Polymarket: casos de informação privilegiada chegam à Justiça americana (SOPA Images/LightRocket/Getty Images)
Colaboradora na Exame
Publicado em 24 de abril de 2026 às 17h40.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou os chamados mercados de previsão nesta quinta-feira, 23, ao comentar o avanço dessas plataformas e possíveis casos de uso de informação privilegiada. “O mundo inteiro, infelizmente, virou meio que um cassino”, afirmou a repórteres no Salão Oval, acrescentando que “nunca foi muito a favor” desse tipo de aposta, segundo divulgado pela Business Insider.
As declarações ocorrem em meio à repercussão do caso envolvendo o soldado do Exército norte-americano, Gannon Ken Van Dyke, acusado de utilizar informações confidenciais para lucrar mais de US$ 400 mil na plataforma Polymarket. Segundo promotores, ele teria operado com base em dados relacionados ao planejamento da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, realizada em 3 de janeiro por militares dos EUA.
Conforme informações da Reuters, o Departamento de Justiça alega que Van Dyke apostou mais de US$ 33 mil entre o fim de dezembro de 2025 e o início de janeiro de 2026 em eventos que, à época, tinham baixa probabilidade atribuída pelo mercado — o que ampliou significativamente seus ganhos.
Nesta sexta-feira, 24, o militar foi libertado sob fiança de US$ 250 mil, depois de ser preso na véspera, de acordo com agência. Como parte das condições, teve de entregar passaporte e armas de fogo e deverá comparecer à Justiça em Manhattan nos próximos dias. Ele não se declarou culpado. Segundo a Reuters, promotores afirmam que, após lucrar com as apostas, o soldado tentou ocultar sua identidade, inclusive solicitando a exclusão de sua conta na plataforma.
O caso é considerado o primeiro processo criminal nos Estados Unidos envolvendo uso de informação privilegiada em mercados de previsão — um segmento que vem crescendo ao permitir que usuários negociem probabilidades de eventos políticos, econômicos e geopolíticos.
Trump disse não estar familiarizado com os detalhes do episódio, mas comparou a situação ao escândalo envolvendo Pete Rose, ex-jogador banido da liga de beisebol por apostas. “Se ele tivesse apostado contra o próprio time, isso não seria nada bom. Mas ele apostou no próprio time”, afirmou.
Ainda assim, o presidente reiterou sua posição crítica aos mercados de previsão, dizendo que “nunca foi muito a favor” desse tipo de aposta e demonstrando desconforto com a expansão dessas plataformas. “Eu não gosto disso, conceitualmente, mas é o que é. Não, acho que não estou feliz com nada disso”, declarou.
Apesar das críticas recentes, Trump já havia adotado um tom mais favorável aos mercados de previsão no passado. Conforme divulgado pela Business Insider, o presidente afirmou, em entrevista ao Washington Post, que essas plataformas podem ser mais precisas do que pesquisas eleitorais tradicionais, ao citar que empresas como Kalshi e Polymarket lhe atribuíram maiores chances de vitória nas eleições de 2024 do que os institutos de pesquisa. “Eles me previram de forma bem correta… por uma lavada”, disse à época.
A crítica também contrasta com parte da atuação de sua própria administração. O presidente da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), Michael Selig, já classificou esses mercados como instrumentos “valiosos para a sociedade”, segundo informações da Business Insider. Além disso, Donald Trump Jr. mantém envolvimento direto no setor, atuando como conselheiro da Kalshi e investidor na própria Polymarket.
O caso, que veio à tona no início desta ano, levou à apresentação de projetos de lei no Congresso norte-americano com o objetivo de ampliar a supervisão sobre os mercados de previsão e reduzir riscos de insider trading. Em resposta, a própria Polymarket publicou no X (ex-Twitter) que encaminhou o episódio ao Departamento de Justiça e declarou que “o uso de informações privilegiadas não tem lugar” na plataforma.