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Empresas estrangeiras têm 'grandes expectativas' com futuro governo brasileiro

Para os presidentes das maiores Câmaras de Comércio estrangeiras no Brasil, a mudança de Executivo não é um problema para investir no país

Comércio Exterior, Investimentos Estrangeiros (REUTERS/Fabian Bimmer/Exame)

Comércio Exterior, Investimentos Estrangeiros (REUTERS/Fabian Bimmer/Exame)

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Carlo Cauti

Publicado em 6 de novembro de 2022, 18h35.

Última atualização em 6 de novembro de 2022, 18h51.

Para as empresas estrangeiras que investem no Brasil, a mudança de governo que foi decidida pelas eleições de outubro não representa um problema. Essa é a opinião dos presidentes das maiores Câmaras de Comércio estrangeiras no Brasil, que salientaram como seus associados tem "grandes expectativas".

Em entrevista exclusiva com a EXAME Invest, os representantes das empresas estrangeiras salientaram como a mudança de governo é algo rotineiro, especialmente para grupos empresariais que operam no país a décadas.

Os executivos explicaram como os desafios para o novo Executivo serão ligados a questões como reforma tributária e atração de investimentos ESG, que poderiam aumentar caso se crie uma melhor dinâmica de diálogo com as empresas internacionais.

Todavia, há questões no radar dos empresários estrangeiros, como um certo risco fiscal ou a possibilidade da volta de políticas protecionistas, na base da agenda nacional-desenvolvimentista que marcou os últimos mandatos do Partido dos Trabalhadores (PT).

Mas, no geral, existe uma certa confiança que o Brasil continuará em um caminho de equilíbrio das contas públicas e de uma economia de mercado, mesmo se com um cunho mais social durante os próximos anos.

Confira os melhores trechos das entrevistas com os presidentes das maiores Câmaras de Comércio estrangeiras sediadas no Brasil.

Para os italianos, as empresas instaladas não irão embora

Para Graziano Messana, presidente da Câmara de Comércio Italiana no Brasil (Italcam), o interesse das empresas italianas não mudará com o novo governo.

Graziano Messana, presidente da Câmara de Comércio Italiana no Brasil (Italcam)

Graziano Messana, presidente da Câmara de Comércio Italiana no Brasil (Italcam) (EXAME/Exame)

"Os investidores italianos estão enxergando sempre mais no potencial do Brasil, isto aconteceu já com governo atual e essa perspectiva não vai mudar com governo Lula. Várias empresas desistiram da Cina durante a pandeia, a Rússia ficou fora do radar. De todos os BRICS, o Brasil é o pais mais interessante para Itália", disse Messana em entrevista à EXAME Invest.

O executivo lembrou como o Brasil conta com mais de mil empresas italianas instaladas no país, onde moram mais de 32 milhões de ítalo-descendentes.

"Durante os últimos anos a Enel se tornou a principal empresa de energia do Brasil e também principal operador de energia renovável, a Ecorodovias (Grupo Gavio) se tornou a principal concessionaria no pais com 4.700 km, a Fiat reafirmou sua liderança do mercado, a Pirelli está terminando a construção do mais moderno circuito de teste da América Latina, a TIM esta investindo R$ 5 bilhões por ano no projeto do 5G. E esses são apenas alguns exemplos de empresas italianas que estão fortemente presentes por aqui. Isso tudo não vai mudar", explica Messana.

Para o presidente da Italcam, "o Brasil mostrou que está se recuperando da pandemia mais rapidamente de outros países. As eleições, bem como a transição entre o atual governo e o próximo, aconteceram sem incidentes maiores. A mídia internacional está mais calma e os investidores com foco em ESG se sentem até mais confortáveis".

A previsão da Câmara Italiana é que os investimentos italianos não somente continuarão no próximo ano mas até aumentarão, tendo "uma certa insensibilidade nessa troca de governos".

Americanos salientam que a prioridade será o meio ambiente

Para a CEO da Câmara de Comércio dos Estados Unidos no Brasil (Amcham), Deborah Vieitas, as empresas tem "grandes expectativas" sobre o novo governo, e "o principal ativo da agenda internacional do próximo Executivo será a pauta do meio ambiente".

A CEO da Câmara de Comércio dos Estados Unidos no Brasil (Amcham), Deborah Vieitas

A CEO da Câmara de Comércio dos Estados Unidos no Brasil (Amcham), Deborah Vieitas (EXAME/Exame)

"A indicação do Presidente Lula de assumir compromissos rigorosos de preservação ambiental e promoção da sustentabilidade tem sido bem recebida e irá favorecer a relação econômica e comercial do Brasil com seus principais parceiros, incluindo Estados Unidos e União Europeia", disse a executiva em entrevista à EXAME invest.

A Amcham reúne mais de 4 mil empresas e representa 1/3 do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Entretanto, a presidente da Amcham salientou como as empresas americanas têm uma preocupação com a questão fiscal. "O investidor estrangeiro e brasileiro quer um cenário de previsibilidade, principalmente nos juros, para fazer um investimento de médio e longo prazo. E a estabilidade dos juros certamente deve ser em patamares inferiores do que estamos vendo hoje. Isso pode ocorrer somente com contas públicas em ordem. Alem disso, seria muito importante prosseguir no caminho de uma reforma tributária que alivie a carga sobre o consumo. Algo que poderia alavancar os investimentos das empresas", disse Vieitas.

Segundo a presidente da Amcham, os investidores seguirão atentamente as novidades macroeconômicas do novo governo, mesmo se ainda não há clareza sobre quem será o ministro da Economia, nem qual será o programa econômico do futuro Executivo.

"Existe uma grande expectativa do que vai ser a agenda econômica. As maiores evidências sobre o que teremos até agora são os economistas e ex membros do governo do PT que estão alinhados com a equipe de transição ou vão colaborar com ela. Esses são bons indicadores, mas ainda insuficientes para se fazer uma avaliação do que será a a nova política econômica do governo. No fundo existe uma expectativa muito clara que o governo foque no combate as desigualdades sociais, que tenha uma agenda ambiental mais importante, na dimensão do que nosso país pode ter, e que também foque no desenvolvimento de um Brasil mais digital. Isso tudo com controle dos gastos, responsabilidade fiscal e liberdade empresarial", disse a presidente Vieitas.

Franceses não vêem riscos com o novo governo

Para Pedro Antonio Gouvêa Vieira, Presidente da Câmara de Comércio França-Brasil, os investidores estrangeiros olham para o Brasil como "um país com muitas oportunidades" e que essa visão não mudará mesmo com um novo governo.

Pedro Antonio Gouvêa Vieira, Presidente da Câmara de Comércio França-Brasil

Pedro Antonio Gouvêa Vieira, Presidente da Câmara de Comércio França-Brasil (EXAME/Exame)

"Há empresas francesas que estão no Brasil há muitas décadas, outras há mais de século, nos mais variados segmentos de negócio, muitas líderes de mercado. Os investimentos são feitos com visão de longo prazo. Não creio que a eleição de Lula mude essa visão", declarou Vieira em entrevista à EXAME Invest.

Segundo o executivo, "não são governos mais voltados para a direita ou para a esquerda que definem esses investimentos, mas é o potencial do país em proporcionar confiança de que os investimentos podem ser feitos com segurança, previsibilidade e com retorno do capital investido".

O presidente da Câmara de Comércio Francesa salientou como o mercado brasileiro é enorme e "há muito a ser explorado".  Além disso, para Vieira a eleição de Lula pode destravar algumas pautas, como o Acordo de Livre Comércio e Parceria Estratégica entre a União Europeia - Mercosul.

Hoje as empresas francesas são as maiores empregadoras do Brasil, com cerca de 600 mil empregos diretos, representando o terceiro maior investidor em estoque no país e são as maiores pagadoras de impostos.

Vieira explicou como não percebe riscos com o novo governo. "O Presidente Lula já governou o Brasil por dois mandatos. Ele conhece os desafios. Na parte econômica e social, seria recomendável que o novo governo fosse semelhante ao primeiro mandato de Lula, no qual a responsabilidade fiscal foi observada, com programas sociais de relevância", diz o executivo, indicando como a equipe de transição "já conta com economistas de peso, que trouxeram o Brasil para uma normalidade inflacionária no início dos anos 90".

"O vice-presidente da República eleito, governou o Estado de São Paulo com foco na responsabilidade fiscal", lembra o presidente da Câmara de Comércio Francesa.

Britânicos salientam necessidade de melhorar o quadro tributário

Para a presidente da Câmara de Comércio Britânica no Brasil (Britcham), Ana Paula Vitelli, existe um "certo otimismo" entre as empresas britânicas com possibilidade aumentar a cooperação e os negócios entre Londres e Brasília.

A presidente da Câmara de Comércio Britânica no Brasil (Britcham), Ana Paulo Vitelli

A presidente da Câmara de Comércio Britânica no Brasil (Britcham), Ana Paula Vitelli (EXAME/Exame)

"Vemos potencial para oportunidades de negócios e cooperação na agenda Brasil-Reino Unido em atividades sobre economia verde, transição energética, descarbonização, e sobre como o setor privado pode potencializar iniciativas voltadas uma agenda econômica mais verde e sustentável", disse Vitelli em entrevista à EXAME Invest.

Entretanto, segundo a executiva, uma das questões mais relevantes que o próximo governo deverá analisar é a reforma tributária.

"Do ponto de vista dos investimentos estrangeiros, acreditamos ser essencial que se avance na reforma tributária, visando a simplificação de impostos e desburocratizando algumas questões, que acabam sendo um entrave para atrair investimentos de fora do país", explico Vitelli.

Além disso, umas das questões que os britânicos consideram "importantíssima" é a "formalização de um acordo para evitar a dupla tributação" que "impactará positivamente no fluxo de investimentos, na agenda de inovação e atraindo produtos de maior valor agregado".

O acordo já está em fase de negociação com o atual governo e setor privado, e a Câmara de Comércio Britânica se disse "otimista para continuar a atuar nessas frentes com o novo governo".

Sobre a possibilidade que o novo governo mude radicalmente a política econômica, Vitelli disse que acredita que será "muito difícil", pois mesmo se "algumas agendas terão outro ritmo, uma grande virada é muito pouco provável, até mesmo pelo contexto da eleição e pela composição do Congresso Nacional".