Invest

Maior gestora do mundo está menos otimista com a Europa após choque do petróleo

Ações europeias ganharam fôlego como alternativa a ações de tecnologia dos EUA, mas guerra inverteu cenário

Ações de empresas europeias: avaliação piora após conflito no Oriente Médio (THOMAS SAMSON/AFP /Getty Images)

Ações de empresas europeias: avaliação piora após conflito no Oriente Médio (THOMAS SAMSON/AFP /Getty Images)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 22 de abril de 2026 às 14h42.

A BlackRock reduziu seu nível de otimismo com as ações europeias após a recente alta dos custos de energia e o avanço das avaliações do mercado, fatores que diminuíram a atratividade relativa da região frente poucos meses atrás.

Helen Jewell, diretora de investimentos internacionais de ações fundamentais da gestora, disse ao Financial Times que o impacto econômico do aumento nos preços de petróleo e gás, combinado com a redução da diferença de valuation das ações europeias em relação às norte-americanas, levou a uma revisão da tese.

“É difícil estar tão otimista com a Europa quanto estávamos antes”, disse Jewell ao jornal. “Não dá mais para fazer aquelas grandes afirmações de que a Europa está barata”.

Energia mais cara pressiona consumo e empresas

A executiva da BlackRock — que administra cerca de US$ 13,9 trilhões em ativos — destacou que a Europa está mais exposta ao choque global de preços de energia, o que tende a afetar diretamente o consumo no continente e o desempenho das empresas.

Segundo ela, setores como saúde, luxo e industriais — que eram vistos como possíveis motores de recuperação em 2025 após amargarem com a ampla política tarifária de Donald Trump — voltaram a sofrer, desta vez por causa do petróleo mais caro, do aumento do custo de financiamento e da piora das perspectivas para o consumidor.

“Estamos muito preocupados com o consumidor como um todo”, disse Jewell ao FT. “[Ele está] sendo pressionado por juros, inflação. Vai começar a pensar melhor sobre o que está gastando.

Guerra e energia mudaram o cenário do mercado

As ações europeias vinham recuperando espaço no início de 2026, com a busca dos investidores por alternativas às ações de tecnologia dos Estados Unidos. Foram anos de desempenho inferior ao S&P 500.

No entanto, o cenário mudou com o início do conflito envolvendo o Irã. Desde então, o Stoxx Europe 600 chegou a cair quase 12%, enquanto o S&P 500 recuou 8% no pior momento, mas já voltou a renovar máximas históricas.

Jewell explicou ao Financial Times que parte do otimismo inicial com a Europa estava ligada à expectativa a ampliação de setores com mais rentabilidade, além de bancos e defesa. Esse movimento, porém, perdeu força após o agravamento do cenário geopolítico.

Fluxos migraram para ações dos EUA

A mudança de percepção também aparece nos fluxos de investimento. Dados da provedora de dados EPFR mostram que as entradas em fundos de ações europeias recuaram de forma acentuada desde o início do conflito, enquanto ações norte-americanas atraíram, apenas em abril, mais recursos líquidos do que em qualquer outro mês de 2026 até agora.

O divisão de pesquisa e inteligência da BlackRock passou a recomendar nesta semana uma posição acima do índice de referência em ações dos Estados Unidos, refletindo a avaliação de que o país está menos exposto ao choque global de oferta de energia.

Mercado europeu segue com oportunidades

Apesar da postura mais cautelosa, a gestora ainda vê oportunidades em nichos específicos da Europa, como os já citados bancos e área de defesa, além do segmento de semicondutores.

Ainda assim, Jewell alertou ao FT que o posicionamento dos investidores pode estar concentrado em poucos papéis desses segmentos, o que aumenta o risco de correções mais amplas caso surjam notícias negativas.

“A estrutura de mercado está frágil”, afirmou ao jornal. “Se algo acontecer em um desses setores, o mercado todo vai sofrer bastante.”

A avaliação é compartilhada por outras instituições. Segundo divulgado pela FT, Emmanuel Cau, chefe de estratégia de ações europeias do Barclays, declarou que a guerra reforça a percepção de vulnerabilidade estrutural da Europa a choques externos de energia. Nesta semana, o banco recomendou que seus clientes se posicionem para que as ações norte-americanas tenham um desempenho superior ante às europeias. Ainda assim, Cau avalia que a crise pode estimular, no longo prazo, maior investimento público e reforçar a autonomia estratégica do continente.

Acompanhe tudo sobre:EuropaEstados Unidos (EUA)Oriente MédioIndústria do petróleoEnergia

Mais de Invest

Ibovespa ensaia recuperação após queda de 7% em um mês; dólar segue acima de R$ 5

Não basta ter conta bancária, é preciso bem-estar financeiro, diz BC

Nike veste as 12 seleções da Copa, mas ação cai mais de 30% no ano

Apetite por risco em Wall Street tem movimento similar à febre das 'meme stocks'