Inflação: com IPCA e Selic mais altos, prefixados se tornam menos atrativos
Repórter de finanças
Publicado em 22 de abril de 2026 às 09h30.
Pela sexta semana seguida os analistas do mercado consultados pelo Banco Central (BC) elevaram as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no Boletim Focus – e, cada vez mais, ele se distancia do intervalo de tolerância de 4,5%. Agora, o IPCA para 2026 foi de 4,71% para 4,80%. Já a Selic, que estava há três semanas em estabilidade, subiu de 12,50% para 13% ao final deste ano.
No meio disso, o investidor olha para os rendimentos de renda fixa. Se a inflação está subindo, é melhor se proteger com Títulos IPCA+? Mas a Selic também está projetada agora mais para cima: qual indexador escolher? E como ficam os investimentos de quem prefixou uma taxa, eles se tornam menos atrativos?
Um dos motivos para essa revisão é a Guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, que está no seu segundo mês. Isso porque o conflito fechou o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo global. O resultado foi um choque de oferta, o que levou o preço do barril tipo Brent saltar da casa dos US$ 60 o barril para perto de US$ 120 no pico da guerra.
“Essa alta gerou um impacto principalmente no frete dos produtos brasileiros, porque subiu o valor do óleo diesel – consequentemente, subiu o valor do frete. Como o Brasil é um país que transporta suas mercadorias através de rodovias, isso faz com que o preço dos produtos avance também”, diz Fernando Felipe especialista em renda fixa da Veedha Investimentos.
Ou seja, o mercado de energia é pressionado, o que afeta diretamente a inflação. Esse ambiente incerto foi, inclusive, citado na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que enfatizou não se comprometer com uma trajetória automática de cortes, já que a atividade apresenta sinais mistos.
“O ritmo e a extensão dos cortes dependem da maior confiança num cenário de convergência da inflação para a meta. Aqui entra a cautela, tendemos a precificar uma chance de uma pausa e juros mais altos por mais tempo”, comenta Viviane Las Casas, especialista em renda fixa da Valor Investimentos.
De forma geral, há consenso entre os entrevistados de que os pós-fixados seguem como a principal base das carteiras no cenário atual de juros elevados.
Segundo Las Casas, “os ativos pós-fixados seguem bastante interessantes” em um ambiente de Selic alta, permitindo boa rentabilidade mesmo em operações com menor liquidez. Ele destaca ainda que, com prazos curtos e intermediários, esses ativos ajudam a reduzir a volatilidade da carteira sem abrir mão de retorno.
Na mesma linha, Carlos Eduardo Oliveira Jr., conselheiro do Corecon-SP e presidente do Sindecon-SP, afirma que os pós-fixados atrelados ao CDI ou à Selic são “a melhor opção no curto prazo”, por oferecerem previsibilidade, baixo risco e liquidez, além de capturarem os juros elevados do momento.
Nos títulos indexados à inflação, o ponto central é proteção de poder de compra e construção de valor no longo prazo. “O IPCA+ protege da inflação e constrói patrimônio”, diz Murilo Azevedo, especialista em Planejamento Financeiro e sócio do Grupo Nexco.
Las Casas destaca que esses ativos “fazem sentido como proteção”, especialmente em um cenário de desancoragem das expectativas de inflação.
Ele também observa que os títulos públicos atrelados ao IPCA estão com taxas extremamente atrativas, como cerca de 7,5% em vencimentos longos, quando a média histórica é IPCA + 6%, o que reforça o interesse para o investidor de longo prazo.
Os prefixados aparecem como a classe mais sensível ao cenário de juros e, por isso, exigem mais cautela. Isso porque esses ativos passaram por forte volatilidade recente.
Las Casas menciona que, após um período de estresse na curva de juros, houve abertura relevante das taxas e, posteriormente, um fechamento — com o mercado ajustando as expectativas, levando o vértice de 2032, por exemplo, de cerca de 14,30% para 13,49%.
Oliveira Jr. é ainda mais cauteloso e afirma que os prefixados são “mais arriscados neste momento”, já que dependem de uma queda mais rápida da Selic. Por isso, seriam mais indicados apenas para quem acredita em um ciclo acelerado de cortes de juros.
“Devem ser usados com estratégia. Não é o momento de travar grandes posições por prazos muito longos”, conclui Azevedo.