Discurso de Trump frustra o mercado: "O movimento mostra que o mercado vinha parcialmente posicionado para uma solução mais rápida e precisou ajustar expectativas de forma abrupta", afirma Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital (Alex Brandon/POOL/AFP)
Repórter
Publicado em 2 de abril de 2026 às 11h21.
A quinta-feira, 2, véspera do feriado de Páscoa, começou com o mercado financeiro digerindo o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na noite de quarta-feira, 1º, sobre a guerra no Irã. A reação veio horas depois, com a abertura dos mercados, espalhada por diferentes classes de ativos ao redor do mundo.
Na Ásia, as bolsas fecharam em queda generalizada, refletindo a deterioração do apetite por risco. O Nikkei 225, no Japão, recuou 2,4%, enquanto o Kospi, da Coreia do Sul, caiu 4,5%. Em Hong Kong, o Hang Seng perdeu 0,7%, com quedas também na China continental e na Austrália.
Ao mesmo tempo, o petróleo inverteu o sinal da véspera e disparou. O Brent voltou a superar os US$ 108, com alta superior a 7%, enquanto o WTI avançava cerca de 10%, acima dos US$ 110, em meio ao temor de restrições na oferta.
No Brasil, a primeira reação veio no câmbio, com o dólar abrindo em alta frente ao real, após duas sessões consecutivas em alta, refletindo a busca global por proteção.
Para diferentes analistas, a leitura do pronunciamento de Trump é de "frustração". Ao invés de trazer clareza ou um caminho de desescalada, como vinha sendo sinalizado à imprensa pelo próprio republicano, o discurso, na verdade, elevou a incerteza geopolítica, reacendeu o prêmio de risco e reforçou um ambiente global mais instável.
No pronunciamento, o presidente dos EUA afirmou que os ataques do país contra o Irã estariam próximos de atingir seus objetivos, mas evitou estabelecer um prazo claro para o fim do conflito.
Ao contrário do tom de otimismo que impulsionou os mercados nas últimas sessões, Trump sinalizou a possibilidade de novos ataques nas próximas semanas caso não haja acordo. "Estamos no caminho para completar todos os objetivos militares da América rapidamente, muito rapidamente. Vamos atacá-los com dureza extrema", disse.
Em outro momento, elevou ainda mais o tom ao afirmar que poderia levar o país "de volta à Idade da Pedra". O comando militar iraniano reagiu e prometeu intensificar a ofensiva contra Estados Unidos e Israel, destacando que a guerra seguirá até a "rendição" dos adversários. O conflito já dura mais de um mês.
O impacto do discurso ganhou contornos mais claros, e mais duros, na visão do mercado. Relatório da Eleven Financial aponta que os agentes financeiros entraram nesta quinta sob "deterioração relevante do apetite por risco", com queda sincronizada das bolsas e forte alta do petróleo.
Segundo a casa, a reação da commodity incorpora um cenário de restrição de oferta estimado em cerca de 11 milhões de barris por dia, além de uma "backwardation acentuada", quando o petróleo para entrega imediata fica mais caro do que para entrega futura, sinalizando escassez no curto prazo.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o ponto central foi a reprecificação do risco geopolítico. "A ausência de sinalização concreta de desescalada reancorou rapidamente o prêmio de risco em commodities e reforçou a percepção de um ambiente global mais instável e menos previsível", afirma.
O analista observa, no entanto, que o efeito vai além do curto prazo. "Na prática, isso reduz a visibilidade sobre inflação e limita a expectativa de afrouxamento monetário no curto prazo, com impacto direto sobre custo de capital e valuation, sobretudo em mercados emergentes".
"A perspectiva agora é de manutenção de uma postura defensiva, com crédito seletivo, spreads pressionados e preferência por proteção em dólar, energia e duration mais curta", acrescenta.
Na avaliação de Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, o mercado reagiu menos ao que foi dito e mais ao que não foi "esclarecido". "O pronunciamento foi visto de forma negativa porque aumentou a incerteza em vez de trazer clareza. A principal frustração foi a ausência de um plano concreto de saída ou de redução das tensões", diz Belitardo.
Segundo o gestor, o ajuste foi imediato e típico de estresse. "Bolsas recuam, o dólar ganha força e o petróleo volta a subir com força, refletindo o medo de interrupções na oferta e pressão inflacionária global".
"O movimento mostra que o mercado vinha parcialmente posicionado para uma solução mais rápida e precisou ajustar expectativas de forma abrupta", afirma Belitardo.
"O tom misturou sinais de avanço com possibilidade de escalada, o que aumenta o prêmio de risco e dificulta qualquer cenário base mais estável. Isso reforça preocupações com inflação mais alta e crescimento mais fraco ao mesmo tempo, um ambiente próximo de estagflação", diz em referência à combinação de inflação alta com crescimento fraco.
Na visão de Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, diante do discurso de Trump, o mercado está agora se ancorando no pior cenário possível diante da ambiguidade do discurso.
"Se de um lado ele sinalizou que o conflito pode se encerrar nas próximas semanas, do outro ele subiu o tom com uma possível escalada, ao indicar novos ataques e até ofensivas contra infraestruturas energéticas no Irã", afirma.
Para Sung, isso tem implicações diretas sobre o petróleo e o fluxo global de commodities. "O mercado está se pegando a uma possível escalada na região, que pode dificultar a reabertura do Estreito de Ormuz e o escoamento de petróleo e outras matérias-primas", conclui.