Mercados nesta terça: os investidores reagiram nesta terça-feira, 24, à continuidade do conflito no Irã e ao sinais desencontrados sobre possíveis tratativas diplomáticas (Germano Lüders/Exame)
Repórter
Publicado em 24 de março de 2026 às 17h32.
O Ibovespa fechou em leve alta de 0,32% nesta terça-feira, 24, aos 182.509 pontos, em uma sessão marcada por forte volatilidade ao longo do dia, refletindo a alternância de sinais no cenário externo. Já o dólar à vista encerrou com avanço de 0,25%, cotado a R$ 5,253, distante da máxima de R$ 5,28 e próximo da mínima de R$ 5,244.
Após abrir em queda e chegar a recuar mais de 1% na mínima do dia, o principal índice da B3 ganhou força ao longo da sessão, impulsionado principalmente pelas ações ligadas a commodities.
Entre as maiores altas do dia estiveram Minerva (BEEF3) e Marfrig (MRFG3), refletindo o bom desempenho das exportadoras em um ambiente de dólar mais forte. No total, 29 ações fecharam em alta, 20 ficaram estáveis e 33 recuaram. Do lado negativo, o destaque foi a Azzas (AZZA3), que caiu 2,83%.
O destaque entre as blue chips ficou para a Petrobras, que tem peso relevante na composição do índice. Os papéis preferenciais (PETR4) subiram 2,69%, enquanto os ordinários (PETR3) avançaram 2,53%. A Prio (PRIO3) também fechou com alta de 2,53%, seguindo o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional.
O petróleo voltou a subir com força, recuperando-se das perdas da véspera em meio à persistência das tensões no Oriente Médio e incertezas sobre negociações entre Estados Unidos e Irã. No fechamento, o Brent, referência mundial, avançou 4,55%, a US$ 104,49 por barril, enquanto o WTI, mais usado nos Estados Unidos, subiu 4,79%, a US$ 92,35.
Os contratos futuros de petróleo reagiram à continuidade do conflito na região e a sinais desencontrados sobre possíveis tratativas diplomáticas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que negocia com “as pessoas certas” um possível acordo, enquanto autoridades iranianas negam conversas diretas, embora admitam sondagens indiretas.
Em meio às incertezas, também surgiram relatos de que o Irã estaria cobrando taxas elevadas de embarcações que cruzam o Estreito de Ormuz, elevando ainda mais a tensão no mercado.
No câmbio, o dólar manteve viés de alta ao longo do dia, ainda que tenha perdido força na reta final. A moeda foi sustentada pela busca global por proteção diante do aumento da aversão ao risco, além do impacto doméstico da política monetária.
"Dentre as maiores altas estão as empresas de commodities, como Petrobras e Prio, com a alta do petróleo, mineradoras, como Vale e CSN Mineração, e empresas de proteínas, como Minerva e Marfrig. Vale e CSN sobem devido à combinação de alta do minério e do dólar. Minerva e Marfrig sobem influenciadas pela alta do dólar", afirma Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
"Dentre as baixas, temos empresas mais sensíveis aos juros, que estão subindo após a ata mais dura, com empresas como Rumo, Localiza, Direcional, além de bancos (Bradesco/Banco do Brasil) e empresas de energia (Engie, Taesa), que também reagem por sensibilidade à curva de juros", acrescenta o operador.
No cenário doméstico, os investidores também repercutiram nesta terça a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que marcou o início do ciclo de flexibilização monetária, com corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic — o primeiro em dois anos.
No documento, o colegiado destacou que o ambiente de incerteza, especialmente ligado ao conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel, exige cautela na condução da política monetária. “A magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às análises”, afirmou o comitê.
A economista Marianna Costa, da Mirae Asset, avalia que a ata reforça a leitura de que o atual movimento é de “calibração”, com a política monetária ainda em território restritivo.
Segundo ela, já há sinais mais claros de transmissão dos juros mais altos sobre a atividade e a inflação, mas o cenário externo segue como principal vetor de incerteza, o que sugere um ritmo cauteloso para novos cortes.
As projeções do Banco Central indicam inflação de 3,9% em 2026 e de 3,3% no horizonte relevante. O cenário considera câmbio em R$ 5,20 por dólar e incorpora uma forte alta do petróleo no curto prazo, seguida de acomodação ao longo do tempo.
Ainda de acordo com a analista, o ambiente internacional se deteriorou, refletindo tanto o avanço do conflito no Oriente Médio quanto as dúvidas sobre a política econômica dos Estados Unidos, com impactos diretos sobre preços de ativos e expectativas.
No Brasil, a atividade econômica mostra desaceleração mais evidente no fim de 2025, especialmente nos setores mais sensíveis ao ciclo de juros, embora haja sinais iniciais de retomada em 2026, ainda em ritmo moderado. O mercado de trabalho segue como ponto de atenção. "No que se refere ao balanço de riscos, observa-se um viés altista, ainda que formalmente mantida a leitura bilateral", diz Costa.
"Do lado dos riscos de alta, destacam-se: (i) “desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado”; (ii) maior resiliência da inflação de serviços (iii) choques com impacto inflacionário, via câmbio ou condições financeiras. Por outro lado, os riscos de baixa incluem uma desaceleração mais acentuada da atividade doméstica, um cenário global mais fraco e eventual queda nos preços de commodities", acrescenta a economista da Mirae.