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Petróleo ultrapassa US$ 110 após subir 50% em dois meses de guerra

Fechamento do Estreito de Ormuz foi uma das maiores interrupções de oferta da commodity na história, dizem especialistas

Petróleo: commodity disparou durante Guerra no Irã (GettyImages)

Petróleo: commodity disparou durante Guerra no Irã (GettyImages)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 28 de abril de 2026 às 10h53.

Hoje pela manhã, 28, o contrato da referência mundial Brent para vencimento em junho de 2026 opera com alta de aproximadamente 3%, cotado a US$ 111,34 às 10h36. A data marca dois meses da Guerra no Irã, com o petróleo subindo 50% do fechamento do dia 27 de fevereiro até 28 de abril, e os últimos acontecimentos mostram que ela pode estar longe do fim.

O principal driver da sessão é a confirmação de que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, está insatisfeito com a última proposta iraniana para encerrar a guerra, eliminando qualquer perspectiva de evolução das negociações no curto prazo.

"A falta de uma retomada das conversas entre Washington e Teerã para discutir uma possível resolução definitiva de paz amplia os temores associados a uma continuidade do bloqueio do Estreito de Ormuz, com dados de rastreadoras marítimas apontando que [grifar]apenas sete embarcações cruzaram a via na segunda-feira", explica Bruno Cordeiro, especialista em inteligência de mercado da Stonex.

Paralelo a isso, seis tanqueiros carregados com petróleo iraniano foram forçados a retornar ao país pelo bloqueio americano. "Nas próximas sessões, o mercado deve continuar precificando o prêmio de risco geopolítico enquanto não houver sinal concreto de retomada das negociações", afirma Cordeiro.

Por que o petróleo sobe durante a guerra?

Não é grande a extensão – entre 150 e 170 quilômetros de largura. Mas é o suficiente para ser o palco da atenção mundial. O Estreito de Ormuz, corredor marítimo entre os golfos Pérsico e de Omã, chama todas as atenções para si durante a Guerra do Irã,. Isso porque a rota foi fechada pelo país, que impede a circulação de diversos navios de petróleo durante o conflito.

O resultado? A disparada do preço da commodity devido a um choque de oferta. O estreito é por onde passa entre 20% a 25% do petróleo mundial e seu fechamento se tornou uma das maiores interrupções da oferta de petróleo da história. Os próprios dados da Agência Internacional de Energia (IEA) apontam perdas estimadas entre 8 e 11 milhões de barris por dia.

“O Irã é uma zona produtora de 25 milhões de barris de petróleo por dia. Desses 25 milhões, ele exporta 18 milhões de barris por dia pelo Estreito de Omurz. Com a guerra, ele simplesmente deixou de enviar essa parcela significativa para o mercado internacional, o que causou um choque de oferta de uma hora para outra”, diz Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) à EXAME.

Com o temor de escassez global, também derivado de cortes de produção, o resultado foi um “prêmio de risco” elevado. O petróleo subiu 63,29% do começo da guerra, no dia 28 de fevereiro, até o pico de alta no dia 31 de março, quanto estava cotado a US$ 118,35.

Com notícias sobre cessar-fogo (que atualmente não está sendo respeitado), a commodity chegou a recuar, ficando abaixo da casa dos US$ 100. Entretanto, ele já volta a subir, com o tipo Brent ultrapassando novamente a barreira dos US$ 110 hoje.

Revisão para cima da inflação

O choque elevou as expectativas de inflação ao redor do mundo. No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está próximpo de 5%. O último Boletim Focus apontou uma revisão de 4,80% para 4,86%, marcando a sétima alta seguida, enquanto a projeção para 2027 subiu para 4%.

“O choque foi forte, mas ainda vem sendo parcialmente amortecido pela Petrobras (PETR3; PETR4) e pelo governo”, aponta Lucas Lima, analista chefe da VG Research.

Isso porque ela abandonou a paridade internacional automática (PPI) em 2023 e passou a adotar reajustes graduais, absorvendo parte do choque para proteger o consumidor interno. “Houve aumentos, mas bem menores que a alta internacional. Atualmente, a defasagem do preço da gasolina já atinge cerca de 55%”, pontua.

A companhia se beneficiou porque a maior parte do resultado operacional da empresa vem de exploração e produção, representando quase 80% do Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) consolidado. Como a empresa possui custos bastante competitivos, ela captura valor com a alta do petróleo.

Além disso, a Petrobras tende a ser ganhar porque faz pouca proteção de preços (travamento de vendas futuras), ficando mais exposta à variação do petróleo. Já PetroReconcavo (RECV3) e Brava (BRAV3) foram menos beneficiadas porque adotam uma estratégia mais intensa de proteção de preços, o que reduz o ganho quando há alta na cotação do petróleo”, destaca Lima.

Segundo Lima, para os preços do petróleo recuarem, teria que ocorrer um cessar-fogo mais concreto e respeitado – fato que não vem acontecendo. Na visão da VG Research, a commodity não deve voltar aos patamares pré-conflito, próximos de US$ 60 por barril.

“Mesmo com um cessar-fogo e eventual fim da guerra, o mercado deve continuar exigindo um prêmio de risco geopolítico. Além disso, muitos países tendem a recompor suas reservas estratégicas, o que deve manter os preços em níveis mais elevados”, conclui Lima.

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