Donald Trump e Jerome Powell: Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu uma investigação criminal contra presidente do Fed. (Montagem EXAME/Getty Images)
Repórter
Publicado em 13 de janeiro de 2026 às 09h16.
Ex-presidentes do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, criticaram em uma declaração conjunta a investigação criminal aberta contra o atual presidente da instituição, Jerome Powell.
Para eles, a apuração representa uma tentativa de “minar” a independência do órgão responsável pela política monetária americana.
“A investigação criminal contra o presidente do Federal Reserve, Jay Powell, é uma tentativa sem precedentes de usar ataques processuais para minar a independência” do banco central, afirma o texto, assinado também por ex-integrantes de alto escalão da área econômica. Entre os signatários estão os ex-presidentes do Fed Alan Greenspan, Ben Bernanke e Janet Yellen.
Powell informou no domingo que o Fed recebeu uma intimação do Departamento de Justiça e associou a iniciativa à campanha de pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a atuação da instituição.
Em comunicado, o dirigente afirmou que as intimações foram recebidas na sexta-feira e estão relacionadas a um depoimento prestado ao Senado em junho, quando tratou de um amplo projeto de reforma dos prédios do Fed. Powell minimizou o risco de uma acusação penal, tanto em relação ao depoimento quanto ao projeto em si.
“A ameaça de acusações penais é consequência de o Federal Reserve fixar as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que atende ao público, em vez de seguir as preferências do presidente”, afirmou Powell, referindo-se a Trump.
Segundo ele, a intimação ocorre em meio à pressão do governo para que o banco central reduza de forma agressiva as taxas de juros, mesmo com a inflação ainda acima da meta de 2%.
Trump tem feito críticas públicas recorrentes a Powell, a quem já chamou de “cabeça oca” e “imbecil”. Nesta segunda-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse à Fox News que o presidente do Fed “demonstrou que não é muito bom no que faz”.
“Quanto a saber se ele é um criminoso, essa é uma resposta que o Departamento de Justiça terá que encontrar”, afirmou.
Para David Wessel, pesquisador da Brookings Institution, Trump explora a preocupação dos americanos com o custo de vida ao defender juros mais baixos. Segundo ele, se o presidente conseguir influenciar o Fed, os Estados Unidos podem enfrentar inflação mais alta e menor disposição de investidores globais em financiar o Tesouro americano.
“É um jogo perigoso”, avaliou Wessel à AFP, destacando que tanto os mercados quanto setores do próprio Partido Republicano podem reagir negativamente.
Apesar da investigação, os principais índices da Bolsa de Nova York fecharam em níveis recordes nesta segunda-feira. Para Bernard Yaros, economista-chefe para os Estados Unidos da Oxford Economics, o comportamento do mercado indica ceticismo quanto ao impacto da apuração sobre a independência do Fed.
“O fato de as expectativas de inflação terem permanecido estáveis sugere que os mercados estão descartando a investigação como tendo pouco ou nenhum impacto sobre a autonomia do Fed”, afirmou.
O banco central americano, que é independente, tem duplo mandato: manter a estabilidade de preços e o desemprego em níveis baixos. Sua principal ferramenta é a definição da taxa básica de juros, que influencia os rendimentos dos títulos do Tesouro e os custos de crédito na economia.
A investigação também gerou desconforto dentro do Partido Republicano. Alguns parlamentares passaram a manifestar publicamente preocupação com o impacto da ofensiva contra o Fed.
“Os riscos são altos demais para ignorarmos: se o Federal Reserve perder sua independência, a estabilidade dos nossos mercados e da economia como um todo sofrerá”, escreveu a senadora Lisa Murkowski, do Alasca, no X.
Assim como o senador Tom Tillis, Murkowski afirmou que não apoiará um indicado de Trump para o comando do Fed enquanto o impasse persistir. O presidente deve anunciar em breve o nome de quem deseja para suceder Powell, cujo mandato termina em maio.
Desde que reassumiu a presidência em janeiro de 2025, Trump defende cortes nos juros para reduzir os custos de endividamento e sustentar o crescimento econômico, minimizando os riscos inflacionários.
*Com informações da AFP