Brent volta aos US$ 100: cessar-fogo sem paz (Anton Petrus/Getty Images)
Publicado em 22 de abril de 2026 às 16h50.
A extensão do cessar-fogo anunciada por Donald Trump na terça-feira deveria ter acalmado os mercados, mas não foi o que aconteceu. Nesta quarta-feira, 22, o petróleo Brent, referência internacional negociada na bolsa londrina ICE, fechou a US$ 101,91 por barril, alta de 3,48%. O WTI, equivalente americano negociado em Nova York, na Nymex, avançou 3,66%, a US$ 92,96. A matéria-prima seguiu em trajetória de alta com registros de ataques iranianos a embarcações no Estreito de Ormuz.
Os preços reverteram perdas iniciais após relatos de ataques contra ao menos três navios porta-contêineres na região, segundo a Reuters.
A Guarda Revolucionária iraniana apreendeu duas embarcações, alegando violações marítimas, e as rebocou para portos do país. Um terceiro navio, de bandeira liberiana, foi atingido por tiros e granadas a nordeste de Omã. O Centro de Operações Marítimas do Reino Unido (UKMTO) confirmou o incidente.
É a primeira vez que o Irã apreende embarcações desde o início da guerra, o que mostra uma escalada no controle de Teerã sobre o Estreito por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo do mundo.
Trump declarou que prorrogaria o cessar-fogo indefinidamente para permitir que as negociações continuassem, em um conflito que já matou milhares e abala a economia global. O bloqueio naval americano ao litoral iraniano segue em vigor.
Do lado do Irã, o tom foi de desprezo pela trégua. "A extensão do cessar-fogo de Trump não significa nada. O lado perdedor não pode ditar termos", disse Mahdi Mohammadi, assessor do presidente do Parlamento.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã atribuiu a indefinição nas negociações a "mensagens contraditórias" vindas de Washington.
O Estreito de Ormuz é um corredor marítimo de 54 km de largura entre o Irã e Omã e é a única saída do Golfo Pérsico para o oceano. Por ali passa petróleo da Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Catar e do próprio Irã. Não existe rota alternativa para a maioria desses países.
O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, classificou o conflito como o gerador "da maior disrupção de oferta na história do mercado global de petróleo". O transporte pelo estreito, que normalmente responde por cerca de 20% do consumo mundial, foi praticamente paralisado.
Em março, a oferta global de petróleo despencou 10,1 milhões de barris por dia. No início de abril, os embarques pelo estreito seguiam em apenas 3,8 milhões de barris diários. O número era de 20 milhões em fevereiro, antes da guerra
"Esta crise supera as três anteriores juntas", disse Birol à CNBC, fazendo referência aos choques dos anos 1970, à Guerra do Golfo e à invasão da Ucrânia.
Dados do Instituto Americano do Petróleo (API) apontaram queda de 4,5 milhões de barris nos estoques de petróleo cru na semana passada, bem acima da estimativa de analistas, que previam retirada de apenas 1,2 milhão de barris. Gasolina e destilados também recuaram.
Estoques de petróleo são as reservas físicas armazenadas em tanques nos Estados Unidos, um termômetro semanal de oferta e demanda. Quando caem mais do que o esperado, indicam que o mercado está mais apertado.
O relatório mensal da EIA, agência de estatísticas de energia dos EUA, prevê que o Brent deve atingir seu pico no segundo trimestre de 2026, a US$ 115 por barril, antes de recuar com eventual retomada dos fluxos pelo estreito.
A agência estima que os cortes de produção associados ao fechamento de Ormuz devem chegar a 9,1 milhões de barris por dia em abril.