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Ibovespa ainda tem chances de chegar aos 200 mil pontos este ano?

Após rali de 17% no início do ano e correção em março com a guerra no Irã, analistas avaliam se fluxo estrangeiro, queda de juros e rotação global ainda podem levar a bolsa ao marco histórico

Ibovespa nos 200 mil pontos: até está quinta, 12, o índice caiu para 179.284,48 pontos, acumulando uma queda de 5,29% em apenas 12 dias (Germano Lüders/Exame)

Ibovespa nos 200 mil pontos: até está quinta, 12, o índice caiu para 179.284,48 pontos, acumulando uma queda de 5,29% em apenas 12 dias (Germano Lüders/Exame)

Publicado em 13 de março de 2026 às 14h30.

Última atualização em 23 de março de 2026 às 11h54.

Quando a EXAME publicou, em fevereiro, a reportagem "Ibovespa aos 200 mil pontos: o que falta para a bolsa chegar lá", a pergunta parecia mais uma provocação otimista do que um teste real para o mercado.

Ali, no final de fevereiro, o principal índice acionário brasileiro registrava um rali tão intenso que o debate entre os analistas já não era exatamente se a bolsa poderia alcançar esse patamar, mas quando. Alguns, inclusive, vislumbravam um recorde ainda maior, aos 235 mil pontos.

Em dois meses, o Ibovespa saltou de 160 mil pontos para os 191 mil, alta de 17,17%, praticamente a metade da valorização acumulada ao longo de todo o ano de 2025.

Isso porque o início de 2026 parecia reunir todos os ingrediente para o marco: fluxo estrangeiro forte, com mais de R$ 42 bilhões, expectativa de queda de juros no Brasil e uma rotação global de capital para mercados emergentes. Havia, contudo, temores em relação principalmente à política externa dos Estados Unidos que acabaram se confirmando em uma guerra neste mês de março.

No último dia de fevereiro, 28, um sábado, ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra o Irã desencadearam um novo conflito no Oriente Médio que, nesta sexta-feira, 13, entrou em seu 14° dia. O episódio elevou a aversão ao risco global, pressionou os preços do petróleo e trouxe volatilidade aos mercados.

Em poucos dias, o Ibovespa saiu de uma sequência de máximas históricas, 13 no total, para um movimento de correção justamente quando se aproximava do patamar simbólico dos 200 mil pontos.

No primeiro pregão de março, no dia 2, e o primeiro seguinte ao estouro do conflito, o Ibovespa fechou aos 189.307,02 pontos. Até está quinta, 12, o índice caiu para 179.284,48 pontos, acumulando uma queda de 5,29% em apenas 12 dias. Na primeira semana do mês, o índice recuou 4,99%, registrando o pior desempenho semanal desde novembro de 2022.

Mas e os fundamentos?

Segundo análise da XP Investimentos divulgada no início de março, o Brasil tem sido um dos principais beneficiados por uma rotação global de capital para fora dos Estados Unidos.

O movimento ocorre em três frentes: investidores têm reduzido exposição a empresas mais ligadas à inteligência artificial e com elevados investimentos em tecnologia, migrando para companhias mais tradicionais. Há também uma mudança de preferência de ações de crescimento para ações de valor e, por fim, uma rotação regional que tem levado recursos antes concentrados nos Estados Unidos para mercados emergentes.

Esse reposicionamento global ajudou a impulsionar o Ibovespa a novas máximas históricas nos dois primeiros meses do anos, sustentado por um fluxo estrangeiro robusto.

Ainda assim, a própria XP observava que o entusiasmo do mercado já havia atingido níveis muito elevados. O índice de sentimento da casa chegou ao patamar máximo da escala, indicando "otimismo extremo", o que historicamente costuma anteceder períodos de realização de lucros.

Mas mesmo diante desse risco de correção, a instituição revisou sua projeção para o valor justo do Ibovespa ao fim de 2026 para 196 mil pontos, ante 190 mil anteriormente. Em um cenário mais otimista, com queda mais forte dos juros reais e expansão de múltiplos das empresas, o índice poderia alcançar 242 mil pontos, segundo a corretora.

Luis Fonseca, sócio-fundador da Nest Asset Management,destaca, contudo, que fatores domésticos também ajudaram a sustentar o rali recente.

"A estabilidade na economia local, com a inflação sob controle ainda que pressionada, e a postura firme do Banco Central contribuíram para que o Brasil conseguisse participar do rally global", diz. "O ambiente político, apesar de conturbado, também não trouxe nenhuma novidade negativa com potencial de afetar o cenário positivo para o mercado".

Agora, diante da guerra no Oriente Médio que pressiona ativos globais, Fonseca avalia que podemos estar diante de um "choque de curto prazo". "Acreditamos que o conflito representa um choque, o que levou a bastante volatilidade no curto prazo. Ainda é cedo para dizer se representa alguma mudança estrutural, mas tudo indica que se trata de um choque temporário", afirma.

Tão longe e tão perto dos 200 mil pontos

Na visão do gestor, a possibilidade de o Ibovespa atingir os 200 mil pontos neste ano também continua aberta.

"Acreditamos que sim [que a bolsa brasileira tem chances de alcançar os 200 mil pontos]. Estamos muito próximos desse patamar e os fatores que levaram à boa performance recente continuam presentes, notadamente o movimento global em direção a países emergentes e a relativa estabilidade política e econômica que vivemos", afirmou.

Outro ponto importante, segundo ele, é o nível atual de valuation da bolsa local. Fonseca aponta que o Ibovespa saiu de um nível de valuation baixo, onde esteve por todo o período posterior à pandemia, para um patamar que hoje não pode ser considerado "barato", mas que também ainda não atingiu níveis em que possa ser considerado "caro".

"Do ponto onde estamos hoje, o mercado poderia subir ainda cerca de 20% em dólares antes de ficar caro", afirma o gestor.

Um levantamento do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) coloca a recente correção em perspectiva mais positiva. O banco analisou todos os episódios desde 2001 em que o Ibovespa registrou quedas semanais superiores a 4%. Ao todo, foram 59 ocorrências nesse período.

No curto prazo, os analistas da instituição identificaram que o comportamento do índice costuma ser misto após movimentos dessa magnitude. Uma semana depois da queda, o Ibovespa subiu em cerca de metade das vezes, com retorno médio levemente negativo.

Com o passar do tempo, no entanto, o histórico tende a ser mais construtivo. Em cinco semanas, o índice registrou alta em cerca de 64% dos episódios analisados.

"Após 20 semanas, o índice subiu em 73,68% dos casos, com retorno médio de 27,62% e mediana de 21,28%. Esses números sugerem que quedas semanais muito fortes costumam ocorrer próximas a momentos de estresse ou capitulação de curto prazo, frequentemente seguidas por processos de recuperação ao longo dos meses seguintes", afirmaram os analistas Lucas Costa e Gabriela Sporch.

No curto prazo, porém, a trajetória da bolsa ainda é incerta, segundo análise técnica do Itaú BBA. Em relatório nesta quinta, 12, o banco apontou que o índice permanece indefinido e depende do comportamento em torno de níveis importantes de suporte e resistência.

Os analistas da casa projetam que, caso o índice perca a região próxima de 177 mil pontos, o mercado pode abrir espaço para novas quedas. Por outro lado, uma recuperação poderia levar o índice novamente à faixa entre 190 mil e 192 mil pontos.

Para Fonseca, o principal risco para a trajetória da bolsa neste momento está no cenário internacional. "O maior risco hoje seria uma reversão desse movimento dos investidores globais em direção aos países emergentes", afirma.

"Tensões geopolíticas poderiam ter esse impacto ao gerar um movimento de flight to quality, mas isso não aconteceu até o momento. Acreditamos que seria necessário um agravamento substancial para que isso ocorra", acrescenta.

As eleições, que até então eram apontadas como o principal motivo de cautela para o marco dos 20o mil pontos, segue no horizonte de longo prazo. "Não acreditamos que fatores domésticos sejam os mais relevantes nesse momento, mas, conforme as eleições forem se aproximando, eles irão cada vez mais prevalecer em relação aos fatores externos", pondera o gestor.

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