Invest

Empresas nos EUA lucraram acima do esperado e o investidor mal percebeu. Culpa da IA

S&P 500 teve pior performance das últimas dez temporadas de balanços, mesmo com alta de 13% no lucro das empresas

Bolsa de Nova York: índice S&P 500 caiu 1,7% durante semanas dos balanços. (xPACIFICA/Getty Images)

Bolsa de Nova York: índice S&P 500 caiu 1,7% durante semanas dos balanços. (xPACIFICA/Getty Images)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 06h00.

O forte crescimento dos lucros das empresas americanas não foi suficiente para sustentar o mercado acionário nas últimas semanas. Mesmo após uma temporada de fortes resultados, o S&P 500 tem sido pressionado por incertezas relacionadas à inteligência artificial (IA), ao cenário global e às tarifas de Donald Trump.

As empresas do índice registraram alta de 13% nos lucros no quarto trimestre, quase seis pontos percentuais acima das expectativas do mercado, e o número de companhias que elevou projeções superou em quatro vezes aquelas que reduziram estimativas, segundo fontes consultadas pela Bloomberg.

Mesmo assim, o S&P 500 caiu 1,7% no período de seis semanas marcado pela divulgação dos balanços, um dos piores desempenhos em dez temporadas de resultados.

A desconexão reflete, para especialistas ouvidos pela agência, um ambiente dominado por incertezas, especialmente após o rali impulsionado pela IA ter elevado as expectativas dos investidores e aumentado as dúvidas em relação ao futuro dos negócios em concorrência direta com a tecnologia avançada.

"Scare trade" e reprecificação de setores

O movimento recente foi marcado pela transição do entusiasmo com a inteligência artificial para uma fase de maior seletividade, seguida pelo chamado "scare trade", caracterizado por uma reprecificação rápida de setores considerados vulneráveis à nova tecnologia.

Esse processo levou investidores a reavaliar empresas de software e fintechs — startups de finanças —, reduzindo os múltiplos que estavam dispostos a pagar, de acordo com o chefe de ações globais e ativos reais do Wells Fargo Investment Institute, Sameer Samana, questionado pela Bloomberg.

A vendas de ações de empresas ligadas ao setor está vinculada ao receio dos investidores sobre os efeitos de longo prazo da IA, desde o aumento dos investimentos necessários por grandes empresas de tecnologia até o potencial de disrupção em diferentes segmentos, segundo o analista da GMO, Tom Hancock.

Ele destacou à agência que esse risco não se reflete 100% nos resultados atuais, criando um descompasso entre os fundamentos e o desempenho das ações.

O receio sobre os impactos futuros da tecnologia ganhou força, ainda, depois de um relatório envolvendo um cenário hipotético pessimista em torno da IA realizado pela Citrini Research, o qual levou diversos índices a despencar, incluindo o Dow Jones, que caiu 1,7%, a 822 pontos, na segunda-feira, 23.

O documento envolvia a ideia que a história econômica moderna é marcada pela inteligência humana como um recurso escasso e valioso, e, agora este privilégio estaria chegando ao fim. Embora não se tratasse de uma visão concreta, o mercado reagiu como se fosse um "apocalipse das máquinas".

Tarifas, crédito e energia ampliam incerteza

A política comercial também contribuiu para a volatilidade, pois a promessa do presidente Donald Trump de impor novas taxas sobre importações reduziu o otimismo e aumentou a incerteza, após decisão proferida pela Suprema Corte dos EUA de invalidar tarifas anteriores, o que descontentou o republicano.

Problemas envolvendo empresas de crédito privado aumentaram também o receio sobre o setor, enquanto tensões geopolíticas no Oriente Médio levantaram preocupações sobre o mercado global de energia, levando investidores a buscar ativos considerados mais seguros, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg.

Apesar do cenário instável, os analistas afirmam que a "base econômica" das empresas continua sólida e deve sustentar o mercado no médio prazo. Além disso, Samana destacou que os investidores precisam de tempo para avaliar a IA, mas que os fundamentos seguem consistentes e podem levar a máximas.

Diretor de pesquisa da Fulton Breakefield Broenniman, Michael Bailey demonstrou, também, confiança na continuidade da valorização das ações caso as projeções de crescimento das empresas seja confirmada e o mercado continuar favorável. Ele vê que o S&P 500 poderá subir entre 10% e 15% ao longo do ano.

Acompanhe tudo sobre:bolsas-de-valoresBalanços

Mais de Invest

Dona da Zara lucra 6,2 bi de euros e prepara expansão de marcas no Brasil

IEA propõe liberar 400 milhões de barris para conter disparada do petróleo

Com R$ 65 bi em dívidas, recuperação extrajudicial da Raízen já é a maior do país

Raízen entra em recuperação extrajudicial com dívida de R$ 65 bilhões