Minério de ferro: alta amparada por motivos de curto prazo (Germano Lüders/Exame)
Repórter
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 16h15.
Apesar de o minério de ferro ter voltado à casa dos US$ 110 por tonelada, esse nível de preço não encontra sustentação nos fundamentos do mercado. É o que aponta a Genial Investimentos em relatório setorial recém-divulgado.
Segundo o banco, a recente valorização é mais um reflexo de fatores cíclicos e de curto prazo, especialmente a reposição de estoques antes do Ano Novo Lunar, na China, e não de uma melhora efetiva da dinâmica de oferta e demanda, que seguem estruturalmente desequilibradas.
A análise contrasta com o movimento observado no mercado desde meados de dezembro. O minério de ferro acumulou valorização próxima de 8% no período e chegou a ser negociado a cerca de US$ 110 por tonelada no mercado spot, caminhando para o maior fechamento desde outubro de 2024.
Na segunda-feira, 12, os contratos futuros da commodity subiram 0,9%, alcançando US$ 109,40 por tonelada em Singapura, impulsionados pela preparação das siderúrgicas chinesas para o reabastecimento sazonal antes do feriado.
O movimento foi acompanhado por um aumento relevante dos estoques importados nos portos chineses, que avançaram pela sexta semana consecutiva e atingiram o maior nível desde abril de 2022, segundo dados da plataforma Shanghai SteelHome E-Commerce Co.
Diante desse avanço, parte do mercado passou a adotar uma visão mais construtiva sobre o minério de ferro. Analistas do Jefferies Financial Group Inc., segundo reportagem da Bloomberg, apontam uma média de US$ 100 por tonelada para 2026, refletindo expectativas de sustentação dos preços acima desse patamar.
Esse cenário, no entanto, é visto com cautela pela Genial, que se posiciona no extremo mais conservador entre as casas. Para o banco, o crescimento dos estoques, que chegaram a 136,5 milhões de toneladas, 14% acima da média de cinco anos, evidencia um descompasso entre a oferta resiliente e uma demanda que não reage.
Nesse caso, a fragilidade está concentrada principalmente do lado da demanda. A produção de aço bruto da China caiu 11% na comparação anual em novembro de 2025, levando a retração acumulada entre janeiro e novembro a 4%.
Ao mesmo tempo, a taxa de utilização dos altos-fornos recuou para 88% no fim do ano, pressionada pela piora da rentabilidade das usinas, segundo o relatório.
"As margens do vergalhão voltaram a ficar negativas e as margens do HRC [Hot-Rolled Coil (Bobina Laminada a Quente)] comprimiram-se para níveis apenas de breakeven [nem lucro, nem ganho], limitando os incentivos para a recuperação da produção", diz a Genial em um trecho.
Além disso, o contexto macroeconômico chinês reforça essa leitura. A Genial destaca que a recuperação do índice de preços ao consumidor (CPI), que avançou 0,8% na base anual, segue concentrada em alimentos, com inflação subjacente moderada. Segundo a instituição financeiro, isso seria um sinal de que a demanda interna permanece frágil.
O consumo de aço no país também estaria sendo dragado pela desaceleração do setor imobiliário, com as vendas de imóveis enfraquecendo ainda mais e as expectativas apontando para pressão contínua até 2026.
"Acreditamos que este será o ano em que a crise, iniciada em 2021 aprofundará, chegando ao ponto mais baixo em termos de vendas de imóveis no mercado primário, com o platô vindo em 2027", afirma no relatório setorial.
A Genial acrescenta que a demanda de aço da manufatura apresenta upside limitado. "Como resultado, os preços do aço permanecem sob pressão, com o HRC doméstico em média de ¥3.287 por tonelada (US$462/t) no início de novembro, e o vergalhão em ¥3.099/t (US$423/t), ambos abaixo dos níveis observados no ano anterior", diz.
O banco classifica a recente alta do minério como transitória, impulsionada pela "recomposição de estoques antes do feriado, ventos favoráveis do câmbio e o posicionamento especulativo", que explicam o suporte de curto prazo aos preços, mas não alteram o quadro estrutural.
Assim, a Genial aponta uma projeção média de US$ 95 por tonelada para o minério de ferro em 2026, abaixo do consenso de mercado, e avalia que o patamar próximo a US$ 110 não é sustentável ao longo do ano.
Na ponta mais longa da curva, a Genial revisou sua estimativa para o minério de ferro em 2027 para US$ 90 por tonelada, incorporando um ritmo mais gradual de entrada de nova oferta, especialmente do projeto de Simandou, na Guiné, uma serra cheia de minério de ferro do tipo Fe65, com capacidade para produzir 120 milhões de toneladas por ano.
O banco destaca que o "ramp-up do projeto é gradual" e que restrições de qualidade e efeitos de substituição amortecem o impacto no curto prazo. Mesmo assim, à medida que a oferta incremental se acumula, a pressão baixista tende a se tornar mais visível a partir de 2027.
A Genial informou, contudo, que não está reafirmando nem mudando, por enquanto, a recomendação de investimento das ações da Vale, Gerdau e Usiminas, mas ressaltou que elas serão revistas nos próximos dias para uma análise sobre o cenário mais frágil para minério de ferro e aço.