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Mounjaro em liquidação: caneta emagrecedora no SUS pode baixar preço na farmácia?

Especialistas veem efeito indireto do SUS sobre os preços, principalmente por escala e competição

Mercado de GLP-1: entrada do SUS pode reforçar disputa por preços entre fabricantes. (Freepik)

Mercado de GLP-1: entrada do SUS pode reforçar disputa por preços entre fabricantes. (Freepik)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 23 de setembro de 2026 às 10h39.

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A entrada das canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS) pode fazer mais do que ampliar o acesso ao tratamento contra a obesidade. Se o governo avançar com compras em grande escala, o movimento pode aumentar a competição entre fabricantes, estimular a produção nacional e, indiretamente, contribuir para uma queda dos preços também nas farmácias.

"Essa entrada das canetas no SUS pode ser um fator de transformação", avalia o estrategista-chefe da Krivo Capital, Marco Saravalle. Para ele, porém, o efeito sobre os preços no varejo não deve ser automático. "Pode ter queda nos preços? Acho que indiretamente, sim. Não é algo que vai ter um efeito direto."

Na visão de Saravalle, o principal fator de pressão sobre os preços continuará sendo o aumento da concorrência, especialmente com a perda de exclusividade da semaglutida e a entrada de novos competidores nacionais.

O especialista em investimentos e sócio da GT Capital, Gabriel Pinheiro, segue raciocínio semelhante, e vê que o movimento de queda dos preços já começou antes mesmo de qualquer distribuição ampla pelo SUS.

"Na minha opinião, o preço já está caindo, e não é por causa do SUS. Isso é concorrência pura, com quebra de patente da semaglutida em março e entrada de EMS, Hypera, Eurofarma", diz.

Mas Pinheiro destaca que o preço negociado pelo governo não se transfere automaticamente para o balcão das farmácias. "Tecnicamente, compra pública e preço de farmácia são coisas separadas, não existe um cano direto ligando o desconto que o governo negocia no SUS ao preço que você paga no balcão. Não é automático."

O efeito, na avaliação do especialista, pode aparecer de maneira indireta. "Se o SUS compra em volume, ele dá escala para a indústria nacional, os fabricantes diluem custo, e isso realimenta a guerra de preço que já está rolando no varejo. Ou seja, acelera uma tendência que já existia, não cria uma nova."

SUS pode ampliar escala e competição

O governo também pode alterar a dinâmica do mercado ao se tornar comprador de grandes volumes. Para o especialista em investimentos e sócio-fundador da AW Capital, Augusto Parente, esse movimento aumenta o poder de negociação do setor público e pode incentivar novos investimentos na produção nacional.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pontua que a ampliação da oferta já vem ajudando a reduzir os valores cobrados no mercado. "O que estava custando R$ 1,7 mil, R$ 2 mil, já está entre R$ 300 e R$ 400 na farmácia, aumentando o acesso. Isso já ajuda muita gente", em evento.

Padilha também disse que o governo trabalha para estimular a fabricação local. "Perguntaram quem teria condições de produzir, aqui no Brasil, a caneta emagrecedora à base de semaglutida, cuja patente expirava neste ano de 2026. Tivemos uma resposta muito boa."

Novo Nordisk e Eli Lilly entram na disputa

A maior concorrência também pressiona as farmacêuticas globais que lideraram a primeira fase de expansão dos medicamentos GLP-1. "Do lado global, Novo e Eli Lilly perdem monopólio de preço no Brasil, mas já se anteciparam", afirma Pinheiro.

Segundo o especialista, a Novo ressubmeteu o Wegovy à Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por avaliar a entrada de medicamentos e outros tratamentos na rede pública, com desconto de quase 60%.

A estratégia indica que a disputa pelo mercado público também pode pressionar os preços praticados pelas grandes farmacêuticas, especialmente em um cenário de maior presença de fabricantes nacionais.

A conta do SUS pode limitar a expansão

Se a escala pode ajudar a reduzir preços, ela também amplia uma das principais dificuldades da política, ou seja, o custo para o sistema público. Quanto maior o número de pacientes elegíveis, maior será a necessidade de recursos, o que pode limitar o tamanho inicial do programa.

Médico, sócio e CEO da L4 Capital, Carlos Suslik questiona a viabilidade econômica de uma oferta muito ampla. "A pessoa quer usar, mas não tem recurso, então não usa. Ah, é de graça? Aumenta a demanda exponencialmente."

O médico também chama atenção para a possibilidade de aumento na procura por consultas e prescrições caso as canetas passem a ser oferecidas gratuitamente. Por outro lado, o Ministério da Saúde afirma que a distribuição não será indiscriminada, mas ainda não há detalhes de como será feito.

Atualmente, a pasta acompanha pacientes em um estudo conduzido com o Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, para avaliar o uso da semaglutida em pessoas com obesidade grave ou associada a outras doenças. A experiência deve ajudar a estabelecer os critérios de acesso ao medicamento.

Suslik reforça que o tratamento exige acompanhamento profissional. "As canetas emagrecedoras, como qualquer medicamento, têm uma prescrição que deve ser levada à risca. Não servem para todo mundo, têm critérios para ser utilizadas, não é mágica."

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