secundário, no restante da economia.
Em momentos de tensão geopolítica, empresas de exploração e produção tendem a ser as primeiras beneficiadas, com a expectativa de que o petróleo seja negociado entre US$ 75 e US$ 80 — podendo superar esse nível caso os conflitos escalem ainda mais.
A PRIO (PRIO3) é exemplo disso, com os papéis subindo mais de 5% e sendo a maior alta da bolsa na segunda-feira, 2. O BTG destaca que a companhia tem 100% da produção concentrada em petróleo (sem gás natural ou derivados) e é o nome menos hedgeado — ou seja, utiliza menos contratos financeiros para se proteger de uma queda nos preços da commodity.
Na prática, a companhia consegue capturar de forma mais integral a alta do petróleo, pois paga menos por essa proteção. Em um cenário de Brent a US$ 80, o BTG estima que o retorno sobre fluxo de caixa ao acionista (quanto a empresa gera de caixa livre em relação ao seu valor de mercado) pode chegar a 27% para a PRIO em 2026.
A Petrobras (PETR3; PETR4), que combina produção elevada no pré-sal, custos competitivos e forte exposição às exportaçõesm também se beneficiou, com alta superior a 4%. O BTG reconhece que a Petrobras também se beneficia de um Brent mais alto, mas destaca que a sensibilidade da estatal ao petróleo é menor do que a da PRIO.
A XP também afirma que, dentro da sua cobertura, PRIO e Petrobras seguem como as principais escolhas — mas PRIO é a favorita da casa. A tese passa pela capacidade de geração de caixa em diferentes cenários de preço do Brent. A XP estima que, para cada alta de US$ 10 por barril, o retorno sobre fluxo de caixa ao acionista (ou seja, quanto a empresa gera de caixa livre em relação ao seu valor de mercado) aumenta cerca de 5 pontos percentuais para PRIO e Petrobras.
Mas PRIO se destaca por oferecer uma margem de segurança maior em caso de queda do petróleo.
Brava Energia (BRAV3) e PetroRecôncavo (RECV3) também acompanharam o movimento do setor. Os papéis das companhias subiram 2,8% e 3,3%, respectivamente.
Na outra ponta, está a Braskem (BRKM5), cujas ações caíram 3,5% ontem. A companhia trabalha com nafta e etano, duas matérias-primas derivadas do petróleo e do gás natural. Ambas as commodities disparam no mercado internacional hoje, o que se torna mais uma pressão de custos para a Braskem. A companhia divulgou uma prévia operacional do quarto trimestre de 2025 que foi mal avaliada pelo mercado.
A lista de maiores baixas de ontem continua com varejistas, construtoras e empresas de educação, todas sensíveis às taxas de juros. Dólar e petróleo trazem perspectiva de inflação mais alta no Brasil. “O dólar sobe e o mercado começa a puxar a curva de juros para cima. Isso enfraquece a discussão de um corte maior, de 0,75 ponto percentual, na reunião de abril”, afirma Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.
Com dólar e petróleo mais caros, os preços dos combustíveis, de fretes e de alimentos também tendem a subir. “O impacto final para os preços ao consumidor depende do quanto desta elevação seja repassado das refinarias ao consumidor final”, diz Marcela Kawauti.
Combustível mais caro pode significar aumento indireto em entregas, deslocamentos e serviços que dependem de logística. Companhias aéreas e empresas de cruzeiros marítimos tendem a sofrer com o aumento do querosene de aviação, que corrói margens. Empresas de logística e transporte também enfrentam alta de custos operacionais.
O diesel é essencial para o transporte de cargas no Brasil. Se ele sobe, o frete sobe junto. Isso pode encarecer produtos transportados por caminhões, de alimentos a bens industrializados.