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Micron: por que o balanço de uma empresa pouco conhecida ganhou tanta importância

A fabricante de chips virou termômetro do rali de IA — e qualquer tropeço pode custar caro

Mitchel Diniz
Mitchel Diniz

Editor de Invest

Publicado em 24 de junho de 2026 às 10h15.

Última atualização em 24 de junho de 2026 às 14h16.

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Um ano atrás, a Micron Technology era uma companhia com longa história e valor de mercado de US$ 136 bilhões, mas não dá para dizer que despertava grande interesse nos investidores. O cenário mudou radicalmente.

Com ações disparando 761% em 12 meses, a fabricante de chips de memória sediada em Boise, Idaho, atingiu valor de mercado de US$ 1,19 trilhão, superando Walmart e Intel. Sozinha, a Micron responde por quase um quinto da valorização de 7,6% do S&P 500 em 2026.

É nesse contexto que o mercado aguarda, com apreensão, a divulgação dos resultados do terceiro trimestre fiscal da companhia, encerrado em 31 de maio, após o fechamento dos mercados nesta quarta-feira.

Números extraordinários, expectativas ainda maiores

Os analistas projetam salto de lucro superior a 1.000% na comparação anual, com receita avançando quase 285%, para cerca de US$ 35,9 bilhões. As estimativas superam as projeções que a própria Micron havia dado ao mercado três meses atrás. Wall Street calcula que lucro ajustado por ação da Micron deve alcançar US$ 20,83, ante US$ 1,91 no mesmo período do ano anterior, uma multiplicação de quase dez vezes

Uma métrica especialmente monitorada é a margem bruta ajustada, projetada em 81%, um nível recorde histórico. O dado sinaliza o poder de precificação da empresa e o estágio do ciclo de estoque de memória.

Mas os números do trimestre já passado são, em certa medida, secundários. O que o mercado quer ouvir é o guidance para o quarto trimestre. Qualquer sinal de desaceleração no crescimento ou na rentabilidade pode ser suficiente para derrubar as ações.

A virada estrutural: de commodity cíclica ao coração da IA

Os chips de memória foram historicamente marcados por oscilações violentas de inventário e preço, impulsionadas pela demanda cíclica de eletrônicos de consumo. O ciclo atual é diferente, alimentado por centenas de bilhões de dólares em investimentos em data centers. As quatro maiores empresas de tecnologia — Alphabet, Microsoft, Amazon e Meta — planejam destinar até US$ 725 bilhões em despesas de capital em 2026, com compromissos ainda maiores para o ano seguinte, segundo a Bloomberg.

Analistas estimam que a demanda por chips de memória deverá superar a oferta pelos próximos dois anos. A escassez tem raízes no ciclo anterior. Quando o boom de investimento em IA começou, em 2024, Micron, SK Hynix e Samsung ainda se recuperavam de um dos piores ciclos de baixa de sua história. Avessas a novas apostas, as fabricantes optaram por não expandir capacidade de produção, uma decisão que hoje pesa sobre seus próprios clientes. Nenhuma nova capacidade relevante é esperada antes de aproximadamente um ano, com mais volume chegando apenas em 2028 e 2029.

O impacto já se estende para além dos data centers. A escassez pressiona preços de PCs, smartphones e consoles. Até a Apple, com todo o seu poder de barganha, deverá repassar aumentos ao consumidor por conta da falta de memória, segundo a Barron's.

"Precificada para a perfeição"

A ascensão meteórica das ações criou um paradoxo. Quanto mais a Micron sobe, maior a pressão sobre seus resultados e maior o risco de decepção.

"A Micron está assumindo uma dinâmica de mercado do tipo Nvidia", disse Kenny Polcari, estrategista-chefe de mercado da Slatestone Wealth, em entrevista à Reuters. "Quando uma ação está precificada para a perfeição, a perfeição passa a ser o requisito mínimo. Qualquer coisa abaixo disso, como guidance mais fraco, tendências de demanda em desaceleração, pressão sobre margens ou mesmo um tom cauteloso da gestão, pode desencadear uma correção significativa."

A tensão ficou evidente com a queda de 13% das ações da Micron nesta terça-feira, 23. Foi a maior baixa diária do papel em mais de um ano, arrastando o Philadelphia Stock Exchange Semiconductor Index para seu pior recuo desde 5 de junho. O gatilho foi um relatório da Coreia do Sul indicando que a rival SK Hynix está desacelerando a expansão da produção de chips de memória para IA. Na manhã desta quarta, os papéis operavam em alta de cerca de 4% no pré-mercado.

"Qualquer decepção com os resultados da Micron poderia reforçar a dinâmica de queda em cascata, mas um resultado limpo pode atrair compradores de volta ao setor", avaliou Joe Mazzola, estrategista de operações e derivativos do Charles Schwab, citado pela Bloomberg.

Valuation barato — mas o teto pode estar próximo

Apesar de toda a valorização, a Micron ainda negocia a menos de 10 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses — bem abaixo das 20,8 vezes do S&P 500 e das 24 vezes do Nasdaq 100. O desconto reflete a desconfiança histórica do mercado com empresas do setor de memória, conhecidas pela ciclicidade do negócio.

O ceticismo tem fundamento: o crescimento da receita deve desacelerar para 76% no ano fiscal de 2027 e apenas 8% em 2028. Ainda assim, 50 dos 55 analistas que cobrem o papel recomendam compra — e nenhum recomenda venda, segundo a Bloomberg. Por outro lado, as ações subiram tanto que os preços-alvo médios dos analistas, de US$ 1.153, implicavam, antes da queda de terça-feira, uma desvalorização de 5% nos próximos 12 meses.

"Há uma barra muito alta aqui", resumiu David Wagner, gestor de portfólio da Aptus Capital Advisors, citado pela Bloomberg. "Precisamos reconhecer o quanto de perfeição já está precificado nas ações."

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