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Mais de 30 empresas fizeram demissões este ano. A IA não é o único motivo

Quatro em dez empresas esperam reduzir força de trabalho nos próximos anos em função da tecnologia

Onde de demissões: pressão econômica e reestruturação estratégica também contribuem com cortes

Onde de demissões: pressão econômica e reestruturação estratégica também contribuem com cortes

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 21 de maio de 2026 às 09h58.

Última atualização em 21 de maio de 2026 às 15h04.

O mercado de trabalho global atravessa em 2026 uma nova onda de demissões, impulsionada pela adoção acelerada de inteligência artificial (IA), reestruturações corporativas e pressões econômicas. Mais de 30 grandes empresas já anunciaram cortes neste ano, em setores que vão de tecnologia e finanças a varejo, logística e bens de consumo, de acordo com levantamento da Business Insider.

Segundo pesquisa do Fórum Econômico Mundial divulgada no ano passado e citada pelo veículo, 41% das empresas no mundo esperam reduzir suas forças de trabalho nos próximos cinco anos em razão do avanço da IA. Na contramão, o mesmo estudo apontou que vagas em big data, fintech e inteligência artificial devem dobrar até 2030, indicando uma redistribuição das funções no mercado de trabalho, e não necessariamente o desaparecimento delas.

O que está por trás dos cortes

As demissões de 2026 não têm uma causa única. Três grandes vetores ajudam a explicar o cenário atual.

O primeiro e mais recorrente é a adoção acelerada de inteligência artificial. Listagem da Business Insider aponta que empresas como Coinbase, Cloudflare, Atlassian, WiseTech e Freshworks citaram explicitamente a IA como razão central para dispensar funcionários.

A lógica é direta: ferramentas de IA aumentam a produtividade individual a ponto de reduzir a necessidade de determinadas funções ou diminuir drasticamente o tamanho das equipes.

A Freshworks, por exemplo, afirmou que metade do código da companhia já é produzida por IA, movimento que impacta diretamente a demanda por desenvolvedores humanos.

“A IA está mudando a forma como trabalhamos. Ao longo do último ano, vi engenheiros usarem IA para entregar em dias o que antes levava semanas para uma equipe inteira”, escreveu Brian Armstrong, CEO da Coinbase, em comunicado citado pelo Business Insider. “O ritmo do que é possível com uma equipe pequena e focada mudou drasticamente e está se acelerando a cada dia”.

O segundo motivo é a reestruturação estratégica, em que empresas reorganizam prioridades de negócio, encerram divisões menos rentáveis ou realocam investimentos. É o caso da Meta, que primeiro reduziu equipes em áreas como Reality Labs, Facebook, recrutamento, vendas e operações globais enquanto ampliava investimentos em infraestrutura de IA. Na continuação deste processo, a companhia anunciou, nesta quarta-feira, 20, uma nova rodada de cortes, com cerca de 8 mil demissões — aproximadamente 10% da força de trabalho — além da realocação de aproximadamente 7 mil funcionários.

A Target também cortou cargos em sua cadeia de suprimentos para reforçar operações presenciais nas lojas.

O terceiro fator é a pressão econômica e o desempenho fraco em determinados segmentos. A Estée Lauder informou que deve aprofundar cortes podendo atingir 10 mil postos de trabalho diante de resultados abaixo do esperado em pontos de venda físicos. A Epic Games, por sua vez, demitiu mais de mil funcionários, cerca de 20% da sua força de trabalho, após queda no engajamento do Fortnite.

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Já a Saks Global entrou com pedido de recuperação judicial em janeiro antes de cortar 16% do quadro corporativo. As demissões ocorreram após o fechamento de dezenas de lojas e centros de distribuição no primeiro trimestre. A Papa Johns anunciou a demissão de 7% de seus funcionários corporativos em meio a uma ampla reestruturação. A rede informou ainda que fechará 300 unidades na América do Norte até 2027, começando com 200 ainda neste ano.

“Otimizar nosso portfólio de restaurantes e fechar estrategicamente restaurantes com baixo desempenho estão entre as ações mais impactantes que podemos tomar para melhorar a lucratividade dos restaurantes e a saúde da nossa frota”, afirmou Ravi Thanawala, diretor financeiro da Papa Johns, durante a teleconferência de resultados do quarto trimestre, segundo o Business Insider.

Tecnologia lidera os cortes

O setor de tecnologia concentra alguns dos maiores volumes de demissões do ano. A Amazon anunciou a eliminação de cerca de 16 mil cargos corporativos globais em janeiro como parte de um esforço para reduzir a burocracia interna. O movimento se somou a outras 14 mil demissões realizadas em outubro de 2025. Neste mês, a empresa voltou a cortar vagas na equipe de Serviços para Parceiros de Vendas.

A Cloudflare anunciou o corte de 20% de sua força de trabalho global, afetando mais de 1.100 pessoas. A companhia afirmou que o uso de IA cresceu mais de 600% em apenas três meses, levando a empresa a revisar sua estrutura operacional. As ações caíram mais de 14% após o anúncio.

A Atlassian, empresa de software empresarial e criadora do Confluence, informou em março o desligamento de 1.600 funcionários, equivalente a 10% do quadro. Segundo o Business Insider, o CEO Mike Cannon-Brookes reconheceu que a IA “muda o conjunto de habilidades necessárias e o número de cargos requeridos em certas áreas”.

A WiseTech adotou um discurso ainda mais direto ao anunciar o corte de 2 mil funcionários, cerca de 30% do total. 'O fim da era do código manual' foi como o CEO Zubin Appoo definiu a transformação provocada pela IA, segundo o Business Insider. O executivo afirmou que a tecnologia está desbloqueando ganhos de eficiência antes considerados inalcançáveis para a empresa.

A LinkedIn, controlada pela Microsoft, anunciou neste mês demissões em equipes de negócios globais, marketing, engenharia e produto, citando mudanças estratégicas de longo prazo.

Varejo e finanças também sofrem

No varejo, o Walmart informou neste mês o corte ou realocação de cerca de mil cargos corporativos para eliminar redundâncias operacionais. Já a Nike demitiu aproximadamente 1.400 funcionários em abril, principalmente na área de tecnologia, como parte de um plano interno de reestruturação. Em janeiro, a companhia já havia anunciado outros 775 cortes ligados a operações logísticas no Tennessee e no Mississippi.

No setor financeiro, o Citi continua executando um plano de redução de 10% de sua força de trabalho global — cerca de 20 mil funcionários. O banco estima economia de até US$ 2,5 bilhões.

“Essas mudanças refletem os ajustes que estamos fazendo para garantir que nossos níveis de pessoal, locais e especialização estejam alinhados com as necessidades atuais dos negócios”, afirmou um porta-voz do Citi, segundo o Business Insider.

O Standard Chartered anunciou neste mês que eliminará 15% dos cargos corporativos ao longo dos próximos quatro anos, apontando a IA como principal justificativa. “Não é corte de custos, mas substituição, em alguns casos, de capital humano de menor valor pelo capital financeiro que estamos investindo”, disse o CEO Bill Winters em coletiva, segundo a Reuters e citado pelo Business Insider.

Outros setores em transformação

Empresas ligadas à logística e ao comércio eletrônico também intensificaram cortes.

A UPS anunciou redução de até 30 mil postos operacionais neste ano por meio de programas de demissão voluntária, enquanto a Dell registrou pela terceira vez consecutiva uma queda de 10% no quadro de funcionários, encerrando janeiro com 97 mil colaboradores.

A eBay planeja eliminar 800 vagas, cerca de 6% do seu quadro, para alinhar sua estrutura às prioridades estratégicas da companhia. Já o Pinterest anunciou uma reestruturação global com demissões de até 15% dos funcionários, focada em uma estratégia orientada à IA.

“Estamos fazendo mudanças organizacionais para cumprir ainda mais nossa estratégia voltada para IA, que inclui a contratação de talentos com proficiência em IA”, afirmou um porta-voz da companhia, de acordo com a Business Insider.

Fora do universo digital, a Heineken planeja cortar entre 5 mil e 6 mil cargos nos próximos dois anos diante de um ambiente de consumo mais fraco nas Américas e na Europa. A Kenvue, marca de produtos de saúde para o consumidor e fabricante do Tylenol, pretende reduzir 3,5% de sua força de trabalho para simplificar operações e aumentar eficiência.

A Angi, site de anúncios de empreiteiros, anunciou em janeiro o corte de cerca de 350 vagas para reduzir despesas operacionais e otimizar sua estrutura organizacional, citando as melhorias de eficiência geradas pela IA. A companhia estima economia anual entre US$ 70 milhões e US$ 80 milhões, conforme matéria do Business Insider.

O CEO da Crypto.com, Kris Marszalek, afirmou em março que a empresa demitiu 12% de sua força de trabalho, incluindo “cargos que não se adaptam ao nosso novo mundo”.

A General Motors cortou 600 funcionários assalariados de sua divisão global de TI para reforçar equipes com experiência em IA, engenharia de dados e computação em nuvem. A Oracle, Expedia, GoPro, Lululemon, T-Mobile, Tailwind e Workday também realizaram demissões neste ano.

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