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Montadoras japonesas enfrentam crise e correm para se reinventar

Pressão chinesa, atraso na 'onda' dos elétricos e custos crescentes colocam o setor em xeque

Montadoras: eletrificação de automóveis coloca montadoras à frente (Honda/Divulgação)

Montadoras: eletrificação de automóveis coloca montadoras à frente (Honda/Divulgação)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 12 de abril de 2026 às 14h00.

As grandes montadoras do Japão atravessam um dos momentos mais delicados de sua história recente, aponta uma reportagem do The Economist.

Em março, o presidente executivo da Honda, Toshihiro Mibe, reconheceu publicamente que a empresa deve registrar seu primeiro prejuízo líquido desde 1957 — e assumiu responsabilidade direta pelo resultado. Como gesto, anunciou um corte de 30% no próprio salário e no de seu vice.

O diagnóstico, porém, vai além da companhia. Poucos dias depois, o executivo fez um alerta direto ao setor: “A própria indústria automobilística japonesa está à beira da falência”.

Os sinais de deterioração são claros. A Nissan, que já figurou entre as maiores do mundo, enfrenta uma reestruturação profunda, com fechamento de fábricas previsto até 2028.

Além de tarifas sobre importações nos Estados Unidos, o principal golpe veio da China. As montadoras japonesas perderam participação global — de 31% em 2019 para 26% recentemente — e viram suas vendas despencarem em mercados-chave.

Na China, as vendas de carros japoneses despencaram um terço desde 2019. No Sudeste Asiático, sua participação de mercado era de 57% em 2025, contra 68% apenas dois anos antes. As montadoras japonesas pareciam imparáveis. Como tudo deu tão errado para elas?

O atraso na eletrificação

A principal fragilidade está na transição tecnológica. Diferentemente de concorrentes ocidentais e, sobretudo, chineses, as montadoras japonesas avançaram mais lentamente nos veículos elétricos.

Ainda hoje, carros a gasolina representam a maior parte das vendas dessas empresas — chegando a cerca de 80% no caso da Nissan. Em vez de apostar fortemente em elétricos, o setor priorizou híbridos tradicionais e tecnologias alternativas, como hidrogênio, por serem mais compatíveis com sua base industrial.

Enquanto isso, o mercado global mudou rapidamente. Veículos elétricos e híbridos plug-in saltaram de 3% das vendas globais em 2019 para 26% recentemente, impulsionados principalmente por fabricantes chineses.

Na Ásia, essa transformação é ainda mais evidente: um terço dos carros vendidos já é elétrico. Países como Singapura e Tailândia aceleram a adoção, pressionando ainda mais as montadoras japonesas em mercados onde antes dominavam.

No meio da crise, a Toyota se destaca como ponto fora da curva. Líder global em vendas, a empresa se beneficiou de sua forte presença em híbridos, segmento no qual domina cerca de 40% do mercado.

Mesmo com postura cautelosa em relação aos elétricos, a companhia avançou na China por meio de parcerias com empresas locais como BYD e Huawei. O movimento ajudou a manter sua participação relativamente estável no país.

Software vira novo campo de batalha

Diante desse cenário, empresas como a Honda começaram a reagir, lançando modelos elétricos e ampliando investimentos. Um exemplo é o desenvolvimento conjunto com a General Motors.

O desafio, no entanto, é estrutural. Veículos elétricos exigem forte capacidade em software — área que não é tradicionalmente o ponto forte da indústria japonesa, historicamente centrada na engenharia mecânica. Tecnologias como sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS) passam a ser decisivas.

Parcerias têm sido uma saída. A Nissan, por exemplo, firmou acordo com a Wayve para encontrar soluções de direção autônoma. Ainda assim, nem todas as iniciativas avançam: a Honda encerrou recentemente um projeto com a Sony, por exemplo.

Novos investimentos, segundo o The Economist, também aumentaram os custos para as montadoras japonesas, mesmo com as vendas totais ainda abaixo do pico pré-pandemia, comprimindo as margens de lucro.

De acordo com a corretora Bernstein, os custos fixos por unidade do setor — incluindo pesquisa e desenvolvimento e depreciação de equipamentos — são 78% maiores do que eram há uma década. O aumento dos salários e a inflexibilidade das leis trabalhistas no Japão dificultam o controle dos custos.

Consolidação difícil

Diante das dificuldades, cresce a discussão sobre consolidação no setor. Honda e Nissan chegaram a negociar uma fusão que criaria uma gigante global, mas as conversas fracassaram.

O problema é que sinergias parecem limitadas: portfólios semelhantes e estruturas produtivas complexas dificultam ganhos relevantes. A Toyota, embora financeiramente mais forte, tem preferido ampliar influência por meio de participações minoritárias em empresas como Subaru, Mazda e Suzuki.

Sem grandes fusões no horizonte, as montadoras buscam colaboração em áreas específicas. Iniciativas incluem compras conjuntas de insumos e possíveis integrações em cadeias de baterias.

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