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Mercado aposta que guerra do Irã será curta – mas conflito já dura um mês

Mesmo com escalada no Oriente Médio, S&P 500 cai menos do que o esperado, sustentado por lucros em alta, petróleo sob controle e aposta de conflito curto

Guerra: Oriente Médio enfrenta escalada das tensões. (Reprodução/AFP)

Guerra: Oriente Médio enfrenta escalada das tensões. (Reprodução/AFP)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 30 de março de 2026 às 08h19.

Apesar do aumento dos riscos geopolíticos e de dúvidas sobre até que ponto os preços atuais refletem o cenário, o mercado de ações está sendo, de certa forma, resiliente com o conflito no Oriente Médio. Pelo menos é esta a avaliação do colunista do Wall Street Journal, James Mackintosh, segundo o qual fatores estruturais ajudam a explicar por que as bolsas caíram menos do que o esperado até agora.

O índice S&P 500 acumula queda de cerca de 7,4% desde o pico anterior à guerra, movimento considerado contido diante da magnitude da crise energética e da escalada militar.

Mackintosh observa que o comportamento do mercado pode sugerir complacência. "As ações não caíram tanto quanto se poderia esperar dado o tamanho da disrupção", na sua visão.

Um dos fatores apontados é o histórico de reação dos mercados a eventos geopolíticos, sabendo que crises econômicas e financeiras tendem a ter efeitos mais duradouros do que guerras.

Estudos citados pelo colunista, conduzidos por instituições como o Deutsche Bank, indicam que grandes eventos desde 1939 geraram quedas médias de cerca de 4% nas bolsas, seguidas por recuperações rápidas.

Exemplo disso é que episódios como a Grande Depressão, o choque do petróleo nos anos 1970 e a crise financeira de 2008 provocaram impactos mais profundos do que conflitos militares globais.

Além disso, as projeções de lucro para companhias do S&P 500 cresceram 3,6% desde o início do conflito, no ritmo mais acelerado em cinco anos, de acordo com dados da LSEG citados pelo WSJ.

O avanço é liderado por empresas de energia, beneficiadas pela alta do petróleo — com a Prio sendo a brasileira favorita para atuar no período —, mas também se estende a outros setores.

O segmento tecnológico registrou o maior aumento de estimativas em um período de quatro semanas desde o início da série histórica em 1995.

A duração da guerra

A leitura da maior parte dos investidores é de que o conflito terá duração limitada, o que está ajudando a conter reações mais intensas nos mercados.

O chefe de estratégias de mercado de capitais da Tikehau Capital, Raphaël Thuin, afirmou ao WSJ que a economia global entrou no conflito em uma posição relativamente sólida.

"Podemos absorver um choque e ainda ter um ano decente. Se conseguirmos sair dessa situação relativamente rápido, tudo ficará bem."Raphaël Thuin, chefe de estratégias de mercado de capitais da Tikehau Capital

Mackintosh alerta, porém, para riscos caso o cenário se prolongue. No início do conflito, o presidente dos EUA, Donald Trump, chegou a afirmar que ele iria durar apenas dias, mas já dura um mês.

Embora existam fundamentos que sustentem a resiliência atual, o comportamento do mercado segue condicionado a um conjunto de hipóteses que ainda podem ser revistas.

Apoiado na expectativa de que a guerra no Irã terá duração limitada, o mercado acredita que não haverá uma interrupção prolongada das exportações de petróleo, especialmente pelo Estreito de Ormuz.

Outra premissa é a de que os preços do petróleo recuarão ao longo dos próximos meses, e contratos futuros já indicam queda para níveis próximos de US$ 85 por barril até o fim do ano.

Esse cenário reduz o risco de um choque inflacionário mais persistente e limita impactos mais amplos sobre consumo e atividade econômica, de acordo com Mackintosh.

Economia global relativamente sólida

Há, ainda, o pressuposto de que a economia global entrou no conflito em uma posição relativamente sólida, o que permitiria absorver um choque moderado sem entrar em recessão.

Já os investidores consideram que a resposta política tende a limitar a duração do choque energético.

A análise destaca que governos, pressionados por eleitores sensíveis ao preço dos combustíveis, podem atuar para conter a alta ou acelerar negociações, reduzindo o impacto econômico mais prolongado.

Além disso, há expectativa de continuidade de fatores que servem de suporte ao mercado, como o ciclo de investimentos em inteligência artificial.

Caso essas hipóteses não se confirmem, especialmente em cenários de guerra prolongada, a precificação dos ativos pode sofrer ajustes mais significativos.

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