Invest

Hapvida cai 20% após balanço: veja os pontos que deixaram o mercado em alerta

Lucro líquido ajustado ficou em apenas R$ 12,5 milhões, contra R$ 143 milhões esperados pelo BTG Pactual (mesmo grupo controlador da EXAME)

Hapvida: BTG Pactual mantém recomendação neutra para o papel (Divulgação)

Hapvida: BTG Pactual mantém recomendação neutra para o papel (Divulgação)

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 13 de agosto de 2026 às 12h38.

Priorizar nos meus resultados Google

As ações da Hapvida (HAPV3) despencam mais 20% no pregão desta quinta-feira, 13, liderando com folga a pior queda do dia, após a operadora de saúde reportar seus resultados do segundo trimestre de 2026 no dia anterior. Na avalição do Itaú BBA e do BTG Pactual (mesmo grupo controlador da EXAME), os resultados vieram abaixo das expectativas e foram lidos pelo mercado como negativos.

Um dos pontos de destaque é a sinistralidade, ou seja, quanto da receita do plano está sendo consumida pelos gastos com atendimento médico. No momento atual, a empresa está recebendo dinheiro dos clientes, mas uma parcela maior desse dinheiro está sendo gasta para prestar os serviços de saúde. Isso pôde ser visto nos números.

No trimestre, a sinistralidade caixa ficou em 75,2%. Isso significa que aproximadamente R$ 75 de cada R$ 100 recebidos pelos planos foram consumidos pelos custos médicos. E isso piorou. No trimestre anterior, estava 3 pontos percentuais abaixo. Ou seja, cerca de 72,2%. A projeção do Itaú BBA era de uma sinistralidade de 74,6%, enquanto do BTG Pactual era de 74,5%.

Para o banco, um dos motivos da piora desse indicador foi sazonal, já que o segundo trimestre costuma ser mais pesado para as operadoras de saúde. A Hapvida disse que teve mais contas médicas relacionadas ao aumento da utilização dos serviços em março.

Mas há ainda um outro: os processos judiciais. “Além da sazonalidade normalmente desfavorável do segundo trimestre, o desempenho refletiu um maior carregamento de contas médicas relacionadas à utilização mais elevada observada em março de 2026, assim como maiores despesas com depósitos judiciais cíveis, que adicionaram R$ 37 milhões aos sinistros na comparação trimestral”, diz o Itaú BBA em relatório.

Processos e depósitos judiciais

A judicialização voltou a pesar sobre os resultados da Hapvida no segundo trimestre. Segundo o Itaú BBA, a empresa registrou R$ 350 milhões em novos depósitos judiciais líquidos no 2T26, valor consideravelmente acima do ritmo dos trimestres anteriores. Os depósitos judiciais são valores que a companhia precisa desembolsar ou deixar vinculados a processos enquanto as disputas na Justiça são resolvidas.

Com isso, as despesas com contingências e tributos chegaram a R$ 359 milhões, ante R$ 283 milhões no primeiro trimestre e R$ 169 milhões no mesmo período de 2025. Para o banco, a judicialização se consolidou como “a principal fonte de incerteza para os resultados daqui para frente”.

O aumento dessas despesas também ajudou a pressionar o resultado operacional da companhia. O BTG Pactual destacou que a Hapvida teve um EBITDA ajustado de R$ 504 milhões no 2T26, queda de 44% em relação ao mesmo período do ano passado e 30% abaixo da estimativa do banco. Foi o pior resultado de EBITDA da companhia nos últimos cinco anos. A margem Ebitda, por sua vez, caiu 5,5 pontos percentuais, para 6,3%.

De acordo com o BTG, a queda refletiu, entre outros fatores, a piora da sinistralidade, maiores despesas corporativas e de vendas e, principalmente, “um salto nas despesas com contingências, que, por sua vez, estiveram relacionadas à judicialização”.

A relação entre os processos judiciais e o EBITDA, portanto, está principalmente no aumento das despesas que a Hapvida precisa reconhecer em razão dessas disputas. Quanto maiores as contingências e os gastos associados à judicialização, maior a pressão sobre o resultado operacional e, consequentemente, sobre o EBITDA.

O problema não ficou restrito ao lucro contábil: os depósitos judiciais também representam uma saída de caixa para a companhia. Depois do resultado operacional mais fraco e das despesas relacionadas às contingências, a Hapvida terminou o trimestre com prejuízo líquido contábil de R$ 217 milhões, enquanto o lucro líquido ajustado ficou em apenas R$ 12,5 milhões, contra R$ 143 milhões esperados pelo BTG, uma queda de 98,5% ante o mesmo período do ano anterior.

Para os bancos, o ponto de atenção é justamente saber se o aumento da judicialização é pontual ou se representa uma pressão que continuará afetando a rentabilidade da Hapvida.

Beneficiários, ticket médio e revisão da carteira

A Hapvida terminou o segundo trimestre com perda líquida de 16 mil beneficiários de planos de saúde, uma melhora em relação à redução de 44,5 mil no primeiro trimestre. Tanto o Itaú BBA quanto o BTG Pactual destacaram que o principal impacto veio da carteira Corporativa, enquanto os planos Individuais e de Afinidade ajudaram a compensar parte das perdas.

Ao mesmo tempo, o ticket médio aumentou 5,7% na comparação anual, para R$ 306 por mês. Esse avanço, porém, não significa que toda a carteira esteja apresentando a mesma rentabilidade. A Hapvida identificou aproximadamente 947 mil beneficiários, equivalentes a 11% da base de saúde suplementar, cujos contratos estão passando por uma revisão comercial por apresentarem condições econômicas consideradas desfavoráveis.

Segundo os dois bancos, o ticket médio desse grupo é aproximadamente metade do ticket médio da carteira consolidada. A estratégia da companhia, portanto, é revisar esses contratos para tentar melhorar sua rentabilidade, seja por meio de reajustes de preços ou, eventualmente, da descontinuação de alguns planos.

O BTG destacou que cerca de 9 mil das perdas de beneficiários no trimestre já estavam relacionadas a contratos em revisão. Para o Itaú BBA, esse processo pode levar algum tempo, mas indica uma tentativa da Hapvida de deixar de priorizar apenas o crescimento da base e passar a buscar uma carteira mais rentável. Como resumiu o banco, a companhia está fazendo uma “otimização da carteira” para identificar contratos potencialmente deficitários e estabelecer critérios mais rígidos para clientes inadimplentes.

Recomendação neutra

A combinação de maiores depósitos judiciais, piora da sinistralidade e pagamentos de juros pressionou o fluxo de caixa livre no trimestre. A dívida líquida aumentou R$ 236 milhões na comparação trimestral, elevando a alavancagem financeira para 2,49 vezes, ante 2,0 vezes no trimestre anterior, segundo as métricas utilizadas pela companhia.

Desde a chegada da nova equipe, a Hapvida vem promovendo mudanças em sua estratégia, mas os efeitos ainda não apareceram nos resultados. Para o BTG Pactual, a companhia continua enfrentando desafios importantes, como a judicialização, a utilização elevada dos serviços médicos, a estrutura de custos fixos e a perda de participação de mercado, refletida na redução da base de beneficiários.

O banco também chama atenção para o fato de que 11% da carteira de saúde está em condições econômicas desfavoráveis, o que pode levar a Hapvida a aplicar reajustes relevantes nos preços ou até descontinuar alguns contratos.

Apesar de acompanhar os próximos passos da reestruturação, o BTG diz que ainda prefere esperar sinais mais concretos de recuperação antes de incorporar esse potencial ao valor das ações. “Preferimos não antecipar os ganhos da recuperação”, afirma o banco, que mantém recomendação neutra para a Hapvida diante dos riscos de execução e dos desafios operacionais que ainda permanecem.

O preço-alvo do Itaú BBA para 2026 é R$ 13, enquando do BTG Pactual para os próximos 12 meses é R$ 15.

Acompanhe tudo sobre:HapvidaBalanços

Mais de Invest

PIB do Brasil, inflação na Europa e Jolts nos EUA: o que move os mercados

Maior alta do Ibovespa em agosto está de saída do índice; Hapvida liderou perdas

Veja quais empresas da bolsa vão pagar dividendos em setembro

El-Erian: a paixão do mercado por IA tem um preço, e ele aparece nos juros dos EUA