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Para a Legacy, ações da bolsa estão baratas, mas juros altos são risco

Em entrevista à EXAME, Gustavo Pessoa, sócio da gestora Legacy, diz que contexto é desfavorável para as bolsas de valores, em razão do aperto monetário, mas há oportunidades em ativos locais e estrangeiros

Por Bianca Alvarenga
Publicado em 16/05/2022 06:04
Última atualização em 16/05/2022 08:52

Tempo de Leitura: 6 min de leitura

A rápida virada nas bolsas de valores do mundo todo é uma prova de que, pelo menos por um bom tempo, nada será como antes. A disparada da inflação alcançou países desenvolvidos e emergentes, mudando radicalmente a dinâmica dos juros. Para os gestores de investimento, mesmo aqueles que não têm ativos estrangeiros no portfólio, observar os movimentos da política monetária se tornou tarefa intensiva.

Nessa corrida, o Brasil antecipou etapas. Enquanto o grupo desenvolvido de países ainda vivia dias de juros baixos, o Banco Central brasileiro começou a elevar a taxa Selic. Por aqui, os a taxa básica saltou de 2% para 12,75% em pouco mais de 12 meses. A dúvida, agora, é qual o teto para o ciclo atual – ou seja, até onde vai a Selic.

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Na opinião de Gustavo Pessoa, sócio da gestora Legacy, o Banco Central vai colocar o pé no freio daqui em diante. Isso não significa, no entanto, que os juros voltarão a cair em breve.

"O BC está perto de parar. Acreditamos que o Copom vai observar os efeitos cumulativos das altas recentes da Selic e que, de certo, só vão impactar a inflação do ano que vem", defende Pessoa.

Uma vez que o Brasil já está nos últimos degraus do caminho de alta, a Legacy montou uma estratégia de exposição a juros de outros países que ainda estão em etapas iniciais do ciclo de aperto, como Canadá, Índia e Chile. Dado também que a onda da alta dos juros já parece ter passado no Brasil (e quem surfou, surfou, quem não surfou, não surfa mais), resta saber se há oportunidades no mercado de renda variável.

"O cenário monetário global é ruim para bolsa a brasileira, não conseguimos ficar otimistas com os ativos locais. Dito isso, é importante ressaltar que há ações da bolsa que estão muito baratas, principalmente porque o mercado não está considerando um cenário de eleição presidencial indefinida", diz o gestor.

Recentemente, a gestora reabriu a captação do seu fundo multimercado, o Legacy Capital FIC FIM, um dos mais demandados da classe, e lançou um novo produto de crédito privado, o Legacy Capital Credit Advisory FIC FIM CP. As movimentações foram feitas para aproveitar o momento de virada do mercado.

Veja abaixo a entrevista completa com Gustavo Pessoa, sócio da gestora Legacy:

Qual sua visão para as próximas decisões do Banco Central sobre os juros?

A inflação tem se mostrado extremamente resiliente mundo todo, e os bancos centrais estão preocupados com isso. O Brasil começou a lição de casa mais cedo, levou os juros de 2% para 12,75%. Por isso, o BC está perto de parar. Acreditamos que o Copom vai observar os efeitos cumulativos das altas recentes da Selic e que, de certo, só vão impactar a inflação do ano que vem. Calculamos que 40% do efeito de alta dos juros já está na economia, ainda faltam 60% dessa carga deflacionária.

Nossa visão é de que o Banco Central pode adotar estratégia de não subir tanto a Selic quanto o mercado pede, mas também pode não reduzir os juros no ritmo em que o mercado acredita que acontecerá. O desafio é ter persistência para conseguir cravar esses objetivos, principalmente considerando os efeitos negativos para a atividade econômica – acreditamos que uma recessão a partir de meados de 2023 já está contratada com os juros em 12,75%.

Se o BC for além, ele acabará impondo um processo mais forte de retração, com implicações para a dívida pública e para a própria curva de juros. Vale dizer que hoje a potência da política monetária é maior do que no último ciclo de alta da Selic, durante o governo Dilma, porque não temos concessão de crédito a taxas subsidiadas como tínhamos naquela época.

Mas há riscos no caminho. A questão dos preços dos combustíveis segue incerta, porque apesar dos reajustes concedidos, a gasolina e o diesel continuam defasados, e há a possibilidade de escassez desses produtos, principalmente do diesel. Acreditamos que ainda há muito da inflação dos combustíveis por vir.

E lá fora? Os juros vão subir além do esperado, causando também um processo de recessão?

O cenário nos Estados Unidos e Europa se dividiu. Nos EUA, vemos muita inflação, mas ainda com um bom ritmo de crescimento. Já nos países europeus, o crescimento já está desacelerando e a recessão está possivelmente próxima. Isso vai fazer com que a Europa tenha mais cautela na alta dos juros. Nos Estados Unidos não será assim, porque o mercado de trabalho está forte, e o país vive uma realidade de pleno emprego. A inflação, que antes tinha origem nas commodities e nos bens duráveis, agora pode se disseminar mais, chegando aos salários.

A pressão extra pode levar o Federal Reserve a subir os juros de 0,5 ponto em 0,5 ponto percentual, um ritmo bastante atípico, além de reduzir o balanço, retirando liquidez do mercado. Esses fatores vão impactar os países emergentes, como o Brasil.

Como esse quadro influenciou as estratégias dos fundos da Legacy?

Estamos apostando em juros no exterior, e conseguimos, vez ou outra, aplicar um pouco em juros no Brasil ou comprar produtos atrelados à inflação. Não faz sentido ficar 100% exposto a ativos brasileiros, com a inflação que temos aqui, com uma eleição polarizada à frente, e com juros subindo em ordem mais forte lá fora. Basicamente, estamos tomados em juros em ativos de países que estão iniciando o ciclo de aperto monetário, como Nova Zelândia, Canadá, México, Polônia, África do Sul, Índia e Chile.

E quanto aos ativos de bolsa?

Desde o começo do ano, nós estamos short [vendidos] em bolsa ou completamente zerados. O cenário monetário global é ruim para a renda variável, não conseguimos ficar otimistas com os ativos locais. Dito isso, é importante ressaltar que há ações da bolsa que estão muito baratas, principalmente porque o mercado não está considerando um cenário de eleição presidencial indefinida.

Dois exemplos disso são as ações do Banco do Brasil e da Petrobras. Os preços atuais não levam em conta uma eleição "50 a 50", o mercado acredita que uma oposição intervencionista vai vencer. O resultado é que a Petrobras está precificada com múltiplos iguais aos da época do governo Dilma, e o Banco do Brasil está operando com números de quando o banco sequer tinha a mesma base de capital.

Em resumo, gostamos da bolsa brasileira no relativo a outros mercados, mas não gostamos do investimento em bolsa de maneira geral, porque o cenário futuro aponta para um movimento de piora dos ativos de renda variável no mundo todo.


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