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Onde investir: os setores da bolsa mais e menos promissores para 2022

Inflação e juros em níveis mais elevados no Brasil ditam as preferências de analistas

Recepção de hospital: o setor de saúde é uma das apostas de analistas na bolsa em 2022 | Foto: Leandro Fonseca/EXAME (Leandro Fonseca/Exame)

Recepção de hospital: o setor de saúde é uma das apostas de analistas na bolsa em 2022 | Foto: Leandro Fonseca/EXAME (Leandro Fonseca/Exame)

Guilherme Guilherme
Guilherme Guilherme

13 de dezembro de 2021, 07h03

Intenso. Assim promete ser o ano de 2022 para o mercado financeiro. Com a inflação mais forte do que a esperada no mundo, investidores iniciam o ano atentos aos movimentos dos principais bancos centrais do mundo.

Do lado político, as incertezas seguirão como pano de fundo, com a aproximação do período eleitoral no Brasil e o 20º Congresso do Partido Comunista da China, em outubro, que pode alterar a dinâmica da economia global. Os Estados Unidos terão ainda as eleições legislativas de meio de mandato em novembro.

Por aqui, o ano começa de forma bem diferente do início de 2021, quando a inflação ainda se mostrava branda e a taxa Selic estava na mínima histórica, em 2% ao ano. Hoje, mesmo com o juro no maior nível desde 2017 e próximo de dois dígitos, as expectativas são as de que a inflação termine 2022 acima da meta.

Para ajudar o investidor no ano em que uma das poucas certezas será a volatilidade, analistas do mercado financeiro selecionaram, a pedido da EXAME Invest, os setores mais e menos promissores da bolsa para 2022.

Mais promissores

1. Bancos

Preteridos nos últimos anos em meio ao aumento da concorrência com as fintechs, os bancos voltaram à preferência de investidores com a piora do cenário macroeconômico e a expectativa de juros ainda mais altos em 2022.

“É um setor que já sofreu bastante na bolsa e, com o cenário de juros subindo, tende a ser mais resiliente”, diz Gustavo Wolf, analista da gestora Meraki Capital. “Gostamos tanto de bancos tradicionais, como Itaú (ITUB4) e Bradesco (BBDC4), que mostram maior solidez, quanto de digitais, como Banco Pan (BPAN4), com história de crescimento.”

Enrico Cozzolino, analista da casa de análises Levante, avalia que os grandes bancos estão com “múltiplos históricos baratos” e espera que parte do provisionamento feito ainda em 2020 para cobrir um possível aumento da inadimplência volte em 2022 como lucro.

“Os bancos foram extremamente conservadores e o susto [com a inadimplência] ainda não ocorreu. Estimamos que o provisionamento possa ser aliviado para 2022.”

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O setor financeiro é uma das apostas de analistas para 2022, em meio ao avanço cada vez maior da digitalização (Freepik/Divulgação)

2. Siderúrgicas

Para João Piccioni, analista da casa de análises Empiricus, há grandes oportunidades na indústria do aço, que vem sendo negociada com alguns dos múltiplos mais baixos na bolsa, apesar do momento favorável que vive o setor.

O Preço/Lucro (P/L) de Usiminas (USIM5) e CSN (CSNA3), por exemplo, está abaixo de 3x. Mas é nas ações da Gerdau (GGBR4) que Piccioni enxerga o melhor potencial de ganho. Segundo ele, a preferência leva em consideração a maior exposição da companhia à construção civil e à economia americana, na qual o analista espera o aumento da demanda por aço com a aceleração da execução do plano de infraestrutura do governo de Joe Biden.

“As margens da Gerdau nos Estados Unidos melhoraram muito no último trimestre. O preço do aço, que subiu muito nos últimos seis meses, deve arrefecer, mas a dinâmica de crescimento da companhia deve manter os bons resultados no exterior”, afirma.

No Brasil, Piccioni acredita que a demanda por aço irá continuar elevada pela construção civil, mesmo com a pressão da taxa de juros mais elevada no financiamento para a venda de imóveis. “Apesar da dificuldade para o ano que vem, as construtoras precisam entregar os projetos, o que deve manter a demanda por aço elevada internamente.”

3. Saúde

Outro setor entre os favoritos de Piccioni para o próximo ano é o de saúde, que passa por uma intensa fase de consolidação.

Enquanto empresas como Rede D’Or (RDOR3) e Viveo (VVEO3) já realizaram mais de 15 aquisições ao longo de 2021, investidores aguardam pelo desfecho daquela que deve ser a maior operação do setor: a fusão entre Hapvida (HAPV3) e NotreDame Intermédica (GNDI3).

Embora o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) já tenha emitido uma nota em que afirma que a operação é “complexa”, o mercado segue confiante de que a fusão será aprovada e que isso ajudará a impulsionar os papéis de ambas as companhias. Essa também é  a expectativa da Empiricus. “Se Hapvida e Intermédica se juntarem, é muito provável que elas ganhem mercado.”

Dentro do setor, o analista também encontra boas oportunidades em ações que estiveram as piores performances do setor, como a Oncoclínicas (ONCO3). Última empresa a abrir capital na bolsa neste ano, a companhia acumula perdas de 55% desde sua oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) em meio à onda vendedora do segundo semestre.

“O mercado puniu demais as ações, mesmo com a empresa entregando o prometido e crescendo substancialmente em resultados”, diz Piccioni.

Menos promissores

1. Construção Civil

Com o nível de atividade inversamente proporcional à taxa de juros, o setor de construção tem um ano difícil pela frente. Algumas construtoras já demonstram desaceleração no volume de vendas e compressão das margens em razão dos efeitos da inflação. Parte do movimento já se reflete na queda de cerca de 30% do Índice Imobiliário da B3 no ano.

“O mercado está precificando um cenário mais desafiador, com o aumento da taxa de juros encarecendo o financiamento para o comprador”, diz Enrico Cozzolino.

A piora de percepção do mercado tem levado os ativos do setor a serem negociados a múltiplos mais baixos.  Mas, para Picciaini, esses números não significam uma oportunidade. “Os múltiplos das empresas sobre o valor patrimonial estão em patamares de dois a três anos atrás. Isso traz uma falsa sensação de que estão baratas.”

Wolf, da Meraki Capital, reforça o argumento. “Setores de tíquete mais altos, como o de construção, acabam sendo mais penalizados. Não à toa, as ações caíram bastante. Ainda assim, não vemos uma mudança nos fundamentos que indique melhora. O cenário é ruim mesmo.” 

Construção de prédio em São Paulo: o setor se mantém aquecido com obras de unidades vendidas nos últimos três anos (Eduardo Frazão/Exame)

2. Varejo

Outro setor particularmente sensível às altas da taxa de juros e ao nível da atividade, o varejo tem sido visto com grande cautela por parte dos investidores. ”A piora do cenário macroeconômico vai afetar, principalmente, o varejo de baixa e média renda”, diz Wolf.

Segundo Piccioni, essa dinâmica deve ser ainda mais pressionada pela inflação, com a camada mais pobre sendo obrigada a aumentar os gastos essenciais, como alimentação e energia elétrica, que ficaram mais caros. 

Por outro lado, após fortes perdas nos preços das ações neste ano, Piccioni já enxerga oportunidades no setor, principalmente olhando para o e-commerce. O analista não acredita, porém, que o mercado voltará a pagar os mesmo múltiplos de 2020, quando medidas de restrições levaram a uma grande busca por papéis do varejo digital. 

“O mercado estava precificando um ano extremamente positivo para os próximos anos, eram múltiplos altíssimos. Mas também não devem ser precificadas como commodities. Essas empresas fizeram investimentos para dez, vinte, trinta anos e o e-commerce segue crescendo.”

Para Wolf, o varejo voltado para o consumidor de mais alta renda, como Vivara (VIVA3) e Arezzo (ARZZ3), podem ser alternativas defensivas no setor, dada a menor elasticidade da demanda dessas empresas ao preço. “São mais resilientes.”

3. Techs

Em um movimento inédito na B3, as ações de tecnologia dominaram a agenda de IPOs de 2021. Mas nem por isso elas tiveram um ano positivo em termos de valor, pelo contrário. Com expectativa de forte crescimento futuro embutidas no preço, os papéis do setor costumam ter múltiplos mais altos. 

Mas, com o aperto das condições monetárias no Brasil e Estados Unidos, investidores já não têm aceitado pagar grandes prêmios por um crescimento futuro, que, com piores condições de crédito, pode não sair como o projetado. Juros mais altos também reduzem o valor presente da ação. 

“Estamos vendo uma reprecificação dos ativos de tecnologia. Alguns negócios chegaram na bolsa com múltiplos de receita elevadíssimos e vão estar sob risco no ano que vem, já que precisam entregar muito crescimento e podem não conseguir. É um segmento em que, na bolsa brasileira, eu ficaria fora”, diz Piccioni, da Empiricus.