Invest

Para esses analistas, petróleo a US$ 120 poderia zerar retorno do Ibovespa

Segundo o estudo, o principal índice da B3 tende a apresentar retornos significativamente maiores em cenários de petróleo em queda ou estável

Bolsa x choque do petróleo: em momentos em que o petróleo está em queda ou estável, o Ibovespa tende a apresentar retornos positivos.  Já em períodos de forte alta da commodity, o comportamento histórico do índice costuma ser negativo (NurPhoto/Getty Images)

Bolsa x choque do petróleo: em momentos em que o petróleo está em queda ou estável, o Ibovespa tende a apresentar retornos positivos.  Já em períodos de forte alta da commodity, o comportamento histórico do índice costuma ser negativo (NurPhoto/Getty Images)

Publicado em 10 de março de 2026 às 05h00.

A disparada do petróleo em meio à guerra no Irã recolocou no radar dos investidores um velho dilema sobre a bolsa brasileira: até que ponto o avanço da commodity ajuda, ou atrapalha, o mercado acionário doméstico.

Um relatório divulgado nesta segunda-feira, 9, pela XP Investimentos indica que, historicamente, choques de alta no petróleo tendem a ser negativos para as ações no Brasil. Segundo o estudo da corretora, um barril do tipo Brent, referência mundial, em torno de US$ 120 "implicaria retorno esperado próximo de zero para o Ibovespa", de acordo com o modelo da casa.

A conclusão ganha peso em um momento de forte turbulência geopolítica e de aumento dos preços do petróleo no mercado internacional.

A commodity chegou a disparar quase 30% em um único dia, a maior variação desde 1988, após a intensificação do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel e a paralisação do tráfego no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo transportado no mundo no domingo, 8.

Os preços da commodity no mercado internacional dispararam 28,88% e ficaram próximo de US$ 120 o barril do tipo Brent na madrugada desta segunda-feira, 9, dois dias depois de a commodity ter fechado a semana com 27,78% de ganhos.

Para os estrategistas Fernando Ferreira, Lucas Rosa e Raphael Figueiredo, autores do relatório, a reação recente dos mercados segue o padrão típico de períodos de aversão a risco.

Desde a escalada das tensões no fim de fevereiro, ativos globais passaram a refletir maior cautela dos investidores, com alta do dólar, aumento dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano e pressão sobre as bolsas, incluindo a brasileira.

"As ações brasileiras, até aqui, ficaram abaixo do mercado americano. O Ibovespa caiu 6,6% e o MSCI Brazil recuou 6,1%, enquanto a queda do S&P 500 foi menor. Ainda assim, o comportamento do Brasil ficou em linha com outros mercados emergentes, cujo índice MSCI EM caiu 6,7%", destacam os analistas no relatório.

O que o petróleo diz sobre a Bolsa

Para entender a relação entre petróleo e ações brasileiras, a XP desenvolveu um modelo quantitativo que classifica os períodos de mercado em três regimes: petróleo em queda, petróleo estável e petróleo em alta.

A partir desse modelo, os analistas identificaram que, em momentos em que o petróleo está em queda ou estável, o Ibovespa tende a apresentar retornos positivos.  Já em períodos de forte alta da commodity, o comportamento histórico do índice costuma ser negativo.

O petróleo cotado a US$ 60, por exemplo, apresenta os maiores retornos esperados em todos os períodos analisados pela casa, variando de 2,7%, em 21 dias, a 23,8% em 252 dias. Já a commodity cotada a US$ 70, os retornos esperados situam-se entre 2,1% (21 dias) e 20,0% (252 dias).

Com a recente escalada dos preços, o modelo aponta que o mercado brasileiro acabou de migrar, em 6 de março, de um regime de petróleo em tendência de queda para um regime de petróleo estável. Isso ajuda a explicar por que, apesar do choque recente, o modelo ainda indica algum espaço para ganhos no índice, desde que os preços não avancem muito além do nível atual.

Com o petróleo cotado a US$ 90, os retornos esperado ficam no intervalo de 1,1% em 21 dias e de 13,7% em 252 dias. No patamar de US$ 100, os retornos são os menores dentro do intervalo de menos de um mês, caindo para 0,7% e 11% em 252 dias.

"Para a faixa de preço atual entre US$ 90 e US$ 100, o modelo aponta para retornos esperados positivos em múltiplos horizontes de tempo, embora os retornos em excesso em relação ao CDI permaneçam negativos", apontam os analistas.

O cenário muda rapidamente quando o petróleo se aproxima dos US$ 120. Segundo a regressão utilizada pela casa, preços nesse nível estão associados a retornos praticamente nulos para o índice em um horizonte de 21 dias, geralmente em um ambiente marcado por maior aversão a risco e preocupações macroeconômicas.

Com a commodity cotada a US$ 110 e US$ 120, observa-se que o retorno de longo prazo, de 252 dias, cai para um dígito, 8,7% e 6,5% respectivamente, o que é significativamente menor do que os 23,8% projetados quando o petróleo está a US$ 60. Além disso, o patamar de US$ 120 marca o ponto onde a projeção para 126 dias entra em terreno negativo.

"Níveis como esses são tipicamente associados a períodos de maior aversão ao risco por parte dos investidores, em meio a preocupações macroeconômicas e geopolíticas", destaca a XP Investimentos em um trecho.

Impactos podem se prolongar, diz a XP

Choques geopolíticos costumam ter efeitos de curta duração sobre os mercados. O problema, segundo a XP, é que choques ligados ao petróleo tendem a ser mais persistentes, especialmente quando envolvem interrupções logísticas ou de produção.

No caso do Irã, os analistas avaliam que há sinais de que o impacto pode se prolongar. A corretora também destaca que existem pelo menos três fatores que podem amplificar o efeito negativo sobre a bolsa brasileira.

Entre eles, o fato de que os indicadores técnicos estão esticados após o rali do Ibovespa nos dois primeiros meses do ano, que levaram o índice a encerrar fevereiro com ganhos de 17,17%, a metade do total acumulado em 2025.

"A alta recente foi em grande parte impulsionada por fluxos passivos de investidores estrangeiros. Por natureza, esse tipo de fluxo pode se reverter rapidamente, o que poderia amplificar uma correção do
mercado", acrescenta a XP.

Outro fato que pode pesar sobre o mercado acionário local é a possibilidade de menos cortes de juros ao longo do ano. "Segundo nosso time macro, um preço de Brent em torno de US$ 80 no fim de 2026 levaria a inflação IPCA do Brasil para cerca de 4,5%, o que impactaria negativamente o ciclo esperado de cortes de juros", dizem os analistas.

Acompanhe tudo sobre:Ibovespabolsas-de-valoresMercadosGuerrasPetróleoOriente MédioIrãEstados Unidos (EUA)

Mais de Invest

United propõe fusão com a rival American Airlines para criar a maior companhia aérea do mundo

Ibovespa bate recorde e fecha em 198 mil após fala de Trump sobre Irã

Dólar fecha abaixo de R$ 5 pela primeira vez em mais de 2 anos

Dólar cai abaixo de R$ 5 pela 1ª vez em mais de 2 anos; Ibovespa sobe