MBRF: empresa cai cerca de 10% após venda de ações pela SALIC (Germano Lüders/Exame)
Colaboradora na Exame
Publicado em 15 de abril de 2026 às 17h21.
As ações da MBRF (MBRF3), holding resultante da fusão da Marfrig com a BRF, lideraram as perdas do Ibovespa na sessão desta quarta-feira, 15, com queda de cerca de 10%. O recuo ocorre após o mercado reagir à informação de que a Saudi Agricultural and Livestock Investment Company (Salic), braço estratégico do governo da Arábia Saudita para segurança alimentar, vendeu hoje cerca de 70 milhões de ações da companhia, segundo informou o Valor Econômico.
De acordo com o jornal, a Salic — ligada ao fundo soberano saudita Public Investment Fund (PIF) — manteve uma participação de 11% na MBRF após a transação. Parte dos recursos obtidos com a venda será destinada ao pagamento da aquisição da Olam Agri, empresa sediada em Singapura.
No começo da semana, a companhia brasileira havia anunciado a ampliação de seu acordo de fornecimento de carne com a Salic e o avanço nas aprovações para um possível IPO da Sadia Halal. Na sessão desta terça-feira, 14, as ações chegaram a subir 4,14% após essas movimentações.
Isso porque oaditivo ao contrato de fornecimento com a Salic eleva o volume máximo anual de exportações de frango de 300 mil para até 600 mil toneladas e inclui, pela primeira vez, carne bovina no acordo, com potencial de até 270 mil toneladas por ano. O movimento reforça a presença da empresa no Oriente Médio e amplia a parceria com um dos principais compradores institucionais da região.
Apesar da leitura positiva do ponto de vista estratégico do novo acordo, analistas do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) avaliam que o impacto financeiro imediato tende a ser limitado — o que ajuda a explicar parte da reação negativa das ações no pregão.
Segundo o banco, a Salic tem histórico de firmar acordos semelhantes para garantir abastecimento doméstico saudita. No Brasil, a estratégia já havia sido adotada anteriormente tanto com a própria BRF, no segmento de aves, quanto com a Marfrig, no caso da carne bovina, inclusive com aquisição de participação minoritária e assinatura de acordo de acionistas.
Na avaliação do BTG, a ampliação dos volumes contratados parece um desdobramento natural da relação entre as empresas e ganha ainda mais sentido após a criação da Sadia Halal, joint venture responsável pelos ativos da companhia no Oriente Médio (com exceção da Turquia) e principal canal de distribuição das exportações brasileiras para a região.
O banco destaca, no entanto, que os novos volumes não são necessariamente incrementais. O acordo não possui cláusula do tipo take-or-pay (pagamento obrigatório) — isto é, não obriga a efetiva compra das quantidades máximas previstas — e os preços seguem atrelados às condições do mercado internacional. Na prática, isso significa que o aumento do teto contratual amplia o potencial de exportação, mas não garante geração adicional de receita.
Outro ponto relevante é que o prêmio pago pela Arábia Saudita em relação a outros destinos permanece relativamente limitado. Nos últimos 12 meses, cerca de 80% das importações sauditas de frango brasileiro se concentraram em peito desossado e cortes inteiros congelados, com prêmios médios de apenas 5% e 3%, respectivamente, em relação aos preços médios de exportação do Brasil, segundo dados citados pelo BTG.
Como grande parte das exportações brasileiras desses cortes já tem como destino o Oriente Médio — e outros países da região também pagam preços semelhantes — o banco avalia que há pouco espaço para ganhos relevantes de margem apenas com a ampliação do acordo.
No caso da carne bovina, a leitura é semelhante. O preço médio pago pela Arábia Saudita ficou cerca de 2% abaixo do preço médio das exportações brasileiras no mesmo período, reforçando a percepção de que o contrato tem caráter mais estratégico do que financeiro no curto prazo.
Diante desse cenário, o BTG manteve recomendação neutra para MBRF3, com preço-alvo de R$ 26 por ação. A avaliação considera o nível ainda elevado de endividamento da companhia após a reorganização societária e a expectativa de margens operacionais mais pressionadas em 2026 na comparação com 2025 — fatores que seguem limitando o potencial de valorização das ações no horizonte próximo.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o vice-presidente de mercado internacional e cadeia de suprimentos da companhia, Leonardo Dallorto, afirmou que o tempo médio para entregas de cargas no Oriente Médio passou de 40 para 60 dias, dadas as restrições impostas no Estreito de Ormuz. Apesar disso, não há interrupções relevantes no fluxo de entregas até o momento.
Segundo o CEO da MBRF, Miguel Gularte, estoques já haviam sido posicionados estrategicamente no Oriente Médio e na Ásia desde 2024, inicialmente como resposta a questões sanitárias — como os casos de doença de Newcastle e de gripe aviária no ano passado — o que acabou servindo como uma proteção adicional diante do cenário atual.