Enjoei entra no mercado de luxo com compra da Gringa, de Fiorella Mattheis

Empresa líder na venda de produtos usados no país complementa o seu portfolio de moda e acessórios com marca fundada por atriz e apresentadora global
Fiorella Mattheis, fundadora da startup Gringa, adquirida pelo Enjoei | Foto: Divulgação (Enjoei/Divulgação)
Fiorella Mattheis, fundadora da startup Gringa, adquirida pelo Enjoei | Foto: Divulgação (Enjoei/Divulgação)
Marcelo Sakate
Marcelo Sakate

Publicado em 10/12/2021 às 07:00.

Última atualização em 10/12/2021 às 08:38.

A economia circular também chegou ao mercado de luxo. E cresce a passos largos. De olho nessa tendência e em uma marca com "identidade única e execução primorosa", na definição de seu CEO, o Enjoei (ENJU3) acertou a compra da Gringa, startup de intermediação e venda de bolsas, sapatos e acessórios de luxo usados fundada por Fiorella Mattheis, atriz, apresentadora e empreendedora. O anúncio foi feito nesta madrugada de sexta-feira, dia 10, por meio de fato relevante.

A aquisição foi fechada por 14,25 milhões de reais, valor com pagamento em dinheiro por 95% do capital da startup, mais 200.025 ações ordinárias que serão emitidas para Fiorella e outros sócios investidores pelos demais 5%. Com o papel negociado a 3,07 reais no fechamento de ontem, essa parcela equivale hoje a cerca de 615 mil reais, mas pode se valorizar potencialmente com a recuperação da ação -- que chegou a 20 reais no começo do ano.

Haverá ainda um earn-out, pagamento adicional que pode chegar a 7 milhões de novas ações ordinárias em 2025, a depender do atingimento de metas, para assegurar o alinhamento de interesses.

A Gringa continuará a operar como marca independente, com Fiorella à frente da operação e como embaixadora -- ela conta com 3 milhões de seguidores no Instagram --, como já acontece, mas de forma integrada à plataforma do Enjoei.

A Gringa funciona como plataforma online de artigos de luxo, com a curadoria como um dos principais diferenciais, e começou a operar em junho de 2020, em meio à pandemia. E já cresce de forma acelerada: o volume de produtos transacionados (GMV, na sigla em inglês) atingiu o valor anualizado de 18 milhões de reais em outubro, com alta anual de 330%. Deve encerrar o ano com expansão de 260%. São mais de 140.000 visitas por mês na plataforma.

O envolvimento de Fiorella com a revenda de itens de moda não é recente. Desde 2015, ela já vendia produtos no Enjoei, montando a sua loja na plataforma na pessoa física. A ideia para montar o seu próprio negócio ganhou força a partir de experiências em 2018 com sites especializados de resale no exterior, como The RealReal e Poshmark.

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É um mercado endereçável -- o de moda de luxo de second hand -- que deve chegar a 10 bilhões de reais no Brasil até 2025, segundo projeções do Enjoei a partir de dados da Euromonitor. E a estimativa é que, desse montante, 2,9 bilhões de reais cheguem ao mercado de fato, tomando como base movimentos ocorridos em outros países.

"Fiorella criou uma marca com alto engajamento do cliente, em que vemos os mesmos princípios do Enjoei. Trouxe uma rede de influenciadoras como embaixadoras da marca, além do que ela própria faz naturalmente. Ela promove dezenas de live shops, que é uma tendência com muito engajamento. Abriu uma pop-up store no Shopping Leblon. Em resumo: ela explora o mercado de second hand em todos os seus caminhos", resumiu Tiê Lima, CEO e cofundador do Enjoei, à EXAME Invest.

"Quando você entra na Gringa e começa a navegar como usuário, a experiência é tão encantadora que, mesmo que você não queira uma bolsa tão cara, começa a pensar se não vale comprar e parcelar", afirmou Ana Luiza McLaren, cofundadora e presidente do conselho de administração do Enjoei.

Ana Luiza McLaren e Tiê Lima, fundadores do Enjoei

Ana Luiza McLaren e Tiê Lima, fundadores do Enjoei: Gringa é a primeira aquisição desde o IPO, há pouco mais de um ano (Leandro Fonseca/Exame)

Esse encantamento se reflete em números de engajamento elevados. Praticamente três em cada quatro bolsas e acessórios que entram na plataforma são vendidos em até três meses, o que significa que já existe uma base consolidada e qualificada que consome os produtos rapidamente. "Os princípios de efeito de rede já estão presentes", disse Lima.

Pesou também para o negócio, segundo Ana Luiza, uma identificação entre as marcas. "De onde é a sua bolsa? Ah, essa é da Gringa. Porque veio de fora, da gringa. Tem uma brincadeira no nome, algo raro nesse mercado de luxo porque as pessoas gostam de falar em inglês, gostam de uma abordagem que não se conecta com o Enjoei fundamentalmente."

A descrição de Tiê Lima sobre a Gringa, de "identidade única e execução primorosa", resume os principais atributos que a startup apresentou para justificar que se tornasse o primeiro alvo de aquisição da companhia desde o IPO (oferta pública inicial, em inglês) na B3 há pouco mais de um ano.

Os fundadores do Enjoei destacaram que buscam sempre uma precisão cirúrgica ao avaliar um potencial alvo e que comprar para acelerar crescimento como um fim em si mesmo -- uma estratégia cada mais recorrente em outros setores -- não está nos planos.

A aquisição da Gringa vai gerar sinergias operacionais e ganho de rentabilidade por transação do Enjoei como um todo, que já atende do público com tíquete mais baixo até o premium por meio do Enjoei PRO.

Segundo Lima, o negócio vai gerar também sinergias de produto e tecnologia para a Gringa, o que, em sua avaliação, será determinante para posicionar a marca como vencedora no segmento de second hand de luxo. Um exemplo citado de compartilhamento de expertise é o modelo de precificação do Enjoei, que opera com uso de inteligência artificial. Também está no plano expandir as categorias de produtos transacionados na startup.

"Esse público precisa de uma operação muito direcionada. Estamos falando de serviços, concierge, buscar o produto na casa da pessoa, verificação de autenticidade, fotografia com mais primor etc. São produtos com tíquete médio de 3.200 reais na Gringa que compensam o esforço para oferecer uma experiência melhor", disse o CEO.

Com a aquisição da Gringa, o Enjoei dá também mais um passo para se posicionar cada vez mais como a plataforma de referência no país quando o assunto é o mercado de segunda mão, tanto em termos de sortimento do lado da oferta como da qualificação da base de clientes, com ampla recorrência de compra.

O número de sellers (vendedores) na plataforma B2B2C aumentou em quase 50% do segundo para o terceiro trimestre, para 87 marcas, incluindo algumas que reforçam a estratégia de ampliar o sortimento em novas categorias, como pets (Zee.Dog), dermocosméticos (Dermage), esporte & fitness (Decathlon) e móveis & decoração.

"Gostamos da ideia de participar ativamente do ciclo de consumo das pessoas. Não queremos ficar só com o armário, ele é só a porta de entrada. Vamos para o quarto inteiro, as gavetas, o quarto do bebê, para a decoração da casa e mais", disse o CEO do Enjoei à EXAME Invest no mês passado sobre os planos da companhia.