Ibovespa barato em dólar? Bom preço não basta para investidor estrangeiro

Cenário negativo nos Estados Unidos somado à inflação e risco fiscal tiram atratividade da bolsa brasileira
Painel de cotações da B3 (Germano Lüders/Exame)
Painel de cotações da B3 (Germano Lüders/Exame)
Beatriz Quesada
Beatriz QuesadaPublicado em 05/07/2022 às 06:21.

A bolsa brasileira derreteu em junho e teve seu pior mês desde o início da pandemia. A queda em dólares, porém, foi ainda maior, e representou uma baixa quase duas vezes maior que a observada em reais. 

O Ibovespa, principal índice da bolsa, caiu em junho 11,5% na moeda brasileira e afundou 19,4% em dólares no mesmo período. O descompasso acompanhou a valorização da moeda americana: como o dólar subiu na comparação entre junho e maio, a bolsa, que já estava atrativa em reais, ficou ainda mais barata em dólares.

A relação preço lucro do Ibovespa – uma das métricas mais observadas pelo mercado – está em 6,9x, menor valor desde a crise de 2008. O prêmio de risco implícito no mercado de ações é o mais alto em 12 anos.

O bom preço, no entanto, não deve ser capaz de atrair os investidores estrangeiros para o Brasil. A visão de que a bolsa no Brasil está “barata” é generalizada entre os investidores estrangeiros, mas eles ainda estão em busca de um catalisador para aumentar suas posições no País. 

“Infelizmente, o otimismo que vimos no primeiro trimestre, com grandes fluxos de capital estrangeiro para o Brasil, acabou. Os investidores estão neutros ou underweight (com exposição abaixo da média do índice de referência) em Brasil”, informou relatório do Itaú BBA, que colheu opiniões de mais de 26 instituições estrangeiras. 

Assine a EXAME e fique por dentro das principais notícias que afetam o seu bolso. Tudo por menos de R$ 0,37/dia

Vale lembrar que, no início do ano, a situação externa era mais favorável. Apesar da perspectiva de aumento de juros, o mercado ainda não enxergava um cenário de recessão nos Estados Unidos, o que tornava investimentos de risco, como ações emergentes, mais atrativos. 

A partir de abril, quando a possibilidade de retração da economia ganhou força, o capital externo teve uma participação bem mais tímida nos negócios da B3. O saldo dos saques ficou perto dos R$ 13 bilhões no segundo trimestre, contra R$ 69 bilhões em aportes nos primeiros três meses do ano. 

“Mercado de país emergente é investimento de risco. Quando o cenário é ruim, o que é mais arriscado perde atratividade, ainda que os preços sejam bons”, avalia Fernando Siqueira, analista da Guide Investimentos.

E, para além dos ventos negativos do exterior, os principais fatores locais no radar dos estrangeiros são a inflação e as taxas de juros, segundo o BBA. Existem muitas dúvidas sobre quando a inflação chegará ao pico e quando o Banco Central começará a cortar as taxas. 

Do lado positivo, a maioria dos investidores estrangeiros reconhece que o BC começou a aumentar as taxas primeiro e provavelmente irá cortá-las antes dos países desenvolvidos. Porém, do lado negativo, ainda pairam muitas dúvidas sobre a situação fiscal do País, que pode continuar a pressionar os preços e as taxas. Há dúvidas também sobre o impacto nas contas públicas da mais recente PEC aprovada no Senado, que libera o gasto de R$ 41 bilhões fora do teto de gastos em ano eleitoral.

As eleições presidenciais, por sinal, estão no cerne do aumento do risco fiscal. “O impacto cresce porque o candidato hoje no poder, o presidente Jair Bolsonaro, está em segundo lugar nas pesquisas. Isso deixa o governo ainda mais propenso a contratar gastos que influenciem o resultado das eleições”, completa Siqueira.

Veja também