Goldman Sachs: 'Abordagem mais prudente seria interromper ciclo de normalização das taxas' (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 22 de abril de 2026 às 10h57.
O Goldman Sachs reduziu a projeção para o corte da taxa básica de juros, a Selic, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O banco americano agora espera uma queda de 25 pontos-base na Selic em abril. Na estimativa anterior, previa uma redução de 50 pontos-base. A revisão levou em conta a deterioração do cenário inflacionário no Brasil.
A reunião de abril do Copom ocorre nas próximas terça e quarta-feira, 28 e 29. E, na avaliação dos analistas da instituição financeira, o ambiente atual exige "prudência" da autoridade monetária.
"Esperamos que a Selic atinja 13% até o final de 2026 e 10,75% até o final de 2027", disse o banco em relatório.
O Goldman destaca que, embora o ciclo de flexibilização monetária siga em curso, a estratégia mais conservadora seria até mesmo interromper temporariamente os cortes. "A abordagem mais prudente seria interromper o ciclo de normalização das taxas para obter maior visibilidade sobre os choques positivos de demanda e negativos de oferta em curso", afirmam os analistas.
Os apontamentos do Goldman acompanham a deterioração das expectativas de inflação no Brasil. No último Boletim Focus, divulgado na segunda, 20, o mercado revisou para nova alta o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pela sexta semana consecutiva. A estimativa agora é de que a taxa fique em 4,80%, acima dos 4,71% registrados na semana anterior.
O mercado também revisou para cima a inflação de 2027, projetando-a em 3,99%, enquanto a expectativa para 2028 foi mantida em 3,60%. O Focus também troue uma elevação de 0,50 ponto percentual da Selic para o ano, com os juros encerrando em 13% até o final de 2026, mesmo expectativa do banco americano.
O Goldman acredita que, apesar da exigência de prudência, a avaliação é que o Copom deve optar, por ora, apenas por reduzir o ritmo de afrouxamento.
Mas a instituição financeira também afirma que a inflação no Brasil permanece elevada e persistente, e que o quadro se tornou ainda mais desafiador nas últimas semanas diante da guerra no Irã, que vem elevando o preço do petróleo no mundo.
"A inflação no Brasil tem se mantido elevada há um longo período, e o cenário acaba de se tornar ainda mais desafiador. O forte choque nos preços do petróleo e do gás, desencadeado pelo conflito no Oriente Médio, está adicionando mais uma camada de complexidade a um ambiente inflacionário já exigente", disseram os analistas.
Um dos pontos de maior preocupação é a perda das chamadas "âncoras" inflacionárias. "Os dados de inflação de março e abril sugerem que as duas principais 'âncoras' da inflação até então, alimentos e combustíveis, estão enfraquecendo". Ao mesmo tempo, o banco observa aceleração nos preços de bens industriais e manutenção de níveis elevados na inflação de serviços, que segue entre 5% e 7%.
"A inflação está se tornando mais disseminada, com o índice de difusão do IPCA subindo para 67,4% em março, e a inflação de serviços permanecendo resiliente entre 5% e 7%", afirma o banco.
Outro fator que reforça o tom de alerta é a deterioração das expectativas. A projeção mediana para a inflação de 2026 subiu para 4,80%, ultrapassando o teto da meta, de 3%.
Na avaliação do Goldman, o Brasil enfrenta hoje uma combinação desafiadora de choques. De um lado, um choque negativo de oferta, com a alta dos preços de energia; de outro, um impulso positivo de demanda, decorrente de estímulos fiscais e de crédito. Esse cenário, somado a um mercado de trabalho apertado e ao crescimento da renda, dificulta a convergência da inflação para a meta.
"Dada a postura expansionista da autoridade fiscal antes das eleições de outubro, a política monetária é vista atualmente como a única âncora macroeconômica crível na economia. O Copom deve manter uma calibração cautelosa até que a trajetória da inflação forneça um 'sinal verde' para acelerar cortes ou um 'sinal vermelho' para parar totalmente o ciclo, caso as projeções continuem acima da meta", conclui o banco americano.