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Ganha bem, mas sente que está sempre sem dinheiro? Pode ser dismorfia financeira

Redes sociais e comparação constante ampliam a sensação de insegurança com dinheiro

'Money dysmorphia': mais de 40% da Geração Z sofre com o fenômeno (Julia Kuznetsova/Getty Images)

'Money dysmorphia': mais de 40% da Geração Z sofre com o fenômeno (Julia Kuznetsova/Getty Images)

Caroline Oliveira
Caroline Oliveira

Colaboradora na Exame

Publicado em 17 de maio de 2026 às 11h45.

Você tem emprego, paga suas contas e ainda sobra alguma coisa no fim do mês — mas, mesmo assim, sente que está sempre à beira de um colapso financeiro. Esse fenômeno tem nome: money dysmorphia, ou dismorfia financeira.

O termo descreve uma percepção distorcida da própria situação financeira, que não condiz com a realidade. "Money dysmorphia acontece quando alguém tem um senso altamente distorcido de seu status financeiro. A pessoa tem um ponto de referência impreciso sobre o que é normal", afirmou o psiquiatra Dr. Lanre Dokun, fundador da Healthy Minds NYC, em entrevista ao Bankrate.

Embora não seja um diagnóstico clínico formal, o conceito tem sido usado para explicar como parte da população lida emocionalmente com dinheiro, patrimônio e sensação de estabilidade financeira.

O fenômeno foi dimensionado pela pesquisa da Qualtrics para o Intuit Credit Karma, realizada em dezembro de 2023 com 1.006 adultos norte-americanos: 29% deles relataram ter uma visão distorcida de suas finanças. Entre os jovens, o índice é maior — 43% da Geração Z e 41% dos millennials dizem experimentar a condição, contra 25% da Geração X e 14% dos respondentes com 59 anos ou mais.

Os dados revelam um contraste entre percepção e realidade financeira. Entre os entrevistados com dismorfia financeira, 37% possuem mais de US$ 10 mil em poupança, e 23% têm mais de US$ 30 mil guardados — valores superiores à mediana de US$ 5.300 registrada nos EUA. Ainda assim, 82% afirmam sentir que estão “atrasados financeiramente”. Entre eles, 48% da Geração Z e 59% dos millennials relatam essa sensação de inadequação.

Ao mesmo tempo, 59% dos entrevistados dizem se considerar financeiramente estáveis, indicando uma desconexão entre percepção emocional e condição financeira objetiva.

“A dismorfia financeira é como a versão moderna da competição para ver quem acompanha o ritmo dos outros”, disse Courtney Alev, defensora das finanças pessoais do Credit Karma. “Muitas pessoas examinam suas finanças e se comparam a seus pares, pessoas nas redes sociais e até celebridades, o que gera sentimentos de inadequação”.

A pesquisa também aponta impactos práticos desse comportamento: 95% dos entrevistados afirmam que a obsessão com dinheiro afeta negativamente suas finanças. Entre os efeitos relatados, 40% dizem que a dismorfia financeira dificultou a formação de uma reserva de emergência, 38% afirmam ter gastado além do necessário e 32% contraíram mais dívidas. Outros 30% disseram que o comportamento prejudicou planos de economizar para comprar um imóvel ou quitar débitos.

Já entre os entrevistados que não apresentam sinais de dismorfia financeira, os níveis de poupança são mais elevados. Segundo o levantamento, 52% possuem mais de US$ 10 mil em economias, e 32% têm mais de US$ 50 mil guardados.

Riqueza crescente, sensação de escassez: efeito das redes sociais

O patrimônio líquido médio das famílias nos EUA atingiu US$ 168,8 trilhões em 2024, segundo dados do Federal Reserve, citados pela Bloomberg Línea. Mesmo assim, apenas 14% dos norte-americanos se consideram ricos, de acordo com a Edelman Financial Engines em matéria da CNBC. Relatório da consultora financeira aponta que está cada vez mais difícil de alcançar a sensação de estar bem de vida, independentemente da quantidade de dinheiro que você tenha.

"Esse problema já existe há muito tempo, mas as redes sociais o levaram a um nível completamente novo", disse Carolyn McClanahan, planejadora financeira certificada e fundadora da Life Planning Partners, em entrevista à CNBC.

Evidências apontam que as redes sociais têm efeito negativo sobre a autoestima — e isso se estende à percepção financeira. "O que descobrimos foi uma forte ligação entre se sentir mal com a sua situação financeira e a quantidade de tempo que você passa nas redes sociais", disse Isabel Barrow, diretora de planejamento financeiro da Edelman Financial Engines.

A comparação constante com padrões de vida exibidos online aparece como um dos principais gatilhos. O fenômeno do RichTok — vídeos de estilo de vida luxuoso que circulam no TikTok e outras plataformas — intensifica essa percepção.

Pesquisa do Oliver Wyman Forum, citada pela Fortune, mostrou que, em 2022, 18% das pessoas sentiam pressão para ganhar dinheiro para se sentir bem-sucedidas. Em 2025, esse número subiu para 33%. Segundo levantamento do Credit Karma de 2024 com 1.510 adultos, 77% da Geração Z e 61% dos millennials buscam ativamente conselhos financeiros em redes sociais — e 40% da Geração Z já tomou decisões financeiras equivocadas com base nessas informações.

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