Lucro de empresas listadas triplica em 2021 puxado por commodities

Vale e Petrobras representaram 40% do resultado líquido; margens cresceram mesmo com pressões inflacionárias, segundo estudo da Economatica
Transporte de minério de ferro: alta acentuada das cotações impulsionou o resultado da Vale em 2021 (Exame/Rogério Reis)
Transporte de minério de ferro: alta acentuada das cotações impulsionou o resultado da Vale em 2021 (Exame/Rogério Reis)
Por Guilherme GuilhermePublicado em 02/04/2022 08:30 | Última atualização em 02/04/2022 09:18Tempo de Leitura: 5 min de leitura

A temporada de balanços do quarto trimestre das empresas listadas na B3 se encerrou nesta semana com forte recuperação em relação ao ano de 2020, marcado pelo início da pandemia da covid-19. O lucro líquido combinado das companhias ficou em R$ 556,69 bilhões em 2021, segundo levantamento da Economatica a pedido da EXAME Invest. O resultado foi 202,7% superior ao registrado no ano anterior e 131,6% maior que o de 2019, pré-pandemia.

Como isso foi possível em um ano ainda fortemente marcado pela pandemia? A resposta passa em ampla medida pela volta da valorização acentuada das cotações de commodities, as matérias-primas produzidas no país. Os destaques da amostra foram Vale (VALE3) e Petrobras (PETR3, PETR4), que multiplicaram seus respectivos lucros no último ano. Sozinhas, elas foram responsáveis por 41% de todo o resultado líquido das empresas da bolsa brasileira. 

O lucro líquido da Petrobras ficou em R$ 106,7 bilhões em 2021, 15 vezes o apresentado no ano anterior, quando o petróleo do tipo Brent, referência para a sua política de preços, tocou o menor patamar desde 1999. 

Mas a recuperação da demanda na esteira da queda de restrições da pandemia manteve os níveis baixos de preços por pouco tempo. Em 2021, a commodity saltou 50% para US$ 75 o barril, impulsionando não só o resultado da estatal mas de todo o setor, que teve lucro 110% superior excluindo a Petrobras. A receita saltou 50,7%, para R$ 291,1 bilhões.

Parte do mercado tem aumentado ainda mais as apostas sobre o segmento agora que o petróleo já é negociado acima de US$ 100, um patamar que era previsto para ser alcançado no médio prazo, mas que foi antecipado com a guerra envolvendo a Rússia, um dos maiores produtores e exportadores da matéria-prima no mundo.

Analistas estimam que o dividend yield da Petrobras fique próximo de 20% neste ano em razão do crescimento da receita, da geração de caixa e dos lucros com a disparada do petróleo.

Os números mais robustos, contudo, vieram da Vale, uma das maiores exportadoras do país. Beneficiada pela disparada do dólar -- que passou boa parte do ano acima de R$ 5,50 -- e pelos preços recordes do minério de ferro, a mineradora lucrou R$ 121,23 bilhões em 2021, 4,5 vezes o valor de 2020. O lucro do setor de siderurgia, com dinâmica semelhante, saltou 480%.

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Além de Vale e Petro

Excluindo Vale e Petrobras em razão de seu gigantismo, a receita líquida operacional de empresas não-financeiras da bolsa cresceu 32,2% em relação a 2020 e 10,3% frente a 2019, encerrando o ano de 2021 em R$ 2,613 trilhões. 

O maior aumento de receita líquida ficou com o setor do agronegócio -- ou seja, de mais um setor produtor de matérias-primas. Ainda longe de terem na bolsa a mesma representatividade que possuem na economia brasileira, as empresas do "agro" vêm ganhando destaque com novas entrantes nos últimos anos, como Boa Safra (BOAS3) e Agrogalaxy (AGXY3). Em 2021, as companhias do setor aumentaram suas receitas em 90%, para R$ 19,2 bilhões.

Os dados levantados pela Economatica, uma das principais plataformas de informações financeiras para o investidor, mostram que não foram somente os indicadores de lucro e receita que melhoraram. As maiores companhias brasileiras saíram da pandemia com mais caixa e margem do que entraram, apesar das pressões inflacionárias.

Sem Vale, Petrobras e empresas do setor financeiro, a margem líquida das companhias listadas cresceu de 11,32% (em 2019) e 11,52% (em 2020) para 15,37% em 2021. Já o dinheiro em caixa somado dessas empresas saltou de R$ 319,4 bilhões, em 2019 para R$ 541,76 bilhões em 2021, favorecido pela janela de ofertas primárias de ações. São operações do mercado de capitais em que os recursos captados junto a investidores são destinados para o caixa das companhias.

Em 2021, as ofertas subsequentes de ações (follow-on, em inglês) movimentaram R$ 130,5 bilhões, de acordo com dados da B3. Desse montante, R$ 90,1 bilhões foram para os cofres das empresas, e o restante, para grandes acionistas que venderam suas participações. 

Como consequência, o crescimento de 69,6% do caixa no período superou o de 43,8% da dívida bruta. Mas não foi suficiente para anular o aumento da dívida líquida, que subiu 30,7% em relação a 2019, para R$ 824,5 bilhões.

Resquícios da pandemia

Entre os setores que mais têm sofrido no período da pandemia destaca-se o de transportes e serviços, grupo que reúne dezesseis empresas, incluindo as companhias aéreas GOL (GOLL4) e Azul (AZUL4). De acordo com o levantamento da Economatica, as empresas do setor somaram prejuízo líquido de R$ 9,2 bilhões em 2021. Ainda que menor que as perdas de R$ 17,2 bilhões em 2020, o resultado foi o pior de todos os setores da bolsa brasileira. 

Outro setor que ficou no vermelho em 2021 foi o de educação, com prejuízo líquido somado de R$ 371 milhões, o que ainda contrastou com o lucro líquido de R$ 997 milhões em 2019, ano anterior ao início da pandemia. Em 2020, o grupo que reúne as principais grupos de ensino do país teve prejuízo líquido de R$ 5,583 bilhões. 

Ao longo dos balanços do quarto trimestre, analistas do BTG Pactual (BPAC11) se disseram animados com a perspectiva de captação de alunos para o primeiro semestre deste ano. Porém eles mantêm recomendação neutra para ações de empresas como Yduqs (YDUQ3) e Cogna (GOGN3) por não enxergarem uma "retomada em V" para o setor.

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