Oncoclínicas: a receita para crescer 30% e fazer 100 mil procedimentos

Maior grupo privado de tratamento de câncer do país amplia investimentos para oferecer serviços em toda a jornada do paciente, conta o CEO e fundador Bruno Ferrari à EXAME Invest
Bruno Ferrari, fundador e CEO da Oncoclínicas: plano de expansão acelerado depois do IPO em agosto | Foto: Divulgação (Oncoclínicas/Divulgação)
Bruno Ferrari, fundador e CEO da Oncoclínicas: plano de expansão acelerado depois do IPO em agosto | Foto: Divulgação (Oncoclínicas/Divulgação)
Marcelo Sakate
Marcelo Sakate

Publicado em 17/11/2021 às 07:01.

Última atualização em 17/11/2021 às 07:54.

Última empresa a concluir um IPO como oferta pública (instrução 400 da CVM) até aqui neste ano antes da piora das condições de mercado, no começo de agosto, a Oncoclínicas (ONCO3) está acelerando o plano de expansão além do que havia proposto para a estreia.

O maior grupo privado de tratamento do câncer no país teve 679,4 milhões de reais em receita líquida no terceiro trimestre, com crescimento de 29,4% sobre o mesmo período de 2020. Os resultados foram divulgados no fim do dia desta terça-feira, dia 16, depois do fechamento do mercado.

O avanço se deu em cima de uma base que já havia crescido 20% no ano passado, uma vez que, diferentemente de outros grupos e segmentos da saúde, como o de consultas e cirurgias eletivas, a Oncoclínicas conseguiu manter os atendimentos ao longo de 2020, mesmo no auge da pandemia. São 73 unidades em 22 cidades do país, segundo números do terceiro trimestre.

Foram 97.600 procedimentos de julho a setembro, com crescimento de 22,7% na base anual (de janeiro a setembro, foram 281 mil procedimentos, ou ciclos de tratamento, com alta de 21%). Dois terços da expansão tiveram origem orgânica, ou seja, não se deram por meio de aquisições de outras clínicas. A receita também cresceu com o aumento de 6,4% no tíquete médio no terceiro trimestre de 2020 para 2021, de 7.167 reais para 7.626 reais.

O número de primeiras consultas cresceu 15% no trimestre na base anual e 33,6% nos nove primeiros meses, para 41.000 nesse período, o que sinaliza que há uma demanda crescente de novos pacientes diagnosticados.

"Há uma incidência maior da doença, mas também melhores tratamentos -- terapias e medicamentos -- que permitem que possamos tratar os pacientes por mais tempo. Eles hoje vivem mais e com mais qualidade de vida. É o controle da doença para o paciente viver melhor", disse Bruno Ferrari, CEO e fundador da Oncoclínicas, à EXAME Invest.

"Mas isso só é possível dentro do grupo com a medicina de precisão, que é a individualização e a identificação dos pacientes para oferecer o tratamento mais adequado e específico para cada um. É o que os grandes centros do mundo fazem e nós também", afirmou o CEO, que é médico oncologista.

Ferrari assumiu há menos de um mês o comando da companhia que fundou em 2010, sucedendo Luís Natel, que pediu para sair do cargo que exercia desde 2016. Ele diz que os resultados refletem também os ganhos de escala com um modelo adotado há anos com ênfase no tratamento ambulatorial e em um ecossistema de referenciamento para o diagnóstico, além de uma rede com cerca de 1.000 médicos especialistas.

Também têm impacto positivo acordos que colocam a Oncoclínicas como parceiro preferencial no tratamento de câncer de diversos planos e operadoras de saúde.

O modelo de ganho de escala e sinergias é reforçado pelas aquisições, que se tornaram mais frequentes depois do IPO que movimentou 2,67 bilhões de reais, dos quais cerca de 1,8 bilhão de reais destinado ao caixa da companhia.

Foram quatro aquisições em três meses, dos quais a principal é a Unity, uma das líderes do segmento oncológico, que vai agregar 24 unidades em dez cidades do país e um quadro com 350 médicos quando a compra for aprovada pelas autoridades regulatórias. É uma operação que, portanto, ainda não foi consolidada no resultado.

São transações que reforçam a estratégia de expansão da Oncoclínicas também por meio do compartilhamento de melhores práticas e de alinhamento de cultura dos grupos envolvidos.

"A agenda de M&A é uma agenda ativa muito mais avançada do que propusemos fazer nas nossas rodadas com investidores para o IPO", disse Ferrari.

Algumas dessas operações, como a da Oncobio em Belo Horizonte no início de setembro, são complementares para a formação de um ecossistema de tratamento, pois permitem a incorporação de cancer centers, como são chamados centros integrados de atendimento com estrutura de internação para pacientes com a doença.

Nessa frente, a Oncoclínicas também anunciou na última semana um memorando de entendimento com a Unimed Rio para o desenvolvimento de um cancer center no Rio de Janeiro, que seria operado pelo grupo e atenderia clientes da própria parceria e de outras operadoras.

É um plano de negócios em execução avançada cujos resultados já se refletem em indicadores saudáveis.

No terceiro trimestre, o Ebitda ajustado, que mede a geração de caixa operacional, subiu 33,9%, para 117,6 milhões de reais, o que se refletiu em uma margem Ebitda de 17,3% (acima dos 16,7% na comparação anual). No acumulado dos nove primeiros meses do ano, a margem Ebitda saltou de 13,8% para 17,6%, em razão da melhoria na margem bruta e da alavancagem operacional, na medida em que a companhia acelera o crescimento e ganha escala.

O lucro líquido ajustado, sem efeitos não-recorrentes, aumentou 27,7% na base anual, para 47,3 milhões de reais.

"Os números mostram a resiliência do tratamento oncológico [do ponto de vista de negócios], uma vez que é uma doença que não se pode esperar para tratar o paciente. Não houve no ano passado, por exemplo, a desaceleração de demanda vista em outros setores e mesmo em outros segmentos da saúde", disse Cristiano Camargo, diretor de Estratégia e de Relações com Investidores da Oncoclínicas.

Apesar do quadro favorável, as ações da Oncoclínicas não escaparam da onda vendedora que tomou conta da bolsa brasileira desde julho e acumulam queda de cerca de 50% desde a estreia em 10 de agosto.