Eli Lilly: pílula para emagrecimento da farmacêutica é aprovada nos EUA (Bloomberg/Getty Images)
Repórter
Publicado em 1 de abril de 2026 às 13h21.
Última atualização em 3 de abril de 2026 às 12h03.
A Agência federal do Departamento de Saúde dos EUA (FDA, na sigla em inglês) aprovou nesta quarta-feira, 1, o comprimido de GLP-1 da Eli Lilly, marcando a entrada da farmacêutica no segmento de versões orais para perda de peso. A decisão abre uma nova etapa na disputa entre fabricantes que atuam com medicamentos baseados nesse mecanismo.
Saiba o preço e quando pode chegar ao BrasilA empresa anunciou que o medicamento diário, Foundayo, começará a ser distribuído por meio da plataforma direta ao consumidor LillyDirect nesta segunda-feira, e estará disponível em farmácias e serviços de telemedicina logo depois. Pacientes com seguro poderão pagar US$ 25 mensais com cupom, enquanto quem arcar com o custo integral terá valores entre US$ 149 e US$ 349, de acordo com a dosagem.
Eli Lilly faz compra bilionária de empresa com potencial tratamento para AlzheimerA submissão do medicamento ocorreu poucos meses antes da aprovação, em um programa de análise acelerada da agência reguladora. Com isso, o lançamento acontece cerca de três meses após a chegada do Wegovy, da Novo Nordisk, ao formato em comprimido, estabelecendo uma nova fase de concorrência no mercado de GLP-1.
“É um grande momento”, afirmou Dave Ricks, CEO da Eli Lilly, em entrevista à CNBC. “Obviamente, estamos trabalhando nessa categoria de medicamentos há algum tempo, desde o primeiro medicamento GLP-1, há 20 anos, e aprimorando-o desde então. Aqui está uma opção que não é mais eficaz... mas é mais acessível, é mais fácil de incorporar à rotina diária.”
A molécula do medicamento, orforglipron, foi licenciada da farmacêutica japonesa Chugai em 2018, por US$ 50 milhões iniciais. O composto apresenta menor eficácia em comparação ao Zepbound, versão injetável da própria Lilly, o que levanta questionamentos sobre sua adesão diante de pacientes já habituados às aplicações semanais.
Projeções de mercado indicam que o Foundayo pode atingir US$ 14,79 bilhões em vendas até 2030. O número é inferior às estimativas de US$ 24,68 bilhões para o Zepbound e US$ 44,87 bilhões para o Mounjaro, voltado ao tratamento de diabetes e obesidade.
Ricks declarou que a aplicação por injeção não se consolidou como uma barreira significativa de adoção. Ainda assim, o executivo posiciona o comprimido como alternativa para pacientes que preferem administração oral ou custos reduzidos.
O medicamento também é considerado pela empresa como opção para manutenção de peso após tratamentos iniciais com injetáveis. Ricks afirmou que o formato oral pode “alcançar o planeta”, sem limitações de produção ou necessidade de refrigeração.
O Foundayo é classificado como molécula pequena, enquanto Zepbound e Wegovy são peptídeos, que exigem processos industriais mais complexos. Segundo o executivo, essa diferença pode dificultar a produção de genéricos em mercados como a Índia.
Ricks também comentou a expansão global do produto. “A [Foundayo] permite escalabilidade, o que nos possibilitará lançar o produto globalmente desde o início”, disse. “Hoje, você consegue o [Wegovy] oral nos EUA, mas não em outros lugares. Ele será comercializado no mundo todo. Assim que tivermos as aprovações regulatórias, teremos a escala necessária para abastecer o mundo com um inibidor oral de GLP-1.”
A empresa projeta aprovação em mais de 40 países no próximo ano. Desde 2020, os investimentos em capacidade produtiva somam mais de US$ 55 bilhões, com ampliação de unidades e abertura de novas fábricas.
Nos Estados Unidos, a concorrência direta ocorre com o Wegovy em comprimido, que registrou mais de 600 mil prescrições em março, segundo dados divulgados pela fabricante.
O CEO da Novo Nordisk, Mike Doustdar, afirmou que o formato oral amplia o mercado ao atrair novos pacientes, em vez de substituir usuários de injetáveis. Ricks indicou concordância com essa avaliação.
"Queremos que as pessoas usem o medicamento que atenda aos seus objetivos de saúde", disse Ricks. "Se tiver a marca Lilly na embalagem, esse é o nosso objetivo."
A Novo Nordisk pretende destacar a eficácia superior do Wegovy. Estudos indicam perda média de 16,6% do peso corporal, enquanto o Foundayo apresenta cerca de 12,4% em pacientes que completaram o tratamento. O Zepbound supera 20% em resultados consistentes.
A Lilly enfatiza a flexibilidade de uso do comprimido, que pode ser ingerido a qualquer momento. O Wegovy oral exige administração em jejum, logo ao acordar, com quantidade limitada de água.
O preço inicial dos medicamentos converge. As doses mais baixas custam US$ 149 para pagamento direto, após acordo firmado com o governo dos Estados Unidos no último outono. A médica Nidhi Kansal afirmou que o custo influencia diretamente a escolha terapêutica.
“Infelizmente, o preço é o que está influenciando a decisão entre médicos e pacientes em relação a esses medicamentos, porque todos são excelentes e temos muitas opções agora, mas, no fim das contas, ainda é uma decisão financeira”, disse Kansal.
Segundo analistas, o formato em comprimido pode ampliar o público, incluindo pacientes com interesse inicial no tratamento. Beneficiários do Medicare devem ter acesso a partir do verão, com custo estimado em US$ 50 mensais.
O desempenho comercial do Foundayo é apontado como fator relevante para as ações da companhia, que acumulam queda de cerca de 14% no ano. Analistas acompanham o volume de prescrições como indicador de adoção.
“Se as prescrições estiverem seguindo na direção certa e houver ganhos contínuos, acredito que as pessoas ignorarão qualquer instabilidade no primeiro ou segundo trimestre”, disse Carter Gould.
Outro elemento observado é o desenvolvimento do retatrutide, medicamento injetável em fase avançada de testes. Resultados adicionais devem indicar seu potencial no tratamento da obesidade.
“O futuro trará mais opções, e isso é ótimo”, disse Ricks. “E esperamos que a Lilly seja a empresa que apresentará essas opções.”