Fechamento: principal índice da bolsa brasileira recuou 1,80%, aos 177.098 pontos, enquanto o dólar à vista saltou 2,31%, a R$ 5,009 (Germano Lüders/Exame)
Repórter
Publicado em 13 de maio de 2026 às 16h07.
Última atualização em 13 de maio de 2026 às 18h04.
O Ibovespa aprofundou as perdas e e encerrou com forte queda o pregão desta quarta-feira, 13. As negociações refletiram não apenas o cenário internacional de juros e petróleo, mas também uma piora relevante na percepção de risco político doméstico. O principal índice da bolsa brasileira recuou 1,80%, aos 177.098 pontos, enquanto o dólar à vista saltou 2,31%, a R$ 5,009.
Os ativos brasileiros já operavam sob pressão desde a abertura, em meio à cautela global com inflação nos Estados Unidos, petróleo elevado e tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Mas o movimento ganhou força após o site Intercept Brasil divulgar que Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, negociou R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo analistas, o desempenho negativo tem por trás a reportagem que liga Flávio Bolsonaro a Vorcaro, o que ajuda a explicar a reação mais intensa dos ativos brasileiros, especialmente no câmbio. O movimento afetou principalmente os setores mais sensíveis ao cenário fiscal e aos juros.
"A queda da bolsa tem a ver com a notícia do áudio vazado do Flávio Bolsonaro, sem dúvidas. Isso também faz, inclusive, juros futuros e dólar subirem por conta da aversão ao risco", afirma Bruno Perri, economista-chefe, estrategista de investimentos e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Segundo Perri, o episódio muda a leitura do mercado sobre as chances eleitorais do pré-candidato do PL. "O assunto Master é muito forte, muito ligado à percepção de corrupção no Brasil. Até agora, não vinha sendo associado explicitamente à família Bolsonaro. Isso muda bastante o cenário".Perri avalia que a reação negativa dos investidores não está necessariamente ligada a uma preferência pessoal pelo nome de Flávio Bolsonaro, mas à percepção de que uma eventual candidatura de oposição poderia representar uma política econômica mais ortodoxa e fiscalmente mais rígida.
“O mercado hoje tem uma preferência bastante explícita por uma mudança de regime para uma candidatura de oposição que traga uma política econômica mais ortodoxa, uma política fiscal mais responsável”, disse.
O economista destaca ainda que o impacto foi ampliado porque o caso atinge diretamente expectativas sobre o cenário eleitoral de 2026, influenciando principalmente os juros futuros.
“Isso mexe muito com curva de juros futura. Expectativa fiscal por conta de eleição mexe com curva de juros. E quando olhamos para os setores, tudo que é mais sensível a juros está respondendo. Então, setor imobiliário, bancos e setores ligados à atividade econômica reagem bastante mal a esse noticiário.”
Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil acrescenta que "hoje tivemos o “combo” negativo para Flávio Bolsonaro, que ampliou as perdas do Índice Bovespa no final do pregão", disse.
"O cenário doméstico já era negativo por conta do risco fiscal crescente proveniente de medidas populistas do governo, como o fim da “taxa das blusinhas”e o anúncio do governo de um novo programa que pode usar até R$30 bi do Tesouro Nacional para ajudar na compra de veículos para motoristas de aplicativos e taxistas", afirmou.
De acordo com um gestor consultado pela reportagem, as notícias associando o pré-candidato à Presidência do PL com o dono do banco Master revela também que as eleições já estão fazendo preço. "Daqui para frente esse tipo de notícia vai ser cada vez mais frequente e impactar o mercado cada vez mais", afirmou.
As ações de varejistas de moda caíram em bloco na bolsa brasileira. Em mais um dia de baixa para o Ibovespa, os papéis de C&A (CEAB3) e Lojas Renner (LREN3), ambas da carteira do índice recuaram 4,74% e 3,58%, respectivamente.
As ações da Riachuelo (RIAA3), que não fazem parte do índice, também registraram queda acentuada de 4,64%. O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) identificou as três varejistas com maior exposição ao risco competitivo trazido pela revogação da "taxa das blusinhas". As três compartilham uma característica central: atendem prioritariamente consumidores de renda média e baixa, o segmento mais sensível a preço e mais atraído pelas plataformas asiáticas.
Entre as blue chips, as ações da Petrobras caíram forte, com os papéis ordinários (PETR3) com queda de 2,47%, e as preferenciais (PETR4) recuando 2,43%, superando as perdas do petróleo. Os principais bancos também recuaram com as units do BTG (BPAC11) liderando as perdas, com queda de 3,63%, e o Banco do Brasil (BBAS3) recuando 2,63% às vésperas da divulgação do balanço após o fechamento.
A Vale (VALE3), por sua vez, avançou 1,26%, superando a alta do minério de ferro, que fechou com avanço de 0,31% na Bolsa de Dalian, na China. A Localiza (RENT3) liderou as perdas do Ibovespa com queda de 6,40%.
Mais cedo, os mercados já monitoravam a divulgação da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do IBGE, que mostrou alta de 0,5% nas vendas do varejo em março, renovando recorde histórico e indicando resiliência da atividade econômica brasileira.
No exterior, os preços ao produtor nos Estados Unidos vieram acima do esperado em abril, com alta de 1,4%, reforçando as apostas de manutenção de juros elevados pelo Federal Reserve (Fed) por mais tempo.
No mercado de commodities, o petróleo perdeu força nesta tarde, mas seguiu em patamar elevado. No fechamento, o contrato do Brent para julho caiu 1,99%, a US$ 105,63 por barril na ICE, enquanto o WTI para junho recuou 1,14%, a US$ 101,02 por barril na Nymex.
Apesar da acomodação, investidores seguem atentos aos riscos de interrupção da oferta global após a escalada das tensões no Oriente Médio e aos alertas da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre deterioração rápida dos estoques globais da commodity.