Fábio Spinola, CIO da Apex Capital: 'cenário favorece emergentes'
Editor de Invest
Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 16h31.
A Apex Capital, gestora independente especializada em ações, fez, recentemente, um movimento curioso. Decidiu reduzir a participação de empresas do varejo no portfólio. Esse é um dos setores que mais devem se beneficiar da queda da taxa básica de juros este ano, após um longo período sendo penalizado. E não é por acreditar que a Selic não vai cair, pelo contrário. "Pode cair mais do que o precificado pelo mercado, 3 pontos percentuais até 3,5 pontos", afirma Fábio Spinola, sócio e diretor de investimentos da Apex.
A decisão de "tomar lucro" com ações do varejo doméstico partiu do desempenho dessas empresas no quarto trimestre. O final do ano costuma ser o período mais próspero em vendas para essas companhias. Mas o excesso de promoções deslocou as datas de compras, diz Spinola. " O Natal vem se deslocando para novembro. Dezembro passado confirmou essa tendência", afirma. Isso fez com que as empresas previssem vendas maiores do que as que de fato aconteceram. As gestoras, por sua vez, se baseiam nessas previsões para elaborar seus modelos. Com menos vendas, a rota precisou ser recalculada.
"Era uma decisão mais óbvia cortar essas posições, pois elas ficariam sem momento operacional que desse alguma sustentação para o preço da ação", explica.
Em paralelo, a Apex elevou sua participação no setor bancário, em dois nomes específicos: Itaú (ITUB4) e BTG Pactual (BPAC11). A gestora também tem uma posição em Nubank, que foi aumentada no segundo semestre do ano passado.
Copel, diz Spinola, foi uma das empresas que mais contribuiu com os resultados das carteiras da Apex em 2025. O setor de energia é um queridinho do portfólio da gestora, que também aposta em Eneva e Axia, ex-Eletrobras. "São empresas que se beneficiam dessa alta de preço de energia", diz o CIO. "Temos a Eletrobras na posição já há alguns anos. E nos níveis que o papel estão aqui agora, a gente reduziu um pouco".
A Apex também gosta de Embraer e vê potencial ainda pouco explorado na linha de defesa da companhia. Por fim, a gestora também defende a tese de IRB, empresa que aos poucos tem voltado ao radar dos investidores, com a possibilidade de retomar o pagamento de dividendos.
Spinola observa que o recente otimismo na bolsa brasileira é impulsionado, em grande parte, por um cenário externo que favorece mercados emergentes. Segundo ele, existe uma "vontade de diversificação de investimentos de Estados Unidos para fora dos Estados Unidos". Este movimento é motivado pela postura imprevisível do segundo mandatado de Donald Trump e as incertezas geopolíticas que levam investidores a buscarem ativos reais (como o ouro) e geografias fora do eixo norte-americano.
Para o investidor estrangeiro, a preocupação com a situação fiscal brasileira é relativizada por um contexto global de deterioração das contas públicas. Spinola utiliza uma metáfora para descrever essa percepção: "aos olhos do gringo... é meio que concurso de feiura", explicando que não é apenas o Brasil que está em uma situação fiscal ruim. Nesse contexto, o investidor acaba focando no preço atrativo dos ativos locais. Para o gestor, mesmo após a disparada da bolsa, as ações continuam bastante descontadas em relação a sua média história e a outros mercados emergentes.
"Os investidores estrangeiros têm nos procurado aprender mais de Brasil, se aproximar para eventualmente alocar", destaca. No entanto, ele alerta que a manutenção desse fluxo é fundamental para o cenário de juros, pois um "revés" poderia causar a desvalorização do real, limitando o espaço para cortes na Selic.
Spinola reconhece que o fluxo de investimentos pode, eventualmente, retornar aos Estados Unidos, embora não acredite que isso ocorra no curto prazo. Um dos principais gatilhos para essa reversão seria uma nova alta de juros americana, cenário que ele não prevê para este ano, mas que classifica como um "ponto de atenção para o ano que vem". Além disso, a resiliência da economia dos EUA, com um crescimento do PIB próximo de 3%, e os ganhos de produtividade esperados com a Inteligência Artificial (IA) podem criar um cenário de "goldilocks" — crescimento sem pressão inflacionária — que voltaria a seduzir os investidores.
Spínola não acredita que o excepcionalismo americano tenha de fato acabado. "Do ponto de políticas públicas, talvez. Mas das empresas não", afirma. "Acho que as empresas americanas são muito inovadoras, são muito criativas, são geradoras de caixa... os Estados Unidos são um mercado incomparável".
No entanto, por enquanto, ele mantém a aposta de que o fluxo para mercados emergentes tem "perna para andar" devido ao valuation ainda muito descontado desses ativos.