Dólar: moeda atingiu ontem seu menor patamar em quase dois anos (Imagem gerada por IA/ChatGPT/Reprodução)
Repórter de finanças
Publicado em 9 de abril de 2026 às 11h19.
O comportamento do petróleo no mercado internacional vai muito além do setor de energia.
A commodity funciona como um termômetro da economia global — e seus movimentos têm impacto direto sobre inflação, juros e, consequentemente, o dólar. A moeda atingiu ontem seu menor patamar em quase dois anos, fechando a R$ 5,102, e hoje segue renovando mínimas. Já o petróleo teve sua maior queda diária em seis meses, chegando na casa dos US$ 90 o barril e hoje se reaproxima dos US$ 100.
Isso acontece porque o petróleo está na base de diversos custos da economia, como transporte e produção. Quando o preço sobe, tende a pressionar a inflação no mundo todo. Quando cai, o efeito é o oposto, e é justamente aí que começa a conexão com o câmbio e juros.
“O petróleo é algo que influencia o ‘humor’ da economia global: quando ele cai, significa que a pressão de preços no mundo tende a diminuir, então os juros lá fora, principalmente nos EUA, não precisam ficar tão altos por muito tempo”, explica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
Com uma inflação mais controlada, o mercado passa a esperar juros mais baixos nos Estados Unidos. E isso muda o fluxo de dinheiro global.
“Com juros mais baixos nos EUA, o dinheiro global deixa de ficar tão concentrado no dólar e começa a buscar países que pagam juros maiores, como o Brasil, o que aumenta a entrada de dólares aqui e faz o preço do dólar cair”, diz.
Na prática, o raciocínio é simples: juros altos nos EUA atraem capital para ativos americanos, fortalecendo o dólar. Já juros mais baixos reduzem essa atratividade, abrindo espaço para que investidores busquem retornos maiores em mercados emergentes.
Segundo Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar, além da inflação e dos juros, há um terceiro elemento importante nessa equação: o risco global.
Quando o petróleo sobe por conta de tensões geopolíticas — como conflitos no Oriente Médio — o mercado tende a buscar proteção em ativos considerados mais seguros, como o dólar. Já em momentos de alívio, esse movimento se reverte.
“Além disso, a queda do petróleo costuma estar associada a um ambiente de menor tensão global, o que favorece a entrada de recursos em países emergentes como o Brasil, contribuindo para a valorização do real e, consequentemente, para a queda do dólar”, afirma Castro.
Ou seja, quando o cenário externo melhora, o dólar perde parte do seu papel de “porto seguro”. Com menos aversão ao risco, investidores voltam a aplicar em mercados como o brasileiro — o que aumenta a oferta de moeda americana no país e pressiona sua cotação para baixo.
A relação entre petróleo e dólar também passa por fatores estruturais do mercado global. Quando o dólar se fortalece, o petróleo fica mais caro para países que usam outras moedas, a demanda tende a cair e o preço do petróleo pode recuar. Já quando o dólar enfraquece, o petróleo fica relativamente mais barato, a demanda pode subir e o preço tende a subir.
Além disso, existe o chamado sistema do petrodólar, em que o comércio internacional de petróleo é majoritariamente feito na moeda americana. Isso obriga países importadores a manter reservas em dólar, sustentando uma demanda global constante pela divisa.
Por fim, há o impacto na balança comercial, especialmente em países emergentes como o Brasil. Como exportador de petróleo, o país tende a receber mais dólares quando os preços da commodity sobem, o que pode fortalecer o real e pressionar a moeda americana para baixo.
"O fluxo de dólares em direção ao país aumenta pela via comercial com mais receitas pelas exportações do petróleo. Pela via financeira, sendo a Petrobras uma grande empresa do setor, há um fluxo de recursos também para o mercado acionário, esperando valorização de empresas que se beneficiam deste aumento do petróleo", explica André Galhardo, economista-chefe na Análise Econômica.