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Gringo reduz posição na bolsa brasileira e local volta a investir, diz BBA

Relatório do Itaú BBA, baseado em encontros com gestores, aponta rotação de fluxo na renda variável brasileira

B3: ações da bolsa brasileira estão com 'valuation' atrativos, afirmam gestores (Eduardo Frazão/Exame)

B3: ações da bolsa brasileira estão com 'valuation' atrativos, afirmam gestores (Eduardo Frazão/Exame)

Mitchel Diniz
Mitchel Diniz

Editor de Invest

Publicado em 30 de março de 2026 às 11h08.

O investidor estrangeiro está reduzindo sua exposição à bolsa brasileira, enquanto o institucional local começa, de forma gradual, a realocar o caixa acumulado nos últimos meses de volta à renda variável. É o que aponta um relatório de estratégia de ações do Itaú BBA. As conclusões foram construídas a partir de encontros diretos com gestores de recursos — os chamados buy-sides — realizados em São Paulo e no Rio de Janeiro. O objetivo, segundo o banco, é justamente traduzir o que os grandes alocadores estão pensando e fazendo na prática.

O gringo hesita

Nas conversas, o Itaú BBA identificou um movimento de cautela crescente do estrangeiro em relação ao Brasil. Embora o país ainda seja visto como um dos poucos mercados emergentes em ciclo de corte de juros — o que historicamente atrai capital externo —, o ritmo mais lento do que o esperado pelo Banco Central Brasileiro gerou questionamentos sobre a magnitude e a visibilidade desse afrouxamento.

Preocupações com o cenário geopolítico global e com o impacto dos preços elevados de energia sobre a inflação também pesaram. O resultado, segundo o BBA, é que parte dos estrangeiros passou a reduzir ou rodar suas posições no país, adotando uma postura mais seletiva.

No período de maior turbulência nos mercados globais, com a Guerra no Irã, a bolsa brasileira recuou 5% em dólar. Ainda que negativo, o desempenho foi melhor que a dos mercados emergentes em geral, que, na média, sofreram uma retração de 11,3%. Essa resiliência é atribuída ao fato de o Brasil ser um exportador líquido de petróleo, o que o coloca em posição favorável em momentos de alta das commodities energéticas.

O local volta à mesa

Se o estrangeiro recua, o investidor institucional brasileiro está fazendo o caminho inverso, ainda que com cautela. Segundo os gestores ouvidos pelo BBA, os fundos locais venderam R$ 36 bilhões líquidos em ações desde o início do ano, ao mesmo tempo em que sofreram resgates de R$ 7 bilhões. O saldo desse movimento foi a construção de uma posição relevante em caixa dentro das carteiras.

Agora, esse colchão começa a ser direcionado de volta à renda variável. O argumento mais citado pelos gestores é que os valuations de empresas brasileira de qualidade voltaram a níveis atrativos após as correções recentes — criando uma janela de entrada que parte dos alocadores não quer perder.

O BBA diz concordar com esse raciocínio e reforça a preferência pelas mesmas empresas que os gestores têm sinalizado: large caps com liquidez, sensíveis a queda de juros e cíclicos domésticos.

Onde o banco vê oportunidade

O Itaú BBA delineou seu posicionamento atual para a bolsa brasileira em três frentes principais.

Na primeira, com juros ainda em patamar restritivo mas em trajetória de queda, o banco prefere empresas mais sensíveis à taxa de juros do que ao ciclo econômico em si. Shoppings, construtoras voltadas à baixa renda e instituições financeiras — bancos tradicionais e empresas de mercado de capitais — estão no topo da lista, em detrimento do setor de consumo.

Na segunda frente, diante da volatilidade geopolítica e dos preços elevados do petróleo, o BBA mantém postura neutra no setor de Óleo e Gás — com overweight (recomendação de compra) em PRIO e underweight leve (equivalente à venda) em Petrobras. Também mantém posição relevante em utilities (serviços básicos), com destaque para Axia (top pick), Eneva e Copel, empresas que se beneficiam diretamente da alta de energia.

Por fim, no campo do fluxo local, o banco vê com ceticismo o apetite por small caps, já que a volatilidade atual torna a liquidez um critério decisivo para os gestores. Commodities, para o BBA, funciona apenas como exposição tática. Vale foi citada por alguns gestores como atrativa nos preços atuais, enquanto Petrobras e PRIO seguem sendo lidas como apostas no cenário de petróleo elevado.

Cautela no horizonte

Gestores estrangeiros também perguntaram ao banco quais ações manter em um cenário de juros "altos por mais tempo". O BBA atribui essa cautela ao início mais lento que o esperado do ciclo de corte de juros pelo Banco Central e às preocupações com o impacto dos preços elevados de energia sobre a inflação — fatores que, segundo o banco, podem comprometer a magnitude e a visibilidade do afrouxamento monetário.

Para o banco, o momento pede seletividade. O caixa dos institucionais locais existe e está sendo realocado, mas o ritmo e a magnitude desse movimento ainda dependem de como o Banco Central vai conduzir o ciclo de afrouxamento nos próximos meses. E de quanto o ambiente externo vai cooperar.

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