Morgan Stanley: crédito privado registra momento de tensão após anos de alta. (Mario Tama/Getty Images)
Repórter de Invest
Publicado em 12 de março de 2026 às 09h50.
O banco americano Morgan Stanley restringiu os resgates em um de seus fundos de crédito privado após um aumento expressivo nos pedidos de retirada por parte dos investidores, em meio a um ambiente de maior desconfiança sobre este setor global, avaliado em cerca de US$ 2 trilhões.
Investidores solicitaram o resgate de quase 11% das cotas em circulação de um dos veículos da gestora — North Haven Private Income Fund —, segundo fontes consultadas pela Reuters. E, diante da pressão, a instituição limitou os saques, devolvendo apenas parte dos recursos demandados.
Morgan atendeu cerca de US$ 169 milhões — o equivalente a 45,8% — dos pedidos de resgate apresentados para o trimestre.
O banco seguiu as regras que permitem atender pedidos de resgate de até 5% das cotas em circulação por período. A medida, segundo a instituição, evita a venda forçada de ativos em momentos de turbulência no mercado e busca preservar o retorno ajustado ao risco no longo prazo.
Apesar da pressão por liquidez, o banco afirmou que os fundamentos de crédito do portfólio permanecem "amplamente estáveis." Até 31 de janeiro, o fundo tinha investimentos em 312 tomadores de empréstimos distribuídos por 44 setores.
O episódio ocorre em um momento de aumento das preocupações sobre a saúde do mercado de crédito privado. Nos últimos meses, uma sequência de problemas de crédito levou investidores a questionarem a qualidade das carteiras de empréstimos e a capacidade de pagamento das empresas.
Analistas apontam à Reuters que o ambiente atual tem ampliado a diferença entre empresas com balanços sólidos e aquelas mais frágeis. Em carta aos investidores, o Morgan Stanley destacou que a "dispersão entre créditos mais fortes e mais fracos está aumentando".
O impacto potencial da inteligência artificial (IA) sobre empresas de software também pressiona. O receio é de que a tecnologia reduza a rentabilidade dessas companhias e, consequentemente, sua capacidade de honrar dívidas. Elas são uma das principais tomadoras de empréstimo.
As preocupações não se limitam ao fundo do Morgan Stanley. O setor tem enfrentado uma série de episódios recentes que alimentam a percepção de risco depois de anos em que o crédito privado havia ganhado apelo entre os investidores, com crescimento acelerado desde a crise de 2008.
A gestora BlackRock informou que precisou limitar resgates em um de seus principais fundos de dívida após um aumento nos pedidos de retirada de recursos. Já a Blackstone revelou que seu fundo de crédito privado Blackstone Private Credit Fund (BCRED) também teve forte alta nos pedidos de resgate no primeiro trimestre.
A gestora Blue Owl Capital passou, ainda, por questionamentos envolvendo vendas de ativos, o que desencadeou uma queda nas ações de gestores alternativos com forte presença no crédito privado. O JP Morgan, por outro lado, revisou para baixo o valor de alguns empréstimos ligados a fundos de crédito privado.
Com a manutenção de juros elevados em várias economias, o risco de inadimplência e a deterioração de alguns portfólios passaram a gerar questionamentos sobre a resiliência desse mercado. Os episódios de restrição de liquidez e aumento de resgates vêm reforçando o alerta.