Bolsa das pequenas e médias empresas: a listagem da Eletron Energia na BEE4 (Moacyr Neto/BEE4/Divulgação)
Repórter
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 10h00.
O investidor que hoje sustenta os recordes do Ibovespa não é o primeiro público que a BEE4 pretende alcançar.
Enquanto o capital estrangeiro empurra a bolsa para máximas históricas, a plataforma de mercado de acesso aposta, num primeiro momento, no investidor local — hoje mais distante da B3 — para financiar pequenas e médias empresas e abrir um novo caminho de acesso ao mercado de ações no Brasil.
A proposta da BEE4 parte justamente da constatação de que o mercado acionário brasileiro ficou grande demais — e caro demais — para uma parcela relevante das empresas.
Criada como uma plataforma de negociação voltada exclusivamente para PMEs, a BEE4 opera fora da B3 e permite a compra e venda de ações representadas por tokens, estruturadas por meio da tecnologia blockchain.
Não se trata de uma nova bolsa tradicional, mas de um mercado de acesso desenhado para companhias que ainda não têm escala, estrutura ou apetite para cumprir todas as exigências do mercado regulado clássico. Desde o início das operações, em 2022, quatro empresas se listaram na plataforma: Mais Mu, Engravida, Plamev Pet e Eletron Energia.
O plano agora é acelerar esse número com a entrada em vigor do Regime Fácil, iniciativa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que começa a valer em março e foi desenhada justamente para reduzir as barreiras de entrada das pequenas e médias empresas no mercado de capitais.
O novo regime é voltado a companhias com faturamento bruto anual inferior a R$ 500 milhões e flexibiliza uma série de exigências regulatórias. Em vez do Formulário de Referência, passa a valer o Formulário Fácil; a divulgação de resultados deixa de ser trimestral e passa a ser semestral; e as empresas ficam dispensadas do relatório de sustentabilidade previsto na Resolução CVM 193.
Além disso, o Regime Fácil cria a Oferta Direta, modelo que permite a captação diretamente em mercado organizado, sem registro prévio na CVM e sem a necessidade de um coordenador líder.
Os ativos do Regime Fácil serão identificados com o selo de Companhia de Menor Porte (CMP), sinalizando que se trata de papéis com risco potencialmente maior do que ações listadas no mercado tradicional. Mesmo assim, a BEE4 acredita que o segmento tem espaço para crescimento, sobretudo no mercado de dívida, considerado mais adequado ao cenário atual de juros elevados.
"O ano de 2026 será muito volátil, seja pela questão da Selic ou das eleições. Por isso, o nosso papel é estar pronto e preparar o máximo de companhias possível para quando a janela de IPO melhorar", afirma Rodrigo Fiszman, cofundador e chairman da BEE4.
De acordo com o executivo, a maior parte das operações deve ocorrer via emissões de dívida, não de ações. Com juros altos, o custo do capital é elevado, o que faz com que investidores exijam retornos muito maiores sobre os ativos.
"Temos 15% de juros ao ano hoje e o investidor final está exigindo um retorno nesse ativo de pelo menos 40%. Então isso vai levar o preço da companhia lá para baixo e o empresário não vai querer vender nesse nesse patamar", diz ele.
Quando os juros caem, essa exigência de retorno diminui, o valor das empresas sobe para patamares mais aceitáveis, e aí as operações de mercado, tanto emissões de ações quanto de dívida, se tornam viáveis e "o mercado volta a acontecer".
Por isso, a a estratégia da BEE4 neste momento é preparar o máximo de empresas para estar pronta quando as condições de juros melhorarem e a "janela de IPO" se abrir.
A lógica defendida pela plataforma é a de que o acesso ao mercado de capitais é uma jornada. As empresas podem se listar sem captar recursos imediatamente e têm até dois anos para realizar sua primeira operação.
A expectativa é que muitas ingressem agora, façam emissões de dívida no curto prazo e deixem a abertura de capital para quando o ambiente estiver mais favorável.
Para acelerar essa preparação, a BEE4 lançou o RotaFácil, um programa que selecionou 15 companhias finalistas e vai subsidiar os custos de listagem de dez delas. As vencedoras receberão assessoria jurídica especializada, auditoria independente do último exercício, subsídio integral das taxas de listagem e dois anos de isenção na escrituração da primeira operação.
As gravações começam em fevereiro e o conteúdo será exibido ao público no canal da BM&C News, em formato de reality show voltado ao mercado de capitais.
Se do lado da oferta o desafio é preparar empresas para um IPO que ainda demora a chegar, do lado da demanda o desafio é ainda maior.
Hoje, o investidor brasileiro tem participação historicamente baixa no mercado de ações. Enquanto o Ibovespa acumula altas expressivas e renova máximas históricas, impulsionado pelo fluxo estrangeiro, pessoas físicas reduziram sua exposição direta à bolsa e migraram para a renda fixa.
Em janeiro, elas representaram apenas 11% do volume negociado, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima).
Mas é justamente esse investidor que a BEE4 acredita poder atrair. "Para pequenas e médias empresas, no mundo inteiro, quem investe é o investidor local, não o estrangeiro", afirma Cristiana Pereira, membro do conselho de administração da plataforma.
Segundo ela, fundos dedicados a PMEs e investidores pessoa física tendem a liderar esse mercado, enquanto o capital internacional só entra em um estágio mais avançado, quando há escala suficiente para a criação de índices, cestas de ativos e ETFs.
Daniel Debessa, diretor de Desenvolvimento de Mercado e Conexão com Participantes da BEE4, reforça essa leitura. Para ele, o investidor pessoa física tende a se engajar mais quando entende o negócio e se identifica com a tese.
"O investidor quer investir no que ele acredita e no que ele conhece. É muito mais fácil analisar uma empresa do seu segmento do que uma companhia gigante", diz. "Ele olha essas empresas do Regime Fácil quase com um olhar empreendedor".
A bolsa das pequenas e médias empresas se apoia em casos como o da companhia de alimentos saudáveis e suplementos Mais Mu para sustentar a tese.
Após se listar na BEE4, a empresa recebeu um investimento minoritário da British American Tobacco (BAT), a antiga Souza Cruz, e, ao mesmo tempo, passou a ter cerca de mil acionistas pessoa física.
Para a plataforma, o exemplo ilustra como o investidor local pode funcionar como base de um mercado que hoje praticamente não existe no Brasil. "O investidor hoje quer coisas que ele enxerga potencial", afirma Debessa.
Patricia Stille, cofundadora e CEO da BEE4 destaca que a bolsa das PMEs não busca reinventar o mercado, mas sim adaptar práticas internacionais para atender às necessidades das pequenas e médias empresas brasileiras.
A plataforma já conta com uma base de empresários construída ao longo dos últimos anos e com uma rede de consultores de listagem, de boutiques de M&A, bancos, corretoras ou escritórios de advocacia, incluindo nomes como Genial, XP e escritórios de advocacia parceiros, para apoiar as companhias no processo de abertura de capital.
Segundo a CEO, a principal diferença em relação à B3, a Bolsa de Valores do Brasil, está no propósito da plataforma, que se define como "empresa de empresário para empresário". "Esse DNA focado traz um perfil de atendimento mais especializado nesse nicho. Somos focados nessa solução", afirma Stille.