Presidente do conselho do BB cita interferências da União em renúncia

Hélio Magalhães diz que melhora da governança e aumento da eficiência deixaram de ser prioridade do acionista majoritário e critica rito de escolha do novo CEO
Agência do Banco do Brasil: crise se aprofunda com a saída de executivos e conselheiros independentes (Adriano Machado/Bloomberg)
Agência do Banco do Brasil: crise se aprofunda com a saída de executivos e conselheiros independentes (Adriano Machado/Bloomberg)
Marcelo Sakate
Marcelo Sakate

Publicado em 01/04/2021 às 21:54.

Última atualização em 01/04/2021 às 22:28.

A crise que atinge as principais estatais brasileiras parece não ter fim. Nesta quinta-feira, 1º de abril, o presidente do conselho de administração do Banco do Brasil (BBAS3), Hélio Magalhães, entregou a sua carta de renúncia e não poupou críticas à forma como a União -- na figura do presidente Jair Bolsonaro -- passou a tratar das companhias.

A carta de renúncia -- à qual a EXAME Invest teve acesso -- tem um tom duro e assertivo que não deixa dúvidas a investidores da nova disposição do governo Bolsonaro em fazer valer a sua vontade na administração das estatais, passando por cima das práticas mais recomendadas no mercado de governança e de gestão independente.

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Faço a renúncia "em razão do reiterado descaso com que o acionista majoritário vem tratando não apenas esta prestigiada instituição mas também outras importantes estatais de capital aberto e seus principais administradores", escreve Magalhães na carta.

"No caso do Banco do Brasil, me refiro às tentativas de desrespeito à governança corporativa, ainda que frustradas pela atuação diligente deste Conselho e pela higidez dos mecanismos de governança da companhia", continua Magalhães, um respeitado executivo do mercado, que anteriormente foi presidente do Citi no Brasil.

"Como exemplo, cito as interferências externas na execução do plano de eficiência da companhia aprovado por este Conselho e obviamente necessário para adequá-la aos novos tempos e desafios do setor", escreve.

O plano anunciado no início de janeiro precipitou a crise e as pressões que culminaram com o pedido de renúncia em março do ainda presidente André Brandão, outro executivo com ampla experiência em cargos de comando no setor bancário privado. Ele era o presidente do HSBC para as Américas antes de assumir o BB em setembro passado.

"Ato contínuo, renovo meu protesto ao rito de escolha do novo presidente do banco, o qual simplesmente não considera o desejável crivo deste Conselho, vez que baseado em legislação anacrônica e contrária às melhores práticas de governança em nível global", afirma Magalhães na carta.

Em vez de confiar ao conselho a missão de escolher ou ao menos de aprovar o novo CEO, o governo decidiu indicar Fausto Ribeiro, um funcionário de carreira do banco estatal que até setembro passado tinha experiência como gerente executivo, até que foi alçado ao comando do BB Consórcios.

Magalhães aponta ainda na carta de renúncia que, nos quase dois anos em que presidiu o conselho do BB, o banco evoluiu em três frentes de atuação a pedido do ministro da Economia, Paulo Guedes: elevar a governança do BB a um padrão best in class, melhorar a eficiência do banco e avançar nos projetos de desinvestimento.

"Infelizmente, entendo que essas prioridades não são mais do interesse do acionista majoritário", escreve Magalhães.

O plano de eficiência anunciado em janeiro prevê o fechamento de 870 pontos de atendimento ao longo do primeiro semestre, com o fechamento de 112 agências e a adaptação de postos de atendimento em face das mudanças de hábito da população, com o uso crescente de serviços digitais. A economia prevista é de 2,7 bilhões de reais até 2025.

Bolsonaro ficou contrariado com o plano na ocasião, diante de pressões de políticos, e chegou a cogitar demitir Brandão. Foi convencido a mantê-lo por Guedes e pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

Desde o início do ano, BB, Petrobras (PETR3, PETR4) e Eletrobras (ELET3, ELET6) sofrem com as políticas do governo. As ações do BB recuam 23% neste ano, a maior queda entre os grandes bancos.

Na Petrobras, Roberto Castello Branco foi avisado em fevereiro que não continuaria como CEO por meio de post em rede social e da imprensa. A razão: a contrariedade de Bolsonaro com a política de preços de combustíveis e com a postura de independência do executivo.

Na Eletrobras, foi o então CEO Wilson Ferreira Junior quem decidiu pedir demissão em janeiro, citando a lentidão do governo em levar adiante o prometido plano de privatização da estatal do setor elétrico.