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Petrobras perde R$ 54 bilhões em valor de mercado em semana de vitória de Lula

Ações da estatal caíram mais de 10% na semana, com incertezas sobre sua lucratividade durante governo petista

Tanques de armazenagem de gás natural da Petrobras (Dado Galdieri/Bloomberg)

Tanques de armazenagem de gás natural da Petrobras (Dado Galdieri/Bloomberg)

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Guilherme Guilherme

Publicado em 4 de novembro de 2022, 17h52.

Última atualização em 4 de novembro de 2022, 18h41.

A Petrobras (PETR3/PETR4) acumulou perda de R$ 54 bilhões em valor de mercado nesta semana, após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidencias. A estatal terminou a semana valendo R$ 395 bilhões, após suas ações ordinárias e preferenciais terem caído 11,4% e 13,5%, respectivamente.

No mercado, investidores temem que a política de paridade internacional de preços da Petrobras seja ameaçada sob o futuro governo petista — o que poderia reduzir o potencial de lucro da companha e, consequentemente, os dividendos pagos aos acionistas, inclusive ao governo.

A desvalorização da Petrobras ocorreu na contramão da bolsa brasileira, que subiu 3,16% no período, puxada pela entrada de investidores estrangeiros. Mas a grande diferença de desempenho da semana foi dentro do setor de petróleo, onde o mercado migrou suas apostas para petrolíferas privadas, blindadas do ambiente político.

Quem mais se beneficiou foi a 3R (RRRP3), com cerca de 2,5% do tamanho da Petrobras, que disparou 17,8% na semana. A maior entre as petrolíferas privadas, a PetroRio (PRIO3) saltou 9,5% no período e a PetroRecôncavo (RECV3), 16,4%. O petróleo também subiu na semana, com alta de mais de 5%, embalado pela expectativa de maior demanda em meio a rumores de queda de restrições à covid-19 na China.

Mas incertezas associadas ao que será da companhia no futuro governo têm mantido investidores cautelosos já há algum tempo. Somadas às perdas da semana anterior, quando pesquisas mantiveram Lula na liderança pela corrida eleitoral, as ações da Petrobras desabaram 25%.

Thalles Franco, gestor da RPS Capital, contou que detinha posições relevantes em ações da Petrobras, mas que desmontou suas apostas na companhia antes mesmo do primeiro turno. "Reduzimos a posição para ficar com pouco risco para o evento. Agora, com o cenário mais claro e Lula eleito, definitivamente, não vamos voltar a ter estatais na carteira por um tempo. Pelas próprias declarações do Lula, o governo poderá usar as estatais para políticas sociais, o que é muito ruim para o acionista minoritário", afirmou.

Nem mesmo o forte resultado do terceiro trimestre da Petrobras, apresentando na noite de quinta-feira, 3, salvou as ações da estatal, que sofreram uma nova baixa nesta sexta-feira, 4. No terceiro trimestre, a companhia apresentou lucro líquido de R$ 46 bilhões, 48% acima do registrado no mesmo período do ano passado, com alta anual de 40% da receita para R$ 170 bilhões. 

"Os bons números já eram esperados em função do preço ainda elevado do petróleo no mercado internacional e pelo real depreciado. A maior dúvida segue sendo se a política de preços da Petrobras será mantida nos próximos anos", disse em relatório Gabriel Gracia, analista da Guide Investimentos. 

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Dividendo em risco

Embora ainda cosiderem "notáveis" os números operacionais da Petrobras, analistas do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) alertaram sobre o futuro da empresa após o resultado do terceiro trimestre.

"Tememos, no entanto, que os investidores permaneçam no modo de espera, já que o resultado da eleição do Brasil provavelmente aumentou a percepção de risco na alocação de capital da empresa e sua disposição de distribuir dividendos poderá em breve diminuir significativamente", disseram em relatório. 

Mas antes mesmo da posse do governo petista, investidores veem riscos sobre os dividendos da Petrobras. Isso porque o pagamento de R$ 43,7 bilhões (R$ 3,3489 por ação) anunciado na véspera pela estatal foi alvo de pedido de suspensão nesta sexta pelo subprocurador-geral Lucas Furtado. As ações da companhia foram à mínima do dia após a informação ter sido revelada pela coluna de Míriam Leitão, do jornal O Globo.

No cerne da reclamação do subprocurador ao Tribunal de Contas da União (TCU) está o fato de o dividendo anunciado pela Petrobras se referir à antecipação da remuneração aos acionistas referentes ao exercício de 2022 e que serão abatidos dos dividendos a serem aprovados na Assembleia Geral Ordinária de 2023. Furtado destacou ainda que Lula, que assumirá a Presidência em 2023, tornando-se controlador indireto da companhia, é contra a distribuição dos proventos.

A antecipação de dividendos, porém, tem ocorrido desde o ano passado, quando a companhia alterou suas regras de distribuição de proventos.